Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Acrítica e orgulhosa

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

ESTILO VEJA

Jonas Medeiros (*)

A revista Veja escreve (n? 1.719, de 26/9/01) na Carta ao Leitor: "Veja se orgulha de ter cumprido [na edição anterior] seu papel de informar com exatidão e analisar em profundidade e sem rodeios as reais dimensões da tragédia que mudou o curso da história mundial", "[a edição atual] tem a mesma ambição da que a precedeu: ser um porto seguro de informações exatas e análises da grave situação de guerra…"

Quem lê o artigo "O que incomoda na revista Veja", de Luiz Antônio Magalhães, encontrado no Observatório da Imprensa [ver remissão abaixo], se espanta com a visão que a revista tem de si mesma: acrítica e orgulhosa. Ao percorrer a seção Cartas, verifica-se o grande número de comentários que opinam favoravelmente sobre a maneira como Veja abordou os ataques na sua Edição Especial. Comentários como ?primorosa a reportagem?, ?Veja é a melhor revista do Brasil?, ?somente em Veja encontrei a síntese dos acontecimentos em toda a sua plenitude? e ?Veja deu um show de informação?.

Vêem-se, também, apenas quatro opiniões reclamando da abordagem da revista, mas nenhuma sobre os ataques (duas sobre Guga, uma sobre o assassinato do prefeito de Campinas e outra de um deputado federal). É possível imaginar duas situações: ou o leitorado da revista realmente concorda com a Veja em tudo e aceita o que ela escreve sem pestanejar (uma massa não-crítica) ou a seção recebe muitos e-mails e cartas que passam por uma triagem com o objetivo de publicar apenas o que interessa à revista.

Seguindo o artigo de Luiz Antônio Magalhães, pretende-se, com os comentários a seguir, a busca de uma visão crítica sobre a abordagem e a visão político-ideolológica daquela que se considera a maior revista semanal do Brasil.

Sede de vingança

Uma das características que mais marcam a visão de Veja é uma posição acrítica em relação não apenas a si mesma, mas ao que é dito por autoridades e é publicado. Primeiramente, na entrevista com Paul Johnson, nas páginas amarelas, um caso que pretendo discutir posteriormente, e depois com sucessivas publicações de frases do presidente Bush e de economistas e analistas. George W. Bush falou em seu discurso ao Congresso: "Cada país tem uma decisão a tomar. Ou está do nosso lado ou do lado dos terroristas". Veja em nenhum momento coloca em questão esta afirmação. Tanto que a matéria tem o nome da frase dita por Bush.

O que leva a um outro problema. A revista em nenhum momento cita as diversas manifestações ocorridas em todo o mundo a favor da paz e contra a guerra. Esta é dada como certa. Principalmente porque "essa é a primeira guerra do império americano que começa com a simpatia de todas as nações livres do mundo" e "…o apoio universal está assegurado [para a luta contra o terror]. A unanimidade dentro dos Estados Unidos é quase total. As pesquisas mostram que 95% dos americanos querem a guerra, mesmo que ela resulte em baixas".

Veja, portanto, simplesmente ignora o que dizem o povo e os outros governantes do mundo. Faz a mesma divisão que Bush fez (civilização vs. barbárie, EUA vs. terror, nós vs. eles). E incorpora de tal maneira o discurso americano que nenhuma alternativa: a guerra é viável, é dada como certa, inevitável (assim como a visão que a revista tem da globalização). Uma das passagens mais lamentáveis é a que descreve a situação miserável em que vivem os afegãos, e como seu país está arrasado após anos de guerras e instabilidade política. Veja escreve: "Como tornar ainda pior a vida de um povo que come terra? Como intimidar uma população mantida num estado tal de ignorância que, embora soubesse da possibilidade de um bombardeio americano, a maioria não tinha idéia do motivo real?"

Aqui o povo afegão é confundido com os terroristas supostamente envolvidos na autoria dos atentados (até agora, nada ficou provado neste sentido). E é preciso que eles (o povo) paguem pelo que Bin Laden teria feito. É tanta confusão de informações que a sede de vingança da revista se confunde com a dos americanos.

Ausência de interpretação

Outra reportagem que demonstra a falta de informação, a confusão de idéias e o preconceito da revista é a que se intitula "O Che Guevara do Islã", comparando Bin Laden ao líder da revolução cubana pelo simples fato de terem suas imagens estampadas em camisetas e pôsteres. A comparação ignora completamente os fatores social, político, ideológico, que em comum só têm o antiimperialismo. Considerando o fato de o terrorismo estar espalhando em escala global, Veja propõe que as companhias aéreas deveriam aprender com a israelense El Al, campeã em segurança, o que revela que a revista apóia a redução das liberdades civis nos EUA, em análise no Congresso americano e talvez, futuramente, no resto do mundo. Apóia também a instauração de um Estado policial e vê em Israel um modelo a ser seguido no combate ao terrorismo (ou às minorias?).

Sem as análises "profundas" que promete, Veja simplesmente relata os fatos ao leitor. A indústria cinematográfica americana promove uma espécie de censura das imagens das torres gêmeas do WTC em filmes que serão lançados brevemente. É possível fazer interpretações, como a relação que o americano tem com o virtual, a imagem, o show em que foram transformados os ataques e na fuga do real. Os EUA (ou pelo menos a mídia e Hollywood) preferem instaurar tabus, como vetar imagens, do que lidar com o problema real e humano: a morte de mais de 6 mil pessoas. Mas Veja nada interpreta. Apenas relata.

Outro fato rapidamente citado que Veja não analisa é que um dos braços de Bin Laden, uma empresa gigante, ganha dinheiro como lançamento de produtos da Disney na Arábia Saudita. A revista não liga o fato de o terrorismo poder ser financiado pelo próprio capitalismo ("o sistema mais justo e livre que a humanidade conseguiu fazer funcionar ininterruptamente até hoje").

Visão economicista

Retomando o discurso americano, a revista acalma seu leitor, dizendo que estamos em boas mãos, que o mundo está seguro e nada temos com que nos preocupar (incitando o conformismo, o que explica sua posição acrítica e o fato de ignorar manifestações globais pela paz). Veja nos diz: "Pelo menos no papel, o presidente George W. Bush tem o ?Dream Team? da política internacional a seu redor. O currículo de seus principais assessores para uma situação de guerra mistura heróis, estrategistas e especialistas com carisma e muita experiência", "Essa equipe de homens de ferro ? e uma mulher ? foi descrita por Henry Kissinger como ?a mais formidável coleção de cabeças americanas jamais reunida para enfrentar uma guerra?"; e "[Dick Cheney, Colin Powell e Condoleezza Rice formam] o trio, tido como exemplar da visão belicista dos republicanos".

Ora, ao lermos a entrevista do filósofo francês Paul Virilio à Folha (Especial 8, 25/9/01), constatamos uma opinião contrária a esta posição apresentada por Veja: "Hoje, a necessidade de um líder político passa pela capacidade de repolitizar o mundo, conferindo sentido e inteligência aos fatos. Bush não está à altura. Não basta ser meramente reativo, isto é, reacionário." Veja não só considera certa a guerra, como vê com otimismo o que vem pela frente e procura o lado positivo da guerra. "Também há, em crises como essa, em que os EUA se empenham em caçar o terror ? e podem até fazer guerra ?, uma tendência paradoxal de incentivar avanços tecnológicos que impulsionam o crescimento". A revista prova a teoria de que a guerra é um negócio lucrativo e se torna porta-voz dos países desenvolvidos (em busca do lucro) e dos EUA (em busca da vingança).

Ainda é citado o presidente de um dos BCs regionais dos EUA: "Daqui a um ano acho que olharemos para trás e diremos: ?Sim, foi um evento terrível, mas não empurrou a economia precipício abaixo?". Ao publicar esta fala sem comentá-la, Veja parece concordar com esta visão economicista, mais preocupada com o dinheiro que pode ser perdido do que com as vidas humanas já perdidas.

Livres de questionamento

A entrevista com o intelectual inglês Paul Johnson é extremamente contraditória. Veja se diz neutra, afirma que faz análises profundas. Mas convoca este historiador para falar. Algumas de suas frases: "As fontes do antiamericanismo estão sem dúvida ligadas à natureza da religião islâmica"; "Quando falamos de fundamentalismo islâmico, na verdade estamos usando uma expressão enganosa. Todo o Islã é fundamentalista na essência"; "Paz não é uma palavra que se possa encaixar facilmente nessa forma de pensamento [o islamismo]".

Enfim, a entrevista está cheia de comentários preconceituosos, que deixarei muçulmanos comentarem. Pretendo discutir o posicionamento de Veja. É possível pensar que a revista já conhecesse as idéias de Johnson antes da entrevista. Ele é caracterizado como católico, monarquista, conservador e um dos poucos intelectuais que não tentam relativizar a responsabilidade das nações islâmicas (o que mostra duas coisas: Veja reforça sua posição contra o relativismo cultural e já mostra uma confusão entre terroristas, Estados e povo muçulmanos).

Agora podemos nos perguntar qual é a posição de Veja em relação aos enunciados de Johnson. Não é a primeira vez que ele aparece na revista (ver Veja n? 1.681, de 27/12/00, artigo "A humanidade tem capitalismo no sangue". Já diz muito o título, não?). Ou é contra ou é a favor. Se fosse contra, mostraria desacordo na entrevista, e muito provavelmente nem sequer teria ouvido o historiador. Teria comentado "que preconceito, como o senhor pode dizer isso?" Mas não. A reação foi leve, sequer tentou prolongar o assunto. Veja preferiu se manter em cima do muro, neutra. O que mostra um certo consentimento com a opinião expressada.

Sobre a entrevista com Paul Johnson dizem os muçulmanos:

** "… não me surpreende a conduta da Veja que, como a maioria da mídia brasileira (e ocidental), é controlada por grupos que têm interesse na difusão de mentiras a respeito do Islã, que vai de encontro ao modo secular de vida por eles propagado e perpetuado."

** "A comunidade muçulmana está indignada, e até onde sabemos, um dos líderes religiosos está encarregado de cobrar direito de resposta da Veja. Se o direito de resposta não for concedido, a revista será processada. Estas são as últimas informações que temos a respeito. Esperamos que não seja necessário chegarmos ao ponto de processar a Veja, e que eles reconheçam seu erro, mas a Veja sempre foi tendenciosa em determinados assuntos, incluindo o Islã, embora tenha conquistado uma aura de respeitabilidade entre muitos brasileiros. Em reportagens anteriores sobre o Islã, na própria Veja, quando alguma informação positiva era passada, era tomado todo o cuidado de ?neutralizá-la? com algum comentário negativo. Mas graças a Deus a população brasileira está começando a acordar, e publicações ?sérias? como a Veja não poderão continuar manipulando a opinião pública indefinidamente, se Deus quiser. Equipe do Boletim Islâmico."

Como se vê, só resta ao leitor ter uma relação crítica com jornais e revistas, principalmente da grande mídia, ligados a interesses comerciais, posando de donos da verdade e como se estivessem livres de questionamento.

(*) Email:. <jsm_b_r@yahoo.com.br>


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