Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

Alcino Leite Neto

Por lgarcia em 30/01/2002 na edição 157

MEMÓRIA / PIERRE BOURDIEU

"Sociólogo Pierre Bourdieu morre aos 71", copyright Folha de S. Paulo, 25/01/02

"O sociólogo francês Pierre Bourdieu, figura central da sociologia contemporânea e um dos intelectuais europeus mais influentes na atualidade, morreu anteontem à noite, vítima de um câncer.

Ele tinha 71 anos e, nos últimos tempos, sua projeção internacional chegara ao ápice, com seguidores em universidades de Ocidente e Oriente. Graças ao seu trabalho, a sociologia ganhou novo fôlego como instrumento científico de observação, análise e crítica da vida contemporânea.

A figura do intelectual crítico e participativo também se revigorou com Bourdieu e suas idéias. ?Não há democracia efetiva sem verdadeiro contra-poder crítico. O intelectual é um desses contra-poderes, e de primeira grandeza?, declarou certa vez.

A comoção na França com a sua morte já era enorme nas primeiras horas de ontem, quando foi divulgada a notícia. O primeiro-ministro Lionel Jospin, em mensagem de pêsames, registrou sua ?tristeza? e declarou que o sociólogo ?deixa uma obra forte e fecunda?. Para Jospin, os trabalhos de Bourdieu o transformaram no ?condutor de uma escola de pensamento ligada à crítica incisiva à sociedade capitalista?.

O filósofo Jacques Derrida recordou ao jornal ?Le Monde? sua amizade e seu encontro na Argélia com Bourdieu, a quem classificou como ?uma grande original figura da sociologia contemporânea?. Para o filósofo, Bourdieu ?tinha a ambição de dar conta de todos os campos da atividade social, inclusive os campos intelectuais, inclusive o seu próprio?.

Controverso, temido, bajulado e caricaturado, Bourdieu passara a ser um dos intelectuais que melhor encarnavam a tradição histórica francesa do pensador politicamente engajado e criticamente participativo. Sua atuação se espalhava por livros, revistas, televisão e jornais. Seus temas abarcavam da política à arte, da religião à mídia, da filosofia à ciência.

?Ele tinha uma vitalidade extraordinária. No leito do hospital, ele corrigia os trabalhos de seus colaboradores?, contou um de seus colegas mais próximos, o sociólogo Patrick Champagne.

Nascido no interior da França, em 1? de agosto de 1930, Bourdieu iniciou sua carreira como professor de filosofia e depois de letras em Argel (capital da Algéria), em 1958, durante o movimento de independência do país.

Em 1964, tornou-se um dos mais jovens professores da célebre Escola Prática de Altos Estudos. Nesse ano, publicou ?Les Héritiers – Les Étudiants et la Culture? (Os Herdeiros – Os Estudantes e a Cultura), com Jean-Claude Passeron. Os dois desenvolverão o importante conceito de ?capital cultural?, segundo o qual a expressão simbólica tem também valor de troca, como o dinheiro e a propriedade e, quanto melhor alguém entende e manipula a linguagem da classe dominante, mais ?rico? será.

Em 1970, publicou ?A Reprodução – Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino? e, em 1979, ?A Distinção – Crítica Social do Julgamento?, dois livros capitais para a compreensão de seu pensamento. No primeiro, ele formula a teoria da ?violência simbólica?, exercida sobre os dominados com o consentimento destes, por estarem presos ao hábito e desconhecerem o seu fator violento. No segundo, examina as relações entre as classes sociais e seus gostos.

Em 1981, Bourdieu foi nomeado professor titular da cadeira de sociologia do Collège de France. No mesmo ano, lançou, com o filósofo Michel Foucault, um apelo em favor do movimento Solidariedade, na Polônia.

Com o avanço da mundialização e das teses econômicas do neoliberalismo, a militância política de Bourdieu acentuou-se. Ele participou de manifestações de apoio a grevistas, imigrantes e trabalhadores e publicou uma série de artigos e livros que refletiam sobre as formas de dominação.

Várias dessas últimas obras, publicadas na França por sua editora Liber/Raison d?Agir, quase como panfletos, foram traduzidas no Brasil. ?Sobre a Televisão? aborda os mecanismos de controle e de produção de discursos dominantes pela mídia. ?A Dominação Masculina? estuda a permanência de um inconsciente dominante ?androcêntrico? (masculino) em ambos os sexos.

Entre os mais de 40 livros que escreveu e organizou, destacam-se ainda ?A Ontologia Política de Martin Heidegger? (88), uma desmontagem das relações entre intelectuais e poder, ?As Regras da Arte? (92), sobre Flaubert e a produção social de um escritor, ?A Miséria do Mundo? (93), pesquisa com pobres franceses, e ?Contrafogos – Táticas para Enfrentar a Invasão Neoliberal? (98)."

"Pierre Bourdieu deu espaço ao universal", copyright Folha de S. Paulo, 26/01/02

"É bem mais chique ler um livro de Jacques Derrida, de Jean-François Lyotard, ou mesmo de Jean Baudrillard, do que os volumosos estudos sociológicos de Pierre Bourdieu -morto na última terça-feira- sobre o sistema de ensino público, sobre as relações entre classe social e gosto artístico na França, ou sobre a constituição do que ele denominou de ?campo literário? -o microcosmo de escritores, críticos, editores e seus códigos de conduta.

Em ?Meditações Pascalianas?, em que revê a própria obra, Bourdieu nos faz entender um pouco as razões de sua falta de charme. Estudante de filosofia nos anos 50, Bourdieu afastava-se da predileção geral por ?textos e autores esotéricos, obscuros, e até mesmo, como nos casos de Husserl e Heidegger, quase inacessíveis por falta de traduções (as obras-chave de Husserl e Heidegger serão traduzidas só nos anos 60, ou seja, num momento de descenso do fervor de que eram objeto).? Preferiu as ?tarefas consideradas mais humildes do ofício de etnólogo ou de sociólogo: observação direta, entrevista, codificação dos dados ou análise estatística?.

Essa rememoração diz muito a respeito da ?dureza?, da falta de complacência de Bourdieu diante das convenções do mundo intelectual, a cuja desmistificação dedicou-se sem rodeios. O apreço do mandarinato pelas ?grandes questões?, pelos jogos do pensamento, pela teoria pura, é na verdade um produto histórico, efeito de um longo ?processo de autonomização? institucional, que instaura uma ?fronteira mágica entre os eleitos e os excluídos?.

Especialmente irônico é o fato de que ?os eleitos? se mostrem cegos diante das origens materiais, históricas, do prestígio de que desfrutam. Tendem a atribuir sua situação privilegiada ao dom natural, a uma vocação pessoal para desprezar o mundo prático e a empiria vulgar. Assim resumida, a avaliação de Bourdieu parece ser fruto de um populismo ressentido, de uma espécie de antiintelectualismo sociológico. Seu projeto é outro. Prezando os valores universais da arte, da filosofia e da ciência, sua preocupação está em ?universalizar as condições do acesso ao universal?, combatendo todos os mecanismos, sutis ou não, da exclusão cultural.

?Contrafogos? e ?Contrafogos 2? são livros curtos, reunindo intervenções recentes de Bourdieu a respeito da globalização, das ameaças do capital monopolista sobre a produção cultural, sobre a unificação européia, sobre a televisão e a imprensa. O tom de suas críiacute;ticas ao neoliberalismo, embora de extrema veemência, nada tem de emotivo ou de retórico.

É em nome do conhecimento científico, da racionalidade e da experiência concreta que Bourdieu denuncia os mecanismos da propaganda neoliberal. A ação coordenada de empresas de consultoria, de instituições estratégicas, de lobbistas, de meios de comunicação, de políticos e intelectuais vai divulgando verdades supostamente indiscutíveis e toma princípios e experiências próprias de um único país, os Estados Unidos, como aplicáveis universalmente. Trata-se de um consenso produzido. Ao internacionalismo dos interesses financeiros, Bourdieu propõe a consolidação de um movimento social mundial, que resista ao processo de desmantelamento do poder público que se verifica em todo o planeta.

Reunindo textos por vezes apocalípticos, por vezes esperançosos demais, ?Contrafogos? e ?Contrafogos 2? são livros de combate. Rejeitam a idéia de ?neutralidade científica?; mas não abdicam do espírito desmistificador e da rudeza que faziam de Bourdieu um autor bem pouco charmoso, mas muito necessário.

CONTRAFOGOS – Tradutora: Lucy Magalhães. Editora: Jorge Zahar (r. México, 31, sobreloja, Rio, tel. 0/xx/21/ 2240-0226). Quanto: R$ 14 (152 págs.).

CONTRAFOGOS 2 – Tradutor: André Telles. Editora: Jorge Zahar. Quanto: R$ 17 (116 págs.).

MEDITAÇÕES PASCALIANAS – Tradutor: Sergio Miceli. Editora: Bertrand Brasil (av. Rio Branco, 99, 20? andar, Rio, tel. 0/xx/ 21/2263-2082). Quanto: R$ 48 (320 págs.)."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem