Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO DAVID KELLY

Alan Cowell

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

CASO DAVID KELLY

"Crise ameaça independência da BBC", copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 2/08/03

"O tom que emprega, por tradição, é ponderado, e sua voz não se deixa afetar por querelas partidárias. Os apelidos pelos quais os britânicos vieram a conhecer sua rede pública de rádio e televisão parecem evocar a mais discreta das respeitabilidades: ?Beeb? ou simplesmente ?Auntie? (Titia).

Mas, nas últimas semanas, a BBC (British Broadcasting Corp.), talvez a mais conhecida rede pública de TV e rádio do mundo, se viu envolvida em uma das mais amargas controvérsias em seus 81 anos de história, opondo seu senso de independência e imparcialidade a um governo que a acusou de reportar erroneamente os motivos pelo qual o Reino Unido se aliou aos EUA na guerra contra o Iraque.

Kelly

A disputa foi tornada ainda mais sensacional pela morte de David Kelly, especialista do governo em armas identificado pela BBC como principal fonte de uma reportagem, transmitida em 29 de maio, sugerindo que o gabinete do primeiro-ministro Tony Blair exagerara a ameaça dos programas armamentistas do Iraque para justificar a adesão à guerra liderada pelos EUA.

O debate público incomum sobre o papel da BBC avançou para muito longe de uma troca de acusações políticas e encorajou críticos e rivais a contestar a visão que a BBC tem sobre si mesma e o seu curioso status como rede pública financiada por uma taxa compulsória de licença entre os proprietários de TV, mas protegida contra o controle governamental.

A BBC, diz Conrad Black, o publisher do ?Daily Telegraph? e do ?Sunday Telegraph?, jornais conservadores britânicos, é uma ?virulenta cultura de distorções?.

Ele acrescenta que ?ainda que sua melhor programação, nas áreas não relacionadas à política, seja excelente, ela tristemente se tornou a maior ameaça enfrentada pelo país ao qual foi fundada para servir e informar?.

As declarações dele, publicadas pelo ?Sunday Telegraph?, precederam uma defesa igualmente robusta da BBC oferecida por Gavyn Davies, seu presidente, que criticou o que interpreta como uma campanha do governo com o objetivo de colocar a rede sob controle externo.

Alguns críticos consideram que a BBC esteja adotando aquilo que a revista semanal ?The Economist? classifica como ?uma visão de mundo amenamente esquerdista?. E, como outros adversários da BBC, o conservador Black a acusou a ter uma agenda própria ?patologicamente hostil ao governo e à oposição oficial, à maior parte das instituições britânicas, à política norte-americana em quase todos os campos, à moderação quanto à Irlanda, a todas as religiões ocidentais e à maior parte das manifestações de uma economia de mercado?."

 

"Por que só Blair tem problemas?", copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 30/07/03

"Dois líderes usaram politicamente os serviços de inteligência para ?venderem? uma guerra. Mas, enquanto um deles sofreu uma catastrófica perda de confiança, o outro não sofreu – ao menos ainda não.

Serão os problemas de Tony Blair semelhantes aos que George Bush vai enfrentar? Ou o desdobramento da guerra no Iraque irá demonstrar, mais uma vez, que somos duas nações divididas por um idioma comum?

Na Grã-Bretanha, o noticiário continua dominado pela morte de David Kelly, um especialista em armas de destruição em massa que se tornou um peão numa guerra intensa entre o governo Blair e a BBC a respeito do uso político dos serviços de inteligência. De acordo com a imprensa, alguém no governo Blair vazou o nome de Kelly como a provável fonte de uma matéria da BBC que criticava a administração, o que, aparentemente, levou o cientista ao suicídio.

O objetivo do governo parece ser o de desacreditar a BBC. Depois de apontarem Kelly como a fonte da informação, as autoridades indagaram se a BBC havia apurado criteriosamente o que o cientista havia dito. Também sugeriram que ele ocupava um cargo baixo demais para saber como as armas iraquianas haviam sido reunidas.

Mas esse ataque teve um efeito muito negativo. Aparentemente, o autor da matéria tem provas, incluindo uma gravação, de que Kelly deu as principais informações que ele levou ao ar. Além disso, Kelly estava, de fato, numa posição que lhe permitia saber o que estava declarando. Mais informações poderão surgir à medida que o inquérito for correndo, mas neste momento a BBC parece estar numa posição muito boa, enquanto o governo parece ser o vilão da história.

O fracasso em descobrir as armas de destruição em massa do Iraque, seguido do caso Kelly, abalou seriamente a posição de Tony Blair. Dois terços dos britânicos acham que Blair enganou a nação para entrar em guerra (embora apenas uma minoria acredite que ele fez isso ?conscientemente?). Só 37% acham que ele está fazendo um bom trabalho. E, pela primeira vez desde que Blair tomou posse, em 1997, os malfadados conservadores estão liderando as pesquisas de intenção de votos.

E não é só o Iraque. Clare Short, que renunciou ao cargo de secretária de Desenvolvimento Internacional por causa da guerra, diz que Blair está ?obcecado com histórias inventadas? – e muitos britânicos parecem partilhar dessa opinião. Em junho, só 36% do público descreveu Blair como ?confiável?, contra 54% que o consideraram ?não confiável?.

Já o governo Bush é no mínimo considerado culpado de exagerar os motivos para ir à guerra. Foi uma campanha não tanto de falsidades completas – embora houvesse algumas -, mas principalmente de exageros e insinuações. Eis o que o público pensou ter ouvido: no mês passado, 71% dos americanos achavam que o governo indicou que Saddam Hussein esteve envolvido nos atentados de 11 de setembro.

E, no que se refere a histórias inventadas no campo doméstico, Blair nem remotamente está no time de Bush. Seja fingindo que o combate ao terrorismo – e não os cortes de impostos, que custaram ao Tesouro três vezes mais do que se gastou contra o terror – é responsável pelos déficits orçamentários recordes, ou afirmando que os cortes de impostos enormemente elitistas são voltados para os trabalhadores, ou dizendo que a abertura de reservas naturais para as madeireiras faz parte de um plano de prevenção de incêndios florestais, Bush deturpou suas próprias políticas num nível jamais visto nos Estados Unidos.

Mas, embora a popularidade de Bush tenha recuado aos níveis anteriores à guerra, ele não sofreu um colapso semelhante ao de Blair. Por quê?

Uma resposta, é claro, é o tratamento com luvas de pelica que a Bush sempre recebeu da mídia, tratamento este que se tornou particularmente adulatório depois do 11 de setembro. Havia motivos para o pessoal de Blair atacar furiosamente a sempre cética BBC.

Outra resposta pode estar nos Estados Unidos modernos, em que o estilo supera a substância. Eis o que Tom DeLay, o líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes, disse durante um discurso, na semana passada:

?Para avaliar como a liderança democrata está afastada da realidade quanto à guerra contra o terror, feche os olhos e tente imaginar o senador Ted Kennedy posando aquele caça da Marinha naquele porta-aviões (como Bush fez).? Para dizer o óbvio, essa declaração revela um profundo desprezo pelo público. DeLay aparentemente acredita que a nação confiará num homem, independente dos fatos, porque ele fica bem com a roupa de um piloto de caça. Mas é possível que ele esteja certo.

No entanto, o que deve preocupar o governo Bush é uma terceira possibilidade: a de que o povo americano manifestou sua confiança em Bush porque após os acontecimentos de 11 de setembro ele queria desesperadamente ter a melhor opinião possível sobre seu presidente. Se foi só isso, Bush poderá enfrentar um terrível acerto de contas. (Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton)"

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