Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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A volta dos bicheiros

Por lgarcia em 20/04/1998 na edição 43

Antônio Carlos Biscaia (*)

Copyright O Globo, 22/3/98.

 

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urante as investigações realizadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que resultaram no processo e prisão dos 14 maiores “banqueiros” do jogo do bicho, ficou provado que, ao contrário do que a população e até autoridades insistem em imaginar, o jogo criado pelo barão de Drummond para animar os visitantes do seu jardim zoológico particular, nada tem mais de lúdico e inocente.

Atrás da ilusória esperança do povo em “resolver” seus problemas financeiros com a “fezinha” do dia-a-dia, estão “banqueiros” que, reunidos numa verdadeira quadrilha, quase uma famiglia, lotearam bairros, a cidade, o estado, e passaram a ocupar espaços na sociedade como benfeitores preocupados com o bem-estar da população.

Primeiro, tornaram-se patronos das escolas de samba até chegarem a donos do carnaval carioca. Depois, passaram a dominar clubes e jogadores de futebol. E, finalmente, alguns entraram na política, onde, com a imunidade parlamentar, garantiram uma impunidade para os crimes cometidos.

Como a memória do povo é curta, vale lembrar que o Ministério Público apurou o envolvimento de “banqueiros” em mais de 130 homicídios relacionados com o jogo do bicho e comprovou o esquema de corrupção centralizado e dirigido por Castor de Andrade, advogado sem causas cassado pela OAB-RJ, que contabilizou a propina a policiais civis e militares, servidores públicos, inclusive do Ministério Público e do Judiciário, e até a conhecidos políticos que receberam ajuda financeira para suas comprometidas campanhas eleitorais.

Para os que argumentam e tentar separar o cidadão Castor da figura do contraventor Castro, basta lembrar que ele mantinha uma “empresa” voltada para o contrabando de armas, de equipamentos eletrônicos e de máquinas viciadas de videopôquer e que, em localidade próxima à cidade baiana de Porto Seguro, era sócio de uma indústria de pesca que serviria de fachada para destilar cocaína. Pergunta-se: como não considerar o cidadão e o contraventor a mesma pessoa?

O minuto de silêncio que o homenageou no último carnaval não foi um fato isolado, um ato de sentimento cristão dos companheiros de samba, mas a tentativa da retomada de prestígio de antigos e fiéis integrantes da cúpula do jogo do bicho, todos eles, tal qual o líder reverenciado, condenados por crime de quadrilha. Na corajosa e antológica sentença de condenação, a juíza Denise Frossard deixou bem claro que a organização criminosa destinava-se, comprovadamente, à corrupção do aparelho policial e à eliminação das pessoas que se contrapunham aos seus negócios escusos.

O ressurgimento em público de “banqueiros” do jogo do bicho, ex-presidiários, alguns em liberdade condicional, significa uma estratégia para reconquistar a simpatia do povo e de conhecidas autoridades públicas que estão aproveitando este ano eleitoral para posar, sem qualquer restrição, para fotos ao lado de figuras reconhecidamente comprometidas com o crime organizado.

Agora, mais um fato vem reforçar essa estratégia desses “quadrilheiros”. A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro acaba de instituir o “Troféu Castor de Andrade” para premiar o clube campeão da Taça Guanabara. A conduta dos responsáveis por mais uma homenagem póstuma ao cidadão contraventor merece repúdio por constituir violação do princípio constitucional da moralidade e configurar, em tese, apologia de criminoso tipificada no artigo 287 do Código Penal.

A volta dos “bicheiros” não é ameaça apenas para a sociedade carioca. Significativamente – sem dúvida, não por acaso -, foi aprovado recentemente pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, em Brasília, projeto de lei que legalização a exploração de cassinos e do jogo do bicho. A sua aprovação final pelo Congresso Nacional significará a anistia a esses ex-presidiários “regenerados” e lhes dará a esperada chance de legalizarem suas atividades criminosas, que sempre envolveram a prostituição, o financiamento do tráfico de drogas, o contrabando de armas e a corrupção generalizada.

A gravidade dessa ameaça aumenta diante da circunstância do projeto estar sendo discutido em ano eleitoral, quando a “máfia do jogo” se prepara para apostar e investir suas fichas em candidatos que defenderão, quando eleitos, seus escusos interesses, e o pior, sob o manto da imunidade parlamentar.

Mas nem tudo está perdido: neste primeiro semestre, uma nova ação penal em curso no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, referente a autêntica “lista do jogo do bicho” encontrada nos porões do capo di tutti i capi, levará mais uma vez a julgamento “banqueiros do bicho”, delegados de polícia e servidores públicos, cuja rede de corrupção sustentava as atividades ilegais dos “quadrilheiros”.

Que os atuais parlamentares impeçam com o voto a legalização do jogo e que os leitores, em outubro, elejam um novo Congresso Nacional comprometido com a luta pela justiça e contra a impunidade do crime organizado.

(*) Procurador de Justiça.

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