Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > BOLÍVIA EM CRISE

Alberto Dines

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

BOLÍVIA EM CRISE

“Cemitério dos ?ismos?”, copyright Jornal do Brasil, 18/10/03

“José Saramago desfiou para a imprensa em São Paulo, no início da semana, algumas reflexões, simples e didáticas, no seu conhecido estilo parabólico. São avaliações muito oportunas para as esquerdas latino-americanas, enroladas no discurso milagreiro.

Uma delas: ?A ascensão de governos de esquerda na América Latina não significa muito?. Por isso pediu que não se faça de Lula um D. Sebastião, símbolo das esperanças frustradas. Em seguida mencionou a crise da esquerda mundial que, neste momento, atravessa um deserto de idéias: ?Não se ganham as guerras de hoje com as armas (idéias) de ontem?.

Por coincidência, naquela mesma hora, as agências de notícias informavam que a esquerda israelense e lideranças palestinas haviam chegado a um acordo simbólico a ser apresentado formalmente em Genebra, em novembro. O acordo foi imediatamente bombardeado por Ariel Sharon, como era de se esperar, mas indica que no outro lado do mundo, no meio do deserto de fato, não existe o tal ?deserto de idéias? referido pelo Nobel português. Uma esquerda criativa, idealista, coerente, associada a políticos realistas e responsáveis, é capaz de ultrapassar os quase 100 anos de ódios e sangue para oferecer alternativa viável e desativar uma das bombas que ameaçam o mundo.

A cartilha de Saramago contém algumas ligeirezas (quando confunde o povo judeu com o governo Sharon) mas encaixa-se perfeitamente em nosso continente. A fórmula ?bolivariana? de Hugo Chávez, tirada dos mausoléus do caudilhismo latino-americano, ao invés de juntar a Venezuela numa cruzada reconstrutora, dividiu-a ao meio, inapelavelmente. O país dificilmente conseguirá encontrar uma plataforma de conciliações capaz de superar pela via democrática o abismo que está sendo cavado com tanta determinação.

Também a Bolívia ilustra a justeza das observações de Saramago. O que pretendem os líderes da rebelião esquerdista, o cocalero Evo Morales e o sindicalista indígena Felipe Quispe? Querem derrubar um presidente legitimamente eleito porque cometeu uma ilegalidade ou porque pretendem apenas tomar o poder? Querem aumentar a área de plantio da coca, de modo a continuar mascando suas folhas como o fazem há séculos, mas para isso precisam interromper mais uma vez o processo democrático?

Não suportam a idéia de vender através do odiado Chile o seu gás para o México e os Estados Unidos, mas por que não aproveitam esta oportunidade para pressionar a comunidade sul-americana e através dela estabelecer um corredor comercial que substitua a saída para o Pacífico que a Bolívia perdeu em 1883 ?

É justo querer o gás para distribuir gratuitamente às 250 mil famílias que vivem na miséria absoluta mas alguém precisa pensar na balança comercial, no orçamento, nos investimentos, na infra-estrutura. Alguém precisa pensar nesses pormenores, chegar ao poder na Bolívia é fácil.

A política a 4 mil metros de altura é complicada. Apesar do nome pacífico, La Paz assistiu desde a independência (1825) a cerca de 200 golpes, quarteladas e revoluções. Quando fui ao altiplano, em maio de 1978, para uma série de reportagens para a Folha de S. Paulo, havia 53 partidos, a maioria, socialista, xenófoba e radical.

Exemplo da compulsão local para a fragmentação política: uma das primeiras dissidências no monólito comunista deu-se na Bolívia, em 1940, quando o marxista-leninista PIR separou-se do Komintern. Um dos erros de Che Guevara ao escolher a Bolívia como base para a sua insurreição foi confundir essa volatilidade ideológica com uma verdadeira politizaç&atatilde;o das massas.

Não basta chegar ao poder. Produzir mártires não é suficiente para garantir uma revolução. Nem palavras de ordem consolidam o socialismo. A desvairada greve no Banco do Brasil vai prejudicar mais a nossa economia do que uma repentina alta de juros na próxima reunião do Copom.

Utopias constroem-se com os pés no chão, engolindo mágoas e frustrações. Sonhar o sonho errado é próprio dos sonhadores, amanhã sonharão o sonho certo. Trágico é desperdiçar as oportunidades para avançar. A Bolívia é um cemitério de ?ismos? – não podemos perdê-la de vista.”

