Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Alcino Leite Neto

Por lgarcia em 08/05/2002 na edição 171

ELEIÇÕES FRANCESAS

"Le Pen ganha espaço inédito na TV francesa", copyright Folha de S. Paulo, 30/04/02

"Começou ontem a campanha oficial nos rádios e nas TVs franceses para o segundo turno da eleição presidencial. Até sexta-feira, quando termina a propaganda eleitoral, Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen terão 60 minutos no total, cada um, nas redes públicas do país. Pela primeira vez no país, um candidato de extrema direita dispõe de tanto espaço no sistema audiovisual garantido por lei.

Le Pen saiu atirando em todas as direções em seu primeiro programa. Chamou Chirac de ?supermentiroso? e o acusou de ter simpatias pelo comunismo. Voltou a dizer que o presidente busca a reeleição para escapar da Justiça -por causa de suspeitas de corrupção. ?Ele é capaz de tudo para fugir do juiz que o espera no fim de seu mandato?, disse Le Pen, sempre em pé, de frente para um fundo azul, no seu discurso de cerca de sete minutos.

?Supermentiroso? é o apelido dado a Chirac num programa de enorme sucesso do Canal Plus (cabo), em que o presidente é satirizado por meio de uma marionete vestida com roupa de super-herói. O programa suspendeu suas críticas na última semana. Os estudantes e jornais de esquerda adotaram para Le Pen o apelido de ?superfacho? (superfascista).

Chirac apresentou-se sentado. Seu programa mostrou pequenas inserções filmadas em exterior, com paisagens e depoimentos de eleitores. Ele não citou nenhuma vez o líder extremista, mas fez alusões ao perigo que corre a democracia no país. ?A liberdade, a igualdade, a fraternidade -tudo está dito aí?, disse.

A propaganda eleitoral gratuita é exibida na França apenas nas emissoras públicas de TV, que são fortes e influentes. No último domingo, entre 19h e 23h, quando foram divulgados os resultados das eleições, o canal público France 2 teve 5,9 milhões de espectadores (29,5% da audiência total). O canal privado TF1 alcançou 9,3 milhões (38,2%).

O custo de produção e exibição dos programas eleitorais é bancado pelo Estado, dentro do orçamento oficial de campanha que disponibiliza para cada candidato -no segundo turno, 19.764.000 euros (cerca de R$ 40,5 milhões). Todo o processo é controlado pelo Conselho Superior do Audiovisual (CSA), órgão do governo.

Por lei, os candidatos têm direito ao mesmo tempo de propaganda eleitoral nas redes públicas. O tempo diário de exibição desses programas fica a critério das emissoras, mas, ao final da campanha, elas precisam ter mostrado os mesmos 60 minutos previstos para cada um dos candidatos.

As emissoras privadas não são obrigadas a exibir a propaganda eleitoral, mas seus programas jornalísticos precisam respeitar a rígida igualdade de tempo para os dois candidatos. A emissora tem tempo ilimitado para exibir os candidatos e não precisa colocá-los num mesmo telejornal. Mas, ao cabo da campanha, os minutos totais de aparição de cada um na emissora devem ser idênticos.

Segundo a socióloga Regine Chaniac, do INA (Instituto Nacional do Audiovisual), o controle do CSA é grande, mas as emissoras encontram meios de burlar as regras. ?Por exemplo, elas convidam Chirac para o jornal principal e põem Le Pen num programa noturno?, diz. Pesquisa do instituto CSA (não confundir com o órgão governamental) mostrou que, para 52% dos franceses, a TV foi o meio que mais influenciou os eleitores no primeiro turno.

?A importância da TV na França é grande, mas as pessoas preferem o noticiário político à propaganda eleitoral, que é muito desinteressante?, diz Bruno Jeanbart, do departamento de opinião do instituto CSA. ?O programa oficial aqui não é como nos EUA, que é uma publicidade política. Os candidatos franceses escolhem a forma que seus programas terão, mas as regras são muito rígidas e o orçamento não é grande.?

Com frequência, ante as dificuldades, os candidatos preferem ficar de frente para a câmera, discursando o tempo todo, como fez Le Pen em seu programa."

 

"Imprensa francesa fica muda após eleição", copyright O Estado de S. Paulo, 30/04/02

"A França nunca primou por reconhecer seus erros. Após o belo desempenho dos fascistas da Frente Nacional, com a vitória do partido de Jean-Marie Le Pen contra os socialistas de Lionel Jospin, que vão disputar o segundo turno no próximo domingo contra a direita de Jacques Chirac, raros são aqueles que batem no peito.

De quem é a culpa? A questão não é formulada. Ou então, cada um responde: ?A culpa é dos outros!?

Os chefes socialistas, que deveriam morrer de tanta vergonha, além de não fazerem sua autocrítica, agarram-se, ainda, com a admirável exceção de Jospin, à sua posição. Assim, será o mesmo exército retrógrado, sob a férula de velhos chefes caolhos, manquitolas ou paralisados dos dois braços e dos dois lobos do cérebro, que deverá enfrentar o próximo desafio, a disputa crucial, ou seja, as eleições legislativas do próximo mês de junho.

Os institutos de pesquisa enganaram-se redondamente. Será que vão reconhecê-lo? Vejamos! Um pouco de seriedade: e o dinheiro como fica? Eles já começam a assediar os jornais para vender-lhes novas pesquisas, sua nova fancaria.

E os jornais? Estão mudos. Felizmente, existem os jornais estrangeiros que estão pouco ligando para a incompetência, o conformismo, o servilismo de seus colegas franceses em relação ao poder. The Economist de Londres observa a ?falta de independência? dos jornalistas. A revista inglesa está chocada com o fato dos jornalistas viajarem gratuitamente nos aviões dos políticos franceses. The Economist é muito severa com as conferências de imprensa dos presidenciáveis, nas quais os jornalistas fazem uma pergunta rudimentar e não utilizam nunca o direito de fazer nova pergunta ?se a resposta do presidente for medíocre, banal, inconsistente ou insípida (como costuma ser)?.

Mesma opinião de Stefan Braendle (do jornal austríaco Der Standard).

?Políticos e jornalistas estão na mesma bolha. Estão em família.?

Prova desta docilidade: os jornalistas descobriram há três meses um número incrível de assassinatos repugnantes, desumanos e lhes dão um destaque extraordinário, repentem-nos tanto que poderíamos crer que Paris, Marselha ou Lyon eram ?campos de tiro? em que se exercitam impunemente bandidos sardos, sobreviventes da Chicago de 1930, ustachas croatas do tempo de Hitler, revolucionários russos do século 19, panteras negras vindas dos Estados Unidos, cangaceiros e jagunços, sem falar de jacarés, piranhas e tigres de Bengala…

Joelle Meskens do Le Soir de Bruxelas está chocada: julga (e tem razão) que a insegurança não é maior que nos outros países europeus.

Mas, no período eleitoral, o menos incidente é pintado com as cores mais cruéis, de maneira a alimentar as campanhas desse ou daquele candidato, em particular Chirac e Le Pen.

É o que confirma o veredicto do Corriere della Sera (Itália): ?A televisão francesa contribuiu para uma espetacularização da violência, propícia às reações emocionais.?

Vemos que os chefes socialistas, os institutos de pesquisa, os jornalistas, em suma, todos os formadores de opinião detestam o ?arrependimento?. Eles deveriam pedir conselho ao papa João Paulo II.

Este último desenvolveu um método eficaz: quando um problema é constrangedor para a Igreja, ele faz um ?bom arrependimento?: para a Inquisição de Torquemada, um arrependimento e mais um pouco! Os judeus, o povo decide, um arrependimento basta? O tratamento feroz dispensado na Galiléia, lá vai outro arrependimento! etc … etc….

Alguns acharam esse uso do arrependimento um pouco excessivo e vêem nele uma maneira de evitar qualquer responsabilidade. Existe verdade nisso.

Mas quando vemos a covardia dos políticos franceses, dos jornalistas, dos institutos de pesquisa, que, no dia seguinte ao desastre, se põem a falar sua moral, de sua sabedoria (e sobretudo de sua tolice), pensamos que não é nada mal termos, de vez em quando, um papa João Paulo II."

 

"Le Pen e a mídia", copyright Comunique-se, 2/5/02

"Em recente artigo publicado por este portal, dizia eu que a mídia brasileira chegou a um nível de convergência ideológica e editorial que ler um jornal ou revista por aqui publicados significa ler praticamente todos. Na Europa não é muito diferente.

Jornais como o Le Figaro e o Corriere della Sera, que já se posicionaram no passado como conservadores, hoje não conseguem mais manter-se totalmente em oposição aos periódicos da esquerda clássica como o Le Monde, apenas para citar um dos mais famosos.

O episódio do primeiro turno das eleições francesas apenas confirmou este cenário de padronização da imprensa mundial. Todos os jornais reagiram com repulsa ao fenômeno Le Pen e, à exceção de dois ou três solitários articulistas, uma legião de jornalistas vociferam até agora contra o ?horror? representado pela figura do ?velho racista e anti-semita?. Com o austríaco Jorg Haidar, acontece o mesmo.

Se já é difícil, portanto, encontrar quem faça uma análise mais ponderada e menos raivosa e pessoal sobre o primeiro turno francês na própria Europa, por aqui então nem se fala. É procurar agulha em palheiro.

Os editores brasileiros simplesmente optaram por repetir os slogans da esquerda contra a direita ecoados desde a Europa e deixaram de lado a pesquisa histórica, a investigação mais frugal para brindar seus leitores com o mais novo lugar-comum da mídia. Ele prega que a vitória da direita hoje é ameaça à democracia, ainda que tenha sido uma parte considerável do eleitorado francês, por exemplo, quem tenha colocado Le Pen onde ele hoje se encontra.

Se tivessem pesquisado um pouco, os editores brasileiros saberiam que foi François Miterrand (ele mesmo, o mito do socialismo francês) e não Le Pen quem obteve a ?Francisque?, a maior distinção nazista aos colaboradores de Vichy. Teriam sabido também que foi Miterrand e não Le Pen quem, na década de 50, como ministro do Interior, recomendou o uso da tortura na Argélia ocupada.

Uma análise básica também revelaria que, perto de Fidel Castro, de Josef Stálin, de Pinochet e de Pol Pot, Le Pen é apenas um estúpido teórico xenófobo, não tendo feito na prática absolutamente nada do que fizeram os ditadores acima elencados.

Assim, diante de pouca crítica e livre para publicar o que bem entende sem ter que prestar contas com os leitores, a grande mídia brasileira da TV, dos jornais e das revistas, não só importa a produção padronizada da imprensa européia como também a empurra goela abaixo do leitor brasileiro. Isso tira-lhe a oportunidade de conhecer um pouco mais da história dos personagens em questão.

Jogar no paredão Berlusconