Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > FRAUDE NO NY TIMES

A voz do fraudador

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

FRAUDE NO NY TIMES

"Essa foi minha preferida." Quem falava era Jayson Blair, o repórter de 27 anos do New York Times recém-demitido por cometer uma série de invenções e fraudes jornalísticas em seus quatro anos de trabalho no jornalão. Blair comentava uma de suas reportagens forjadas ? datada de 27/3, que falava da reação da família da soldado americana Jessica Lynch à sua libertação no Iraque ? enquanto comia um bagel.

A família de Jessica mora em Palestine, no estado americano de Virgínia Ocidental. Blair jamais pôs os pés na cidade para entrevistar a família. A mentira foi revelada na investigação que o Times promoveu e publicou no dia 11/5 [veja abaixo links para artigos sobre o assunto]. Blair achou a história engraçada, de acordo com reportagem de Sridhar Pappu [The New York Observer, 26/5/03]. O jovem disse que "a descrição estava totalmente longe da realidade". E que "não conseguia parar de rir."

E riu novamente, quase um mês depois de ser exposto e pedir demissão do Times. De lá para cá, ele se tornou um pária jornalístico, entrou e saiu de uma clínica de reabilitação e chegou à capa da revista Newsweek fumando um cigarro. Suas atitudes mancharam a reputação do Times, deixaram a redação de cabeça para baixo e puseram em questão o futuro do editor-executivo Howell Raines.

Por que ele fez isso? "Eu era jovem no New York Times", disse Blair. "Estava sob grande pressão. Era um negro ali, algo que afeta tanto quanto ajuda. Certamente tenho problemas de saúde, o que provavelmente me obrigou a matar o Jayson Blair jornalista. Ou eu me matava ou matava a persona do jornalista."

Não dá para imaginar Blair em outra atividade. Ele é uma daquelas raras pessoas que parecem ter nascido para o jornalismo. Tem a combinação perfeita de charme, vontade e ambição que levou seus colegas, mesmo quando o escândalo começou a ser revelado, a descrevê-lo como "talentoso".

Mas algo estava errado. Blair abusava de álcool e cocaína. As drogas começaram a intervir em seu trabalho e se tornaram o grande impedimento. O jovem reconheceu que chegou a assinar algumas notas bêbado. Colegas lembram dele caindo pelos corredores. E ele não soube esconder bem seu tormento. Em janeiro de 2002, hospedou-se no Realization Center, uma clínica em Manhattan onde passou seis horas por dia durante duas semanas. "Álcool e drogas eram parte constante de minha automedicação", afirmou.

O repórter disse haver ainda outros fatores. "Qualquer um que disser que minha raça não influenciou na minha carreira no New York Times está mentindo. Tanto preferências raciais como racismo tiveram importância. E devo dizer que não havia equilíbrio: o racismo causava impacto bem maior".

No entanto, Blair discorda da teoria de que escapou por tanto tempo ileso devido ao sistema de cotas de minorias nas redações. Aliás, tal hipótese o deixou irritado. Principalmente quando foi comparado a Stephen Glass, o jornalista branco que fabricou histórias na New Republic. Glass acaba de publicar um romance, The Fabulist (o fabulista), sobre suas próprias "não-ficções ficcionais". Blair, em sua lógica atormentada, garante que pode ser chamado de mentiroso, mas não de um sujeito sem valor. Nenhuma de suas mentiras, segundo o repórter, foi planejada. Também não tinha consciência do que ocorria no momento em que praticava as fraudes.

Blair achou as afirmações que apareceram na mídia dando-o como um favorito de Howell Raines "meio engraçadas". Apesar de seu status ter crescido quando Raines se tornou editor-executivo, em setembro de 2001, Blair afirmou que se sentia melhor sob o comando de seu predecessor, Joseph Lelyveld. "Acho que Raines fez o que tinha que fazer", disse. "Sinto-me mal por sua atual situação, mas acho que boa parte foi culpa dele mesmo". Blair considera-o "um bom homem", mas "talvez um pouco imaturo". Nessa hora, explodiu em gargalhada, batendo os pés no chão, e bradou: "Olha só quem está falando!"

"Particularmente, não gosto de Gerald [Boyd, editor-administrativo]". "Inferir que ele foi meu mentor não é uma boa caracterização, mas sim uma presunção besta baseada em raça. E eu não gosto dele! Como pode ter virado meu mentor?" Boyd, como Blair, é negro.

O único a que Blair não poupou elogios foi o editor da seção de cidade, Jonathan Landman, justamente quem por diversas vezes questionou a reportagem, a apuração e as promoções do jovem na redação.

A nova vida de Blair é bem mais tranqüila: terapia três vezes por semana, recusa de algumas entrevistas e confirmação de outras, e planos para um livro ? por mais que desperte a ira de seus ex-colegas. Por sinal, o repórter já começou a rabiscar as primeiras linhas. Diz ser terapêutico. "Pela primeira vez, estou escrevendo minhas mentiras, e isso me faz perceber que eu, de fato, cometo-as".

Se está arrependido? Mais ou menos. "Claro que fiquei triste por ter desempenhado esse papel nos problemas que o pessoal do Times está tendo agora, mas sinto que eles mesmos causaram isso."

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