“Denúncias de repressão à imprensa”, copyright O Globo, 17/10/03

“A repressão imposta pelo presidente Gonzalo Sánchez de Lozada para limitar os pedidos para que ele renuncie estende-se a empresas de comunicação e jornalistas, que denunciaram um retrocesso da democracia boliviana aos tempos da ditadura.

Dois homens encapuzados explodiram as torres de transmissão do Canal 13 e da Rádio Pío XII quarta-feira, em Oruro. No mesmo dia, em Patacamaya, a cem quilômetros de La Paz, o jornalista Carlos Colque, da Rádio Erbol, foi atingido nas costas por um tiro quando transmitia um ataque por terra e ar a uma marcha de mineiros.

Logo, Walter Chávez , diretor do semanário de oposição ?El Juguete Rabioso?, denunciou ter sido perseguido por agentes à paisana. Na véspera, ele dissera à Rádio Erbol que o governo tinha os dias contados diante do crescimento dos protestos.

Apreensão de jornais em postos de venda

Não foi a única denúncia. Chefes dos canais de TV 4 e 36 divulgaram intimidações e restrições presumivelmente ordenadas pelo governo. As duas estações foram as únicas que abriram seus microfones à população de El Alto no último fim de semana, quando forças militares dispararam contra cidadãos.

Quarta-feira, foram registrados novos atentados à liberdade de expressão. Responsáveis pelos jornais ?El Diario? e ?Pulso? denunciaram que agentes à paisana apreenderam os diários em vários postos de venda naquele dia. A primeira página da edição extraordinária de o ?Pulso? exibia a manchete: ?Em nome da democracia, o presidente deve renunciar.? Já ?El Diario? estampava: ?Bolivianos têm direito a pedir renúncia do presidente.?

– O que cometeram foi um roubo, mas também um atentado à liberdade de expressão. É o pior caminho. Um acontecimento nefasto – disse ao GLOBO o chefe de informações de ?El Diario?, Fernando Gutierrez.

Na Rádio Erbol – cujo sinal é transmitido a 75 emissoras na Bolívia e a mais 16 países – as ameaças já se tornaram rotineiras.

– Antes dos conflitos nos pediam para calar uma vez por dia. Agora o fazem duas vezes por dia – disse o jornalista Augusto Peña.

O porta-voz da Presidência, Mauricio Antezana, negou as denúncias e garantiu que há liberdade de imprensa no país.”

“Mesa é independente e dono de TV”, copyright Folha de S. Paulo, 18/10/03

“O empresário de comunicação Carlos D. Mesa, 50, que foi proclamado presidente da Bolívia, é um novato na política. Ainda vice-presidente de Gonzalo Sánchez de Lozada, ele anunciou na última segunda seu rompimento com o governo, mas não renunciou ao cargo, já com a intenção de assumir a Presidência.

Anteontem, Mesa -que não é filiado a nenhum partido político- reforçou a distância do governo, mas também criticou a oposição. ?Não estou nem com os que defendem a violência para proteger o Estado nem com bandeiras radicais?, disse, marcando posição de independente.

A eleição do ano passado, quando se elegeu vice-presidente, foi a única vez que Mesa participou como candidato de uma campanha política.

De família tradicional, casado e pais de dois filhos, Carlos D. Mesa Gisbert é dono da rede de TV PAT, que tem alcance nacional e é uma das mais importantes do país. Ele também é considerado um intelectual importante. Escreveu vários livros sobre a história boliviana, entre eles o sugestivo ?Presidentes da Bolívia: entre urnas e fuzis?.

Seu livro mais importante é ?História da Bolívia?, que já tem várias edições -a próxima poderá ter o capítulo final escrito na primeira pessoa.

Interessado por cinema, Mesa também filmou mais de 50 documentários em vídeo, a maioria sobre a história boliviana.

?Ele é um intelectual de muito prestígio e de uma família tradicional?, disse à Folha o cientista político Jorge Lazarte, da Universidade Católica Boliviana. Segundo Lazarte, seu perfil independente e de ?estranho no ninho? da política o obrigará a duras negociações.

?Ele precisa do apoio das Forças Armadas, da Igreja Católica e dos meios de comunicação.?

Uma curiosidade: em 1998, ele foi homenageado no Brasil com a Ordem do Rio Branco.”

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