Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > LÍNGUA & DEMOCRACIA

Abajo el imperialismo… lingüístico

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

LÍNGUA & DEMOCRACIA

Caia Fittipaldi (*)


"Estamos enleaos, boludo… Por la frente, nos pega la Frente Popular. Por el fondo, nos pega el Fondo Monetário." (De O filho da noiva, filme argentino, 2000)


Voltaire está no Masp, em São Paulo. É uma pequena cabeça calva, de mármore branco; no máximo, 20cm de um pequeno sorriso, em que a iluminação perfeita põe sombras e muitas rugas. Só vendo. Companheiro Voltaire!

Hoje, com esse texto do Sêo Rodrigues, do Jornal do Brasil, pela frente, lembrei-me daquele sorrisinho [remissão abaixo]. E lembrei de uma pergunta de Voltaire, no auge da briga contra a Academia Francesa (furiosamente cartesiana), no momento em que, na Inglaterra, Isaac Newton dava os últimos retoques em seu projeto voluntarista de reescrever o universo de cabo a rabo: "Chers Docteurs… ? perguntou Voltaire aos superdoutores do dia ?, "o que tentareis agora, que o universo e todos os astros do cosmos renderam-se ao rei inglês?!"

Mantidas as proporções, Sêo Rodrigues faz aqui as vezes daquela velha academia arrogante: quer conseguir, no grito, que o universo brasileiro continue bem preso em órbitas bem fixas e reservado aos ricos letrados.

É claro que não estamos perdidos, Sêo Rodrigues. Claro que não, e nisso concordamos. Claro também que nosso drama brasileiro extrapola. O drama brasileiro já extrapola quase todos os limites pensáveis, Sêo Rodrigues. E daí? Porque o drama brasileiro extrapola… o senhor prescreve que os extrapolados metamos a viola no saco?

Mas… que temos nós com o PCdoB? O PCdoB foi e é um dos nossos clientes, ao qual prestamos serviços de assessoramento (totalmente gratuito) para políticas para o idioma, no Brasil.

E quem disse que é da natureza intrínseca da internet só falar inglês? Ora essa… a internet só fala inglês para quem só leia inglês. A internet também fala servo-croata (e em altos brados). A internet fala e falará, cada vez mais, a língua em que se construam os melhores conteúdos.

Para quem quiser

Com os Lingüistas Brasileiros para a Democracia, a internet fala francês, alemão, italiano (pouco, que internet e Itália ainda não se acertaram), português de Portugal e galego, basco, espanhol, catalão (fala, conosco, aliás, muito catalão, dado que os catalãos constroem hoje a mais democratizante sociolingüística do planeta) e fala muitas outras línguas, às quais recorremos conforme os saberes disponíveis no grupo, para cada trabalho ou pesquisa.

Para que a sociedade brasileira aprenda a reservar a internet para o inglês americano, contudo, muito contribuem os discursos como o do Sêo Rodrigues, do JB: é dizer, no grito, pelo JB (ou pela Folha de S.Paulo, ou pelo Estado de S.Paulo ou pelo Valor Econômico ou em Veja ou pela televisão), que Miami, shopping center, língua inglesa e internet "é tudo a mesma coisa"… e bingo! Ricos e pobres brasileiros aprendem direitinho e põem-se a repetir, coitados de nós.

Tampouco é dogma incriticável que "a língua falada perde espaço para as imagens".

Apenas dois quarteirões do Brooklyn Paulista, escolhidos absolutamente ao acaso ? com um dardo inglês jogado, de costas, sobre o mapa da subprefeitura ?, e pesquisados porta a porta, para saber quantos leitores a Folha teria ali, nos mostraram o que facilmente se constataria também no prédio onde moro, na Vila Madalena: de 12 residências, onde, um ano antes, havia quatro assinantes da Folha, nenhum mantinha a assinatura, no mês passado [novembro 2001]. Uma das pessoas com quem conversamos disse: "Ninguém mais lia o jornal. Passa tudo na televisão, com menos conversa".

O que significa isso? Que a "língua falada perde espaço etc."? Só se o senhor quiser, Sêo Rodrigues. Para quem não queira ler apenas isso, esse dado obriga a pensar que, no Brasil, todos os discursos argumentativos sociais estão esvaziados e perderam conteúdo. Isso não é verdade para todo o planeta.

