Abaixo a mesmice das agências | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA INTERNACIONAL

Abaixo a mesmice das agências

Por lgarcia em 09/10/2002 na edição 193

COBERTURA INTERNACIONAL

Priscila Manni (*)

Há alguma semanas, em um dos cursos que tenho procurado fazer, fui perguntada sobre o que achava da cobertura internacional em televisão, já que trabalho em uma. Mesmo já tendo rondado minhas idéias, nunca havia formulado uma resposta para essa questão.

Pensei em começar uma discussão, talvez procurar saber como acontecia em outros veículos com a mesma área. A minha resposta foi a seguinte: as editorias de Internacional foram tomadas por uma espécie de síndrome das agências. A redação funciona em função do que é veiculado nas diversas gerações, por exemplo, da Reuters, da CNN, da AP. Jornalistas e chefes esperam ansiosamente para ver as imagens que a agência vai mandar.

Tudo isso acontece porque são poucas as emissoras e os veículos que podem arcar com as despesas de um correspondente ou um enviado internacional. Aqueles que não podem, infelizmente, acabam com esta síndrome, que depois de algum tempo se torna um círculo vicioso. Espero o horário da geração, vejo se tem imagens boas, procuro no script da agência o que quer dizer a matéria bruta e edito com algumas outras informações ? sempre tiradas de agências.

A discussão que tentei propor deu resultados. Muitos estudantes, jornalistas e palestrantes que estavam na sala disseram que todos os veículos já caminhavam para ou já haviam chegado à síndrome das agências, com raras exceções, com algumas boas coberturas.

Qual é o problema do círculo vicioso? Aí está. O problema é que o velho sentido da reportagem de TV se perde. Fica invertido o antigo curso da produção da matéria: a pauta levanta uma notícia, o repórter sai para a rua e o editor escolhe as imagens. Com a agência, o editor espera as imagens, verifica a notícia e edita a matéria.

A visão fica individualizada e particularizada, já que não se pode sair dos limites que a agência impõe. Sem um repórter e uma câmera no local, as emissoras têm que aceitar a abordagem e a perspectiva da fonte. Uma visão aceita mesmo não correspondendo à do veículo. A busca por notícias e imagens internacionais acaba transmitindo um produto final que, na maioria das vezes, cai na mesmice. O que passa na Globo passa na TV Bandeirantes, na Record, no Band News e por aí afora.

Idéias jovens

Não que não se façam boas coberturas com material de agências, mas, certamente, as edições ficam prejudicadas e pobres de novidades.

Hoje, são poucos os profissionais que tentam sair do círculo vicioso e que enxergam que a síndrome das agências está ficando catastrófica.

De uma análise sobre as duas maiores e mais usadas agências internacionais pode-se tirar boas conclusões sobre essa discussão. A abordagem das agências Reuters e CNN é muito parecida, e as imagens, quase as mesmas. Por exemplo, na cobertura sobre a possível guerra contra o Iraque vai-se atrás do presidente americano, George Bush, procuram-se boas tomadas da capital iraquiana, Bagdá, joga-se um arquivo de armas químicas e do Saddam Hussein na geração, e a matéria bruta está pronta para ser espalhada para as televisões do mundo todo.

E o povo iraquiano, o que pensa? Como os outros países serão afetados? Como uma crise como esta chegaria ao Brasil? Qual o índice de aprovação do povo americano a um possível ataque?

São perguntas, que, provavelmente, ficarão sem respostas, caso as agências não tenham a idéia de fazê-las.

O que proponho então? Proponho que se busquem formas de sair da mesmice, da chatice, da burocracia da síndrome das agências. Vamos para a rua, falar com um especialista no assunto, fazer um "fala povo", procurar pessoas da nacionalidade ou que de alguma forma estejam envolvidas com o país em foco. Vamos trazer o assunto internacional para o interesse brasileiro. Como influi? No que atrapalha? No que favorece? Vamos tentar buscar notícias em sites pouco usados e por caminhos pouco conhecidos.

É necessário que idéias jovens sejam deglutidas por velhas maneiras de se fazer jornalismo internacional, que um impulso valha mais do que síndromes e manias adquiridas pela falta de espaço, tempo e dinheiro.

(*) Estudante de jornalismo na Universidade Metodista, estagiária do Jornal da Band, na TV Bandeirantes

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem