Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > ONDA BLOGUEIRA

Alarmismo com fenômeno morre na mesmice

Por lgarcia em 15/07/2003 na edição 233

ONDA BLOGUEIRA

Fabio Leon Moreira (*)

Quem tem um blog tem um mundo particular. Como uma casa a ser arrumada ou, para ser mais exato, um quarto, salvaguardadas as proporções de privacidade, o blogueiro atualiza da forma que vier à cabeça um dos mais inventivos meios de comunicação já inventados. Uma vanguarda talvez só comparada ao surgimento dos correios ou da máquina de escrever. Ao navegar num desses blogs que, por definição, se apresentam como diários virtuais na internet, percebe-se a espantosa facilidade de se poder ler/comentar toda sorte de informações testemunhadas ou sentidas na pele dos autores, cujo perfil mais adequado ainda está em estado de indefinição por parte dos órgãos que lidam com as oscilações das estatísticas.

A parca experiência do signatário neste campo pode, entretanto, revelar alguns dados sobre quem são estes usuários blogueiros, apesar de os números não serem oficiais. São aproximadamente 200 mil jovens entre 15 e 30 anos, a maioria de classe média-alta, com uma considerável bagagem intelectual. Se interessam muito por assuntos ligados a cultura pop e comportamento. São bastante opinativos, críticos e, como todo bom diário, a maioria adora falar de si. Blog que é blog não precisa ficar necessariamente restrito a relatórios da vida particular de cada um, se bem que alguns são bastante divertidos nesse ponto. Pode-se adicionar poesias, trechos de livros, comentários sobre shows e filmes ou simplesmente devaneios existenciais. Até sexuais são bem vindos. A imaginação é total.

Alguns donos de blogs carregam nas tintas e cometem o pecado de exibir textos muito compridos. Mas isso não impede que alguns deles sejam os que registrem o maior número de comentários. O macete para se ganhar tempo e não sobrecarregar o computador é ler uma linha ou duas sobre uma passagem mais pertinente naquele calhamaço de caracteres e tecer loas sobre a habilidade do escriba digital, o quão fascinante é o seu jeito de escrever etc. etc. Cada comentário, é bom que se diga, provém de outro "administrador de blog" que, numa troca de gentilezas, espera resposta em retribuição. Muitos começam a se sentir frustrados quando produzem verdadeiras teses de mestrado na tela do micro e recebem somente preguiçosas saudações do tipo "passei por aqui para te dar um beijinho, tenha um bom dia."

Um grande medidor do ibope bloguístico é o material fotográfico. Se pertencer a uma pessoa bem apresentável, a garantia de boa audiência é mais do que certa. Fotos em praias ou festinhas sempre são chamarizes para a curiosidade alheia, fertilizando aquelas fantasias típicas de quem deseja penetrar de forma bem convidativa na intimidade de um estranho. Estranho em termos, pois não são raras as reuniões promovidas pela comunidade blogueira que investe em programas como idas ao cinema, ao luau e, pegando carona nas festividades juninas, ao arraiá, em que a vestimenta a caráter é exigida.

Mas por que se fala tanto desse adorno cibernético que, em muitos casos (por mais que surjam os posteriores e providenciais protestos), é o estandarte da mais evidente sanha narcisista incrustada em nossos corações? Exatamente por causa disso. O blog foi o fenômeno deste início de século, porque obedeceu a uma necessidade básica de auto-afirmação inerente aos seres humanos, que é ser aceito de forma cosmopolita em todos os espaços possíveis e imagináveis. Descobriu-se a chance de se ter um lugar ao Sol num universo antes restrito a sítios (muito caros, por sinal) de pessoas/organizações naturalmente mais interessantes.

Filosoficamente comparando, é como se a célula de um corpo humano sem ramificações físicas fosse personalizada à imagem e semelhança de seu dono. É uma forma ainda pouco estudada de democracia, que fez com que cada um tivesse o direito a se expressar, criando janelas eletrônicas a seu bel-prazer, nas quais toda a história de uma vida (ou como ela deveria ser descrita, segundo quem está no comando) estaria à disposição.

Hoje os blogs têm até se profissionalizado, deixando de ser o hobby dos momentos de ócio. Alguns jornalistas na cobertura da Guerra do Golfo, versão 2003, usaram o recurso para fornecer visão mais pessoal e confiável do conflito, paralelamente à versão oficial das megacorporações jornalísticas. Aliás, disseram os piadistas ocasionais de plantão, se as pautas da CNN tivessem apurado o que os blogs jornalísticos apresentavam, a opinião pública internacional não teria classificado a invasão americana no Iraque como "o maior laboratório de boatos na história da imprensa mundial". Por sinal, ainda como escopo de fenômeno da comunicação, outros estudiosos mais alarmistas e completamente mentecaptos disseram que a enxurrada cada vez maior de blogs seria sinônimo de aposentadoria do bom e velho jornalismo como o conhecemos. Bem, a torto e a direito o jornalismo continua aí, capengando pelas tabelas, mas ainda não se conseguiu encontrar substituto à altura.

Repetitiva anda a mídia em todas as suas categorias ? e a maldição também recai sobre os blogs. Mas é covardia exigir que cada blog seja um sopro de renovação em matéria de entretenimento midiático. Afinal de contas, se o conteúdo das antigas agendas de papel das colegiais era uma qualidade inconteste segundo os próprios padrões, não é justo que se confira aos blogs absolutamente nada. Apenas que sejam o que sejam, da forma com são.

(*) Jornalista e blogueiro <http://www.inocentesuspeito.weblogger.com.br>

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