Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PRÊMIOS QUESTIONÁVEIS

Alberto Dines

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

PIRANDELLO E O FUTURO

“Pirandello, futurólogos e profetas”, copyright Jornal do Brasil, 10/1/04

“A Terra de Contrastes que Roger Bastide usou para designar o Brasil também poderia ser chamada de Terra das Contradições. Ou terra das negações, dos avessos, enganos. A dialética tem passaporte alemão mas naturalizou-se nestas bandas ? as ações tendem sempre a produzir resultados contrários, como se concebidas apenas para produzir os efeitos perversos.

Tudo leva a crer que Luigi Pirandello (1867-1936) escreveu aqui sua ode à perplexidade ? Assim é, se lhe parece. Sem esforço, com grande naturalidade, conseguimos demonstrar que o que parece, não é; e o que é, não parece.

O caso da reforma ministerial é clássico: concebida e anunciada como fundamental para garantir a governabilidade e a ampliação da base política do governo, está há tanto tempo em cartaz e produziu tantos desgastes, dissabores e retrocessos que parece agora um malicioso estratagema para desmoralizar o assanhado PMDB e enxugar o mastodôntico governo de 35 ministérios.

Ministros há que passaram seis meses treinando para assumir uma função e seis meses sendo fritados para deixá-la. Não é preciso contratar um desses caríssimos gurus de administração para identificar a aberração; convoque-se o Padre Vieira. Com apenas um de seus famosos estalos, mostraria que a ineficiência governativa não é culpa dos ineficientes mas daqueles que tanto demoram em mandá-los para a casa.

A patuscada protagonizada por um juiz de Cuiabá, para a alegria de nossos diplomatas, longe de converter-se em resposta altiva ao tratamento imposto aos turistas brasileiros nos Estados Unidos, converteu-se em portentosa exibição do nosso jeitinho. Como não havia condição de fichar todos os 449 passageiros que chegaram na quinta-feira ao Aeroporto do Galeão, os agentes federais fizeram vista grossa para muitos. Aqueles que, porventura, ouviram falar que aqui há leis que não colam tiveram a rara oportunidade de examinar e beneficiar-se do engenhoso sistema.

Com os brios sossegados e George Bush Jr. devidamente enquadrado pelo bravo magistrado mato-grossense do Sul, foram os cidadãos brasileiros agraciados com um novo direito que se acrescenta àqueles que prevê a Constituição. Enquanto a sentença não é revogada, todos os que se sentirem prejudicados pela nossa política externa terão o direito de contestá-la em juízo. Nossos chanceleres não haviam reparado mas, sem querer, ofereceram um extraordinário avanço à democracia brasileira: fomos também empossados como chanceleres e habilitados para agir individualmente em defesa de nossa soberania.

A troca de comando da Anatel foi outra maravilhosa oportunidade para mostrar nosso vocação pirandelliana. Longe de constituir-se num reforço da tese estatista, o afastamento do presidente de uma agência reguladora por pressão do Executivo converteu-se num show em benefício da tese antiestatista.

Ao sair da primeira reunião com o Conselho Diretor da Anatel, seu novo presidente, Pedro Jaime Ziller ? antiprivatista histórico -, bateu no peito e fez uma surpreendente autocrítica: suas previsões sobre a privatização das telecomunicações estavam erradas. ?Fui um futurólogo de segunda categoria?, confessou.

Pretendia-se uma Anatel mais distante do mercado e, num passe de mágica, temos a Anatel reconhecendo a sabedoria das forças de mercado. O temor de que o poder das agências reguladoras seria limitado e, com isso, perderíamos um moderno instrumento de defesa do interesse público foi repentinamente desfeito pelo inesperado mea-culpa.

O Estado estatista agora está liberado para empenhar-se na criação de novas agências reguladoras, desde que os seus dirigentes penitenciem-se publicamente dos pecados fundamentalistas. O poderoso ministro da Fazenda não se sentiu desprestigiado, o operoso ministro das Comunicações sentiu-se prestigiado e todos vão passar o fim de semana felizes da vida.

Não é manha ou malícia, é Pirandello. Nem tudo são aparências, Brasília tem destas coisas: no mesmo dia em que um futurólogo confessa seus deslizes, um profeta é consagrado. Como dizia o mesmo Padre Vieira, profeta não é apenas aquele que faz previsões mas também aquele que acredita. Mesmo quando a realidade é momentaneamente adversa.

A sanção pelo presidente Lula da Silva do projeto de Renda Mínima concebido e perseguido ao longo de 13 anos pelo senador Eduardo Suplicy não é prêmio de consolação. Mesmo sem verbas, é o reconhecimento de que as verdadeiras utopias não resultam de lampejos, jogadas ou palavras de ordem. Requerem trabalho, paciência, humildade ? devoção.

Suplicy sabe que a Lei da Renda Básica da Cidadania talvez só venha a ser implementada em 2008. Profetas sabem esperar, confiam, não se iludem. Foi assim que o chato, generoso e determinado Suplicy conseguiu parar por alguns instantes o enorme carrossel do faz-de-conta.”

 

POLÊMICA NA RTVE

“Escolha do novo diretor-presidente da RTVE causa polêmica”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 8/1/04

“O fato vinha sendo especulado há algum tempo no meio jornalístico paranaense. Mas a confirmação do nome de Marcos Baptista, ex-diretor de Jornalismo da TV Paranaense, como novo diretor-presidente da Rádio e TV Educativa do Paraná, causou uma reação maior do que se esperava. Baptista, que há algum tempo vinha assessorando o secretário estadual de Educação, Maurício Requião (irmão do governador Roberto Requião, do PMDB) vai substituir, a partir de segunda-feira (12/1), a cineasta Berenice Mendes no cargo.

A notícia de que ele havia sido convidado pelo governador para a função foi divulgada nesta quinta-feira (8/1), quando quatro jornalistas, ocupantes de cargos de chefia na equipe da TV Educativa, colocaram suas funções à disposição. Na redação da TV, o clima é de espanto e insatisfação. Marcos Baptista não quis comentar sua indicação para a presidência da RTVE.

Baptista havia saído da TV Paranaense (retransmissora da Globo) há quatro anos. Neste período, comandou um restaurante em Curitiba. No ano passado, foi consultor do diretório municipal do PMDB, antes de ser contratado pelo governo e ir trabalhar na secretaria de Educação. Baptista foi afastado da TV Paranaense após a intervenção feita pela Rede Globo na emissora. O motivo era o escândalo envolvendo desvio de verbas do então prefeito de Londrina, Antônio Belinatti. A TV Paranaense não noticiava os fatos relacionados às denúncias contra Belinatti, que ocupavam manchetes dos jornais impressos e telejornais locais.

Nesta época, o atual governador, Roberto Requião, era senador. E denunciava publicamente o fato, afirmando que Belinatti ?comprava o silêncio? da TV Paranaense. Marcos Baptista afirmava que não poderia responder pela orientação dada pelos donos da emissora.

Há algum tempo corria forte, em Curitiba, o boato de que Berenice Mendes seria afastada do comando da RTVE. Requião não escondia que estava insatisfeito com os índices de audiência registrados pela emissora, que agora é transmitida em rede nacional. O governador chegou a ?passar um pito? público na cineasta, no final do ano passado, durante uma reunião de secretariado. Berenice está fora de Curitiba desde o final de dezembro. De acordo com a notícia divulgada pela assessoria da RTVE, a cineasta está na Alemanha a trabalho, gravando um documentário, e deve retornar na próxima segunda-feira.