Sem títulos e cátedras

A esse processo, que espera melhor análise, no Brasil, os Lingüistas Brasileiros para a Democracia temos chamado de gelequificação dos nossos discursos sociais. É um conceito científico como qualquer outro e facilmente poderíamos providenciar um nome em latim. O que interessa é que o conceito espera boa pesquisa sociolingüística.

Esse é o modo que encontramos para chamar a atenção, no Brasil, para a evidência de que o visualizamento de quase todos os discursos públicos só tem servido ? bem feitas as contas ? ao processo de esvaziar a contra-argumentação racional e, no limite, está esvaziando todos os meios sociais democráticos de conversa, vale dizer, de parlamentação, e, claro, de reflexão e crítica.

Como se contra-argumenta (ironias à parte) ante uma frase como: "A solução? Estatizar a língua! O remédio? Transformar todos os games em ?jogos?, todos os surfistas em ?ondistas?!"

Sincera e seriamente, sem provocação, não há muitas escolhas: ou é arrogância de jornalista desabituado a contestações ou é ignorância cevada nos fracos saberes de e sobre língua construídos e divulgados pela lingüística brasileira, ou é safadeza tout court.

Pode-se escrever "safadeza" ? que não é muito bem-educado ? e pode-se escrever que o autor recorreu ao argumentum ad hominem ? mais elegante. Dá na mesma: em vez de discutir, o Sêo Rodrigues tenta ganhar a discussão no grito e discursa para intimidar ou para desqualificar o interlocutor; quer dizer, ele sofisma.

Não se estatizam línguas. Sempre houve língua local, desde muito antes de haver Estado, no planeta. O que se vê, no mundo, aliás, é totalmente o oposto de estatizamentos: no mundo global, privatizaram-se quase todos os discursos públicos e confiscaram-se quase todas as vozes públicas. No Brasil, também, claro. (Só que, no Brasil, além de os discursos públicos terem sido privatizados temos os tais de analfabetos funcionais.)

É só pensar um pouco: onde o Sêo Rodrigues falaria "como professor", apesar do pouco saber de língua e política e de políticas para línguas que demonstra, se não tivesse o JB, ou a universidade brasileira pós-e-pré-nada que há aí? Ou, no caminho inverso: onde falam, no Brasil, os pobres ? que não têm jornalões (não temos, aliás, no Brasil, nem um único jornal, jornalzinho, que fosse!) nem títulos e cátedras acadêmicas? Onde, afinal, os Lingüistas Brasileiros para a Democracia estaríamos falando, se o Observatório não nos abrisse essa tribuna?

De hífens e índios

Absolutamente não preocupam os Lingüistas Brasileiros para a Democracia os surfistas e os mares maneiros. "Maneiro", aliás, é palavra que tem, no mínimo, mil anos no português: é antiqüíssimo termo de marinaria portuguesa, que nos chegou pelo mar, intacto, diretamente do Restelo a Saquá e Mareca… provavelmente porque as tribos surfistas não lêem JB, Folha, Estadão nem Veja, nem estudam sociolingüística brasileira nem curtem televisão.

Tampouco as contas do PSDB-FHC-FMI-JB do Sêo Rodrigues são discutíveis (no sentido de que não se as podem discutir em plano racional): que progresso deve-se concluir que tenha havido, se "tínhamos mais de 80% de analfabetos literais há oito décadas…" e hoje (80 anos depois!) temos "98,6% dos jovens brasileiros de 15 anos como analfabetos funcionais" (os nossos dados são do Inep, resultado de pesquisa conduzida pelo pesquisador Creso Franco, da PUC-Rio, e apareceram também nesse Observatório, numa das cartas)?

Aliás, aqui sim, Sêo Rodrigues tem toda a razão, e damos a mão à palmatória: a pesquisa do Inep mostrou 98,6% de analfabetos funcionais, no Brasil, entre 11 e 19 anos. Não, como escrevemos, 98,8%. Os Lingüistas Brasileiros para a Democracia erramos. Mas esses brasileiros, não adianta espernear, "não entendem lhufas do que lêem". Fugir disso é superestimar a paciência alheia e subestimar o desespero alheio. Sorry, Sêo Rodrigues, se atrapalhamos o coro de contentes do pessoal aí.

Quanto a semear o pânico, Sêo Rodrigues, tome tento, não temos nada com isso e, por favor, não ponha caras & bocas em nossas palavras. Nunca semeamos pânico algum e estamos aqui, na mó luta, muito confiantes e esperançosos. Tampouco, jamais perderíamos tempo semeando lacerdismos ou pollyanismos interessados. Abaixo todas as viseiras, sobretudo as já quase invisíveis.

