Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Afectos e cartão vermelho

Por Mirna Queiroz de Lisboa em 05/11/1997 na edição 33

Chamar o chefe de “o patriota” custou o emprego ao jornalista português João Carreira Bom. Na coluna Afectos da revista do semanário Expresso, que assinou durante sete anos, o seu alvo era o canal de televisão SIC (Sociedade Independente de Comunicação) que, como o seman&aaacute;rio e outros jornais e revistas, é propriedade do grupo de Francisco Pinto Balsemão.

Ao empresário deu a alcunha de servidor da pátria por “fornecer aos portugueses os produtos abjetos de que eles necessitam”. Chamou a líder de audiências em Portugal, com 50% do share, de “transformadora de telelixo”. Sempre sarcástico, foi ainda mais longe: “O rei D.Carlos queixava-se da piolheira, o Dr. Balsemão, entendendo-a, explora-a, ganha dinheiro com ela”.

Carreira Bom, 53 anos, 20 de carreira, três prêmios, recebeu o cartão vermelho do diretor do Expresso, José Antonio Saraiva, com o apoio do Conselho de Redação, por “passar a fronteira entre a opinião e a ofensa pessoal à figura do fundador do jornal”.

O fato indignou a imprensa portuguesa, que durante pelo menos uma semana comentou-o, e deixou arranhada a imagem de credibilidade do jornal, conhecido como um dos mais liberais da Europa.

Fundado em 1973, durante a ditadura de Marcelo Caetano, o prestigiado Expresso sempre foi apontado por resistir bravamente à censura. Nem mesmo Pinto Balsemão o calava. Quando foi primeiro-ministro, nos anos 80, leu sem contestar nas páginas do seu próprio semanário que era “lelé da cuca”. Com esta capacidade de se submeter às críticas, somou pontos.

Por que então o político que aceitava ataques permite agora que não o vejam mais como democrata impoluto, defensor a qualquer preço da liberdade de imprensa?

“O poder mediático cega mais do que o poder político”, escreveram no jornal Semanário.

Mas foi Victor Cunha Rego, articulista do Diário de Notícias, quem tocou no ponto nevrálgico ao comentar o fim da coluna de Carreira Bom: “devo este prejuízo ao estado de nervos em que caiu a SIC depois dela própria ter cometido incontáveis abusos à conta de caricaturas sarcásticas”.

Capaz de surpreender até os telespectadores dos programas do Faustão e do Gugu Liberato, a primeira televisão privada portuguesa, que tem como sócia a Rede Globo, comemorou cinco anos sob forte pressão.

De presente, ganhou um espelho: o documentário feito com toda liberdade dentro da própria SIC pela belga Mariana Otero, para o canal franco-alemão Arte. Intitulado “Esta televisão é Vossa”, o programa ganhou destaque no suplemento de mídia do Le Monde. O jornalista do diário francês Daniel Psenny começa o seu texto chamando “o senhor Emídio Rangel (diretor de programação da SIC) de um homem sem escrúpulos que só vive e trabalha pelo dinheiro”. E prossegue: “Somos surpreendidos pela franqueza destes profissionais que se comportam como verdadeiros mercenários do dinheiro e gozam completamente com o telespectador”. No final, cita uma declaração de Rangel, a de que a SIC poder vender desde sabonetes a presidentes da República.

Apesar deste poder todo, a SIC não consegue impor silêncio a uma parte da classe intelectual portuguesa. Inconformada com o ruído provocado por sua indignação, vinga-se feito mulher rejeitada. Tem sido assim com todos que a criticam.

Alfredo Barroso foi achincalhado e humilhado no programa A noite da Má-língua por ter lançado uma coletânea de crônicas contra a linha adotada pelo polêmico canal de televisão. Recentemente, o maior produtor de cinema português, Paulo Branco, perdeu imediatamente o apoio da SIC a um filme depois de ter chamado a sua programação de “pornográfica”.

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