Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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ACM, a mãe de todos os grampos

Por lgarcia em 28/02/2001 na edição 110

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MEMÓRIAS DAS TREVAS, FASE 2

A declaração do procurador da República, Luiz Francisco de Souza, de que a divulgação das gravações das conversas com ACM foi comandada por Fernando César Mesquita (funcionário da Presidência do Senado e um dos principais assessores de ACM) confirma o que todos desconfiavam: o senador baiano é o principal distribuidor de grampos para a imprensa (Folha de S.Paulo, 26/2, "Procurador cobra ‘ação concreta’ de ACM", pág. A 5).

É, portanto, a matriz desta contrafação da reportagem investigativa que assola a imprensa brasileira. Filha bastarda do jornalismo e da intriga política, a distribuição de grampos é uma das armas de última geração do arsenal do ex-presidente do Senado. Tendo começado como repórter político na Bahia, jamais perdeu de vista o binômio sobrevivência política-boas relações com a imprensa – o qual encontrou o seu momento estelar no complô do silêncio em torno do livro Memórias das Trevas.

Nos últimos dias, a mídia levantou oito crises políticas ocorridas nos últimos seis anos, todas acionadas a partir da divulgação de fitas gravadas clandestinamente:

1) Caso Sivam;

2) Privatização da telefonia, BNDES – primeira fase;

3) Compra de votos para a reeleição;

4) Privatização da telefonia, BNDES – segunda fase;

5) Depoimento do ex-juiz Lalau;

6) Aliciamento pelo PMDB de deputados baianos do PFL;

7) Denúncia de grampo na casa do deputado Inocêncio de Oliveira;

8) Conversa de ACM com procuradores da República.

Nas rodas jornalísticas, gastronômicas e políticas da Capital Federal o senador ACM é apontado como pivô intelectual ou efetivo de cinco desses oito episódios: as duas divulgações de grampos relacionados com a privatização da telefonia, o aliciamento dos deputados do PFL baiano, a denúncia do grampo na casa do deputado Inocêncio e, agora, a conversa de ACM com integrantes do Ministério Público.

A divulgação do grampo sobre a compra dos votos para a reeleição é atribuída a Paulo Maluf e o "depoimento" do ex-juíz Lalau foi articulado pelo senador cassado Luiz Estêvão.

(Não estão incluídas as crises produzidas pela divulgação de dossîes Cayman e "Pasta Rosa" – o primeiro distribuído pela turma de Paulo Maluf e o segundo, de origem ainda não estabelecida.)

Ao comparar-se com Carlos Lacerda, a grande estrela do moralismo farisaico da UDN, o senador ACM foi traído pela memória. O ex-governador carioca, "derrubador de presidentes", foi também um grande produtor de denúncias espetaculares, nem sempre verazes. Dispondo de tecnologias mais primitivas, Lacerda era um fértil produtor de telegramas secretos e de teorias conspirativas escalafobéticas, inclusive com farta exibição de metralhadoras no plenário da Câmara dos Deputados.

** Opinionistas do Grupo Globo começam a furar o embargo protetor em torno de ACM. Com ou sem ordem superior, ACM começa a aparecer sem o tradicional colete à prova de cacetadas. O cartunista da primeira página do Globo tem sido o mais ousado em criticar o amigão.

** O editorial do Globo de sábado (24-02, pág. 3, com chamada na primeira) é uma preciosidade. Intitula-se "O incendiário" e levou todos os leitores – bem ou mal informados – a imaginar que seria o primeiro petardo do combativo grupo jornalístico contra ACM. Enganaram-se todos: para o editorialista, incendiário é o procurador da República Luiz Francisco de Souza. Como se designária aquele que entregou, ao incendiário, o combustível, a mecha e os fósforos?

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