Quanto ao hífen, Sêo Rodrigues tem razão: faz falta, no Brasil, um manual que ensine a fazer bom management de hífens. Quanto aos índios, o Sêo Rodrigues, infelizmente, erra feio. Língua moribunda é eufemismo romântico, pra dizer o mínimo. O mundo democrático, hoje, está muito mais preocupado com índio moribundo ? e pobres, em geral; todos, sim, moribundos. Para que uma língua morra é indispensável que, antes, morram os falantes… E como pode uma ciência ter esquecido esse detalhe por mais de 500 anos?!

Imperialismo lingüístico

Sêo Rodrigues, espere um pouco. Calma. Não é absolutamente verdade que um debate "perca nível" (?) simplesmente porque os pobres, de repente, passem a mão no microfone e ponham a boca no mundo. Não há brasileiro que não conheça o recurso de tirar a surdina do piston, para recompor a boa ordem (democrática) na gafieira. Se mais brasileiros pobres ainda não usam esse recurso acessível e barato parece ser efeito do desalfabetizamento do Brasil. Mais um problema para a sociolingüística brasileira investigar.

E que idéia aristocrática é essa, agora, de repente, de meter-se a censurar nossas "maneiras de mesa"? Os falantes pobres do português do Brasil estão entrando no jogo, Sêo Rodrigues. Aos poucos, com a prática, haveremos de aprender a usar corretamente todos os talheres. Há saberes que se só adquirem pelo poder. É ter o JB um pouco de paciência, que os Lingüistas Brasileiros para a Democracia chegaremos lá.

Ninguém jamais pensou em "diques e canais construídos pelo Estado para regular nosso jeito de falar, escrever e viver". Nunca. Nada disso. Mais caras & bocas postas nas nossas palavras. Nada disso.

A idéia de que só a ortografia possa ser regulada por lei é quinhentista, em Portugal, e seiscentista, no Brasil letrado. De fato, essa é uma espécie de idéia-fóssil, que ainda nos poderá ensinar muita coisa, dado que ela sobrevive por aí, surpreendentemente forte, até nos nichos mais aparentemente modernizados. (Esse, porém é assunto para outra discussão, mais bem-equipada, à qual talvez cheguemos, algum dia, se ultrapassarmos as preliminares de indispensáveis xingamentos. Tudo tem história: até os xingamentos, em polêmicas públicas sobre língua de pobre versus língua de rico, e desde que o mundo é mundo.)

O "imperialismo lingüístico" é assunto discutido em todo o mundo, há mais de 10 anos; nós não o inventamos. No máximo se pode dizer que, diferentes nisso da Lingüística Brasileira oficial, os Lingüistas Brasileiros para a Democracia não fugimos desse assunto nem cometemos a temeridade de dá-lo por resolvido.

Influência do português

Não é absolutamente verdade que todos os vocabulários técnico-científicos tenham de ser construídos e usados em inglês norte-americano, por alguma espécie de natureza natural das coisas, ou por algum mistério insondável que cerque as ciências ou as tecnologias.

Desde que o mundo é mundo, as línguas acompanham os exércitos e os interesses mercantis. Portugal chegou à China e à Índia (e em Goa e Macau fala-se português até hoje) e à Indonésia (no Timor, idem) e à África (idem) e, por onde andou, deixou vestígios do idioma. Onde deixou gente, deixou a língua inteira.

O mesmo se pode dizer, com variantes históricas locais, dos exércitos e dos capitais romanos, ingleses, franceses e espanhóis. Essas foram as grandes línguas imperiais que o planeta conheceu. Hoje, é o inglês norte-americano que se espalha pelos mercados globalizados ou em processo de globalizamento. A bem da verdade, não há, aí, qualquer mistério insondável. Os exércitos de ocupação são bem conhecidos, há milênios, como grandes disseminadores de línguas, de filhos e de pestes. Foi verdade nas esquinas da Bósnia por onde passaram os romanos, como é verdade nas esquinas da Bósnia de hoje, por onde passam os marines. E é verdade em Alcântara, no Maranhão.

O problema novo é que hoje há relações lingüísticas diferentes ? todas políticas ? que jamais se discutiram antes, em outros assaltos lingüístico-mercantis que o mundo conheceu.