No entanto, há quatro meses, desde que uma nova equipe de jornalistas assumiu cargos de chefia na TVE, os índices de audiência vêm subindo. A equipe comandada por Dary Júnior ? ex-TV Paranaense e Band ? conseguiu tirar o telejornal da casa, o Jornal da Educativa, do traço de audiência. De acordo com os dados do Ibope, o telejornal, em suas duas edições diárias, vinha dando média entre dois e três pontos, com picos de até cinco pontos. Além disso, o conteúdo do jornalismo foi modificado. Dando ênfase a temas sociais e de interesse do público, o telejornal ganhou mais uma edição diária e mais tempo no ar.

Outra vitória recente, comemorada pela equipe de jornalismo, foi o índice de 13,4 pontos obtido com a transmissão, ao vivo, da partida final da Copa Sesquicentenário de Futebol, entre Coritiba e Atlético Paranaense, dia 17 de dezembro passado. Foi a primeira vez que a TVE transmitiu uma partida de futebol.

Dary Júnior, diretor de jornalismo; Luís Lomba, chefe de redação; Dimitri do Valle, chefe de reportagem; e José Roberto Martins, editor-chefe, colocaram suas funções à disposição do governo. ?Queremos deixar o novo presidente da RTVE à vontade para compor sua equipe?, justificou Dary, que já trabalhou com Baptista na TV Paranaense (na época, Dary era repórter da emissora). Luciana Pombo, diretora de Jornalismo da Rádio Educativa, ainda não havia decidido se faria o mesmo.”

 

PRÊMIOS QUESTIONÁVEIS

“Prêmio para que te quero ? I”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 5/1/04

“A má-educação e a loucura que levaram colegas a vaiar Antônio Werneck na entrega do Prêmio Esso de Jornalismo tiveram pelo menos uma coisa de bom: puseram boa parte da categoria para discutir os prêmios de jornalismo que, de uns tempos para cá, passaram a aparecer mais que modelo-e-atriz em capa de revistas de ?celebridades?.

Como você deve lembrar-se, há coisa de dez anos eram raros os prêmios para jornalistas. Havia o Esso e o Vladimir Herzog, de repercussão nacional mais ampla ? o segundo sem qualquer contrapartida pecuniária ?, e mais dois ou três voltados, significativamente, para quem cobria economia ? como o Fiat-Allis e o Losango (este, se não me engano, durou pouco). Outros setores da sociedade nem de longe pensavam em premiar veículos e profissionais por fazerem seu trabalho direito.

De repente, não mais que de repente, parece que empresas, entidades de classe e uma ou outra ONG descobriram que os jornalistas precisavam receber estímulo extra para fazerem bem o trabalho pelo qual já são pagos ? mal, mas são ? para fazer. A partir daí ? por volta da segunda metade da década passada ? foi um tal de aparecer concurso de jornalismo de tudo quanto é lado, com patrocinadores que iam de empresas de telefonia a sindicatos de hospitais, passando por fundações beneficentes e mesmo organismos internacionais.

Essa enxurrada de galardões foi recebida alegremente tanto pelos jornalistas quanto pelas empresas de comunicação, por motivos diferentes, é claro. A maioria dos coleguinhas, como se sabe universalmente, ganha mal e só o fato de faturar uma grana extra já faz muitos olhinhos brilharem, mesmo que a bufunfa não seja muita (tirando um ou dois, os prêmios não passam de R$ 10 mil, muitas vezes divididos por dois ou três jornalistas que participaram da feitura da matéria).

A par disso, todos que militam na profissão sabem que só há duas maneiras das empresas de comunicação darem aumentos reais ao profissional: promoção, com o respectivo aumento de responsabilidade, e cobertura de proposta de outro veículo. Como um jornalista que ganha prêmio passa a ser mais cobiçado pela concorrência, se esta cobiça se concretiza num convite, o coleguinha premiado acaba tendo um segundo prêmio, este mais permanente, na forma de elevação de seu piso salarial pessoal, seja no novo emprego, seja no atual, quando a oferta é coberta.

Semana que vem, veremos o que ganham as empresas de comunicação e aqueles que distribuem os prêmios. E o que perdem os leitores e ? ora, ora ? os profissionais.”

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