Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Ainda de dedo em riste

Por Sérgio Luiz do Prado em 30/05/2001 na edição 123

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JORNALISMO & AMORALIDADE

Importantes os textos iniciais de A imprensa em questão da edição n? 122 do OI, sob o título "O dedo em riste do jornalismo moral", aberto com o brilhante ensaio do professor José Arthur Gianotti [veja remissão abaixo]. Sim, o texto é brilhante pela sua construção, por mostrar do filósofo o que o filósofo é, e até mesmo porque diz com fácil compreensão parte do óbvio para quem, fortuitamente, travou conhecimento mais íntimo com as origens do Estado, da política e da própria democracia.

Sociólogo que sou, apesar de nem de longe desejar travar embate intelectual com o já consagradíssimo filósofo, tenho a dizer que o professor cometeu um erro lastimável ao vincular inexorável e umbilicalmente democracia e Estado ? o Estado moderno que hoje conhecemos. Por isso é tão ridículo dizer que "um indivíduo só vem a ser político mediante votações", como se a palavra "democracia" pudesse verdadeiramente ser traduzida com os regimes da chamada democracia representativa que temos hoje. Isso é o que se aceita e o que se pratica, e não a verdade, apenas mais um infeliz fato consuetudinário de nossa história. Creio, e espero não estar sendo tão virulento para com o professor ao afirmar isso, que ele apenas "distraiu-se" nos termos, aceitando assim um conceito numa discreta e inteligente tentativa de daí partir para, com o significado genérico de seu ensaio, adular ou minimizar as críticas ao seu amigo, o professor Cardoso.

No campo da opinião, teria muito ainda a argumentar contra o professor Gianotti, em suas afirmações sobre poder, imprensa etc. Posteriormente, vejo o editorial d?O Estado de S.Paulo, numa aparente resposta ao professor Gianotti. Não deveria comentar os absurdos, mas devo ao menos dizer que o jornal, ao afirmar que o governo FHC mudou ? para melhor ? os rumos do país, mostra quem é. Manchetes como "Privatização (da Telebrás) gerará 2 milhões de empregos", meus caros, trabalho na área de telecomunicações. Só faltou o jornal dizer onde é que seriam gerados tais empregos…

Historicamente, dos grandes jornais brasileiros o Estadão é o que mais se vinculou a interesses privados para noticiar ao público, seguindo Gianotti. E deveria calar-se. Mostra total imaturidade ao usar a afirmação sobre fins justificarem meios, pois é justamente aí que o jornal mostra a sua cara.

Uso, para isso, as palavras de Marco Antonio Silveira ("Painel do Leitor", Folha de S.Paulo): "Interesses do mercado, de grandes financistas". Os fins do governo FHC, que "mudou dramaticamente para melhor as perspectivas do país", são justamente tais interesses. E seus meios, o próprio periódico põe em suspeita. Portanto, se estamos vivendo seis anos de medidas governamentais que beneficiam justamente grandes corporações empresariais, financistas, latifundiários, investidores estrangeiros, lobistas e especuladores, o jornal demonstra que as perspectivas que julga melhores para o país são as perspectivas deste tipo de interesse. Mostra-se, portanto, coerente, pois acredita nestes fins, apesar de criticar os meios.

Mas, antes, que se criticassem o fim, e que, conforme disse Gianotti, tratassem dos meios apenas no limite da tolerância social, julgando a atividade política e o Estado moderno conforme suas características: com uma ética particular, quase aética, mas que ao menos possa se justificar em seus fins. No entanto, para isso, o governo FHC, quer por um lado ou pelo outro, não deveria ser o centro da discussão.

A imprensa e a mídia em geral são fundamentais na democracia, seja ela a que vivemos hoje ou numa democracia direta, em que a possibilidade de se atingir o consenso de Gianotti seria muito mais possível e menos utópico, mas longe do sufrágio como único instrumento de participação. No entanto, insisto em "chover no molhado": valem mais os interesses destes órgãos nos próprios fins da administração pública (como participar ativamente de processos de privatização) e objetivos privados, de anunciantes e acionistas, do que a pura e simples defesa do interesse público.

E, assim, parabenizo o Observatório por duas razões: primeiro, por já costumeiramente tentar contribuir minimamente com o público ao analisar a atuação da imprensa sobre um viés mais crítico e, por fim, por abrir esta discussão iniciada pelo professor Gianotti, proporcionando, além da trocas de farpas entre periódicos rivais, um verdadeiro debate em vez de manter em nichos de intrigas um assunto de fundamental e decisiva importância como esse, ainda que tão pouco visível e notado pelo público.

(*) Sociólogo <sergioprado@hotmail.com>

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