Pra começar porque, antes, no planeta, quando o velho mundo encontrou o novo mundo (aqui ou na África), nunca se encontraram duas línguas de forte cultura letrada. Onde se encontraram fortes culturas estáveis (por exemplo, na América espanhola e portuguesa), os contatos lingüísticos foram politicamente controlados e, sempre, pelo escravizamento ou pelo genocídio.

De qualquer modo, dificilmente alguém inventará que o português influenciou o inglês britânico ou o chinês ou os idiomas que Portugal encontrou na Índia ou vice-versa. Naqueles contatos, ambos os idiomas, por meios diferentes, protegeram-se. E não houve, nesses casos, projeto colonial de longa duração.

Política para o idioma

Portugal sempre teve muito clara consciência das questões lingüísticas, na empresa colonial. E a história portuguesa é cheia de evidências disso. Já na história oficial da língua no Brasil… tudo sempre lindo, leve e solto… exatamente, no século 16, como hoje, no JB do Sêo Rodrigues. Os portugueses, no século 16, chegaram ao Paraíso e o encontraram desguarnecido. O resto é fábula e sociolingüística de má qualidade.

Política para o idioma, naquele momento, podia ser "cristianizar para civilizar" (que os jesuítas tentaram, pelo menos formalmente, em toda a América) ou o genocídio. No primeiro confronto que se conheceu, entre língua local e língua global, na América, o genocídio provou ser política mais eficaz para gestão das línguas. Hoje, de novidade, apenas, que está em curso outro movimento da mesma guerra.

Essas relações políticas entre os idiomas são estudadas há séculos, em todo o mundo, mas estão, todas, por ser estudadas, no Brasil. Para que comecem a ser estudadas ? por critérios políticos, como essas questões exigem ?, é imprescindível que a sociolingüística brasileira abandone os modelos norte-americanos funcionalistas e DECIDA abrir-se para estudos mais políticos, dos contatos lingüísticos.

Para isso, é imprescindível que a sociedade brasileira seja provida de melhores saberes de e sobre língua portuguesa do Brasil e possa, afinal ? a sociedade brasileira ? cobrar soluções eficazes para os nossos problemas, à nossa ciência lingüística. Sem isso… ficamos na gestão de hífen pra lá e gestão de crase pra cá…

Mas nada disso é, de modo algum, problema lingüístico: todos esses são problemas de política para a ciência e para os idiomas. O que vale para a lingüística vale para a química, a biologia, para todas as ciências e, até, claro, para as matemáticas… Vale, até, para curso de taquigrafia por correspondência. E é inútil enrolar a discussão, sem a sofisticar em termos científicos e históricos e sem orientá-la na direção que, hoje, interessa ao Brasil.

O tempo dirá

Tampouco há qualquer coisa de lingüístico na idéia de que resistir é inútil ou desnecessário e, muito menos, na sandice de que "a lei não vai pegar". Essa é uma idéia feita, arcaicizante, simplória, vendida e comprada baratinho, em qualquer lugar por aí e pateticamente reproduzida e ensinada, no Brasil, pelas lingüísticas oficiais. E que, infelizmente, não ganha melhor qualidade política ou científica pelo simples cuidado de ser ensinado bom português, com letra caprichada, assinada por jornalista de grande jornal ou super doutor das lingüísticas.

De que nos adianta, ao Brasil, defender a idéia de que o haxixe é nosso, se não sabemos ? a sociedade brasileira ? o que seja um balanced scoreboard… programa, aliás, que está sendo analisado, há tempos, para ser implantado na administração pública brasileira, como conseqüência dita natural da tal de flexibilizeixon das relações de trabalho? O que é o tal de balanced scoreboard, Sêo Rodrigues, pelamordedeus, já que o senhor superou o problema dos perros calientes?!

Os Lingüistas Brasileiros para a Democracia criaram-se para introduzir essas questões na lingüística brasileira. Como, afinal de contas, se mudam os problemas de que se ocupa uma ciência social, na parte pobre do mundo contemporâneo, senão por reivindicação da sociedade? Como se assegura a palavra aos pobres?

Como o Sêo Rodrigues recomenda que os falantes pobres do Brasil se comportem, dado que eles decidiram que têm pleno direito de ser objeto de interesse político, para a lingüística brasileira? ("Que eles metam a viola no saco", é claro, não é resposta que se apresente.)

Para os Lingüistas Brasileiros para a Democracia, esse debate mantém excelente nível. E o Observatório continua a fazer boa história, no Brasil contemporâneo. O tempo dirá. Coragem, Sêo Rodrigues: o Brasil é mais!

(*) Lingüista

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