Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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PRIMEIRAS EDIçõES > **

Abordagem parcial

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

VEJA

André Lux (*)

A revista Veja dedicou a capa, mais uma vez, ao ataque terrorista aos EUA. É de conhecimento geral que se trata de uma revista reacionária de direita, mas não seria o caso de nos perguntarmos se Veja não está passando dos limites em sua abordagem parcial e fascista dos acontecimentos de 11 de setembro e suas conseqüências para o mundo?

Vejamos:

** Logo após os ataques, Veja dedicou ao fato reportagem central em que praticamente apenas reproduziu as matérias "oficiais" vendidas pelas agências dos EUA, obviamente, pró-americanas e unilaterais.

** Na edição seguinte, Veja fez a apologia da guerra, trazendo na capa foto estilizada de um super-helicóptero de guerra dos EUA com a manchete "Guerra ao terror". Parecia pôster do novo filme do Rambo (só perdeu para a Época, que trouxe na capa foto gigante do Bush Jr. olhando para os céus com ares de santo). De quebra, Veja dedicou páginas e páginas a atacar e deturpar o islamismo, religião que os "donos" da Veja não entendem e, portanto, não toleram ? preparando assim o "espírito" de seus leitores incautos para o confronto "inevitável" entre o bem e o mal que está por vir.

** Depois, Veja trouxe na capa uma bandeira dos EUA queimando, com a manchete "O vírus anti-EUA: a demagogia que transforma vítima em culpada." Para Veja, não gostar dos EUA é uma doença (vírus). E, como bem sabemos, todas as doenças precisam ser "extirpadas". Adolf Hitler usou da mesma premissa para exterminar judeus durante a Segunda Guerra Mundial. O mesmo fizeram Stálin e tantos outros ditadores. Pior: coloca no mesmo caldeirão terroristas mercenários e pessoas que simplesmente não concordam com a política governamental dos EUA e sua propaganda mentirosa.

Além disso, quer nos convencer de que aquele país foi vítima inocente de um ataque covarde, feito por gente invejosa e alucinada. Parecem ter esquecido de todas as barbaridades que os EUA já cometeram no mundo inteiro nas últimas décadas (Hiroshima e Nagasaki, Vietnã, Laos, Camboja, El Salvador, Nicarágua, Chile, Peru, Irã, Iraque, Bósnia etc. etc.) em nome de uma política expansionista e imperialista, vendida aos "macacos do terceiro-mundo" como "luta pela liberdade e democracia" (sic). O próprio Osama Bin Laden, hoje pintado como o novo antiCristo, foi financiado pelos EUA durante anos, quando a eles interessavam seus atos terroristas.

Falta cautela

E Veja nem sequer leva em conta os longos anos da ditadura militar que assombrou o nosso próprio país, quando imperou a censura e milhares de pessoas (inclusive colegas jornalistas) foram torturadas e mortas, com o apoio financeiro e político irrestrito dos EUA.

O ataque terrorista aos EUA, por mais repugnante e trágico que possa ter sido, é apenas mais um exemplo prático do fenômeno que a física chama de "ação e reação", e a sabedoria popular, de "Brincou com fogo acabou queimado". Cedo ou tarde isso iria acontecer, como qualquer pessoa bem informada previa. Ninguém esperava apenas que fosse com tamanha intensidade e precisão. É, mais uma vez, David contra Golias. Só que agora que levou uma pedrada no olho, Golias posa de inocente e faz de conta que nunca pisou em nenhum Davi, que não passam de um monte de loucos varridos e invejosos. E estão aí a Veja e seus "zangões" para nos fazerem acreditar nessa ladainha grotesca.

Um assunto delicado e complexo como esse merecia abordagem e análise no mínimo cautelosas e imparciais. Mas Veja, infelizmente a maior formadora de opinião do Brasil, mais uma vez envergonha a classe dos jornalistas ao transformar propaganda panfletária pró-EUA e pró-racismo/intolerância (que até caberiam em editorial assinado) em verdade factual incontestável.

Lamentável e deplorável.

(*) Jornalista e cidadão brasileiro

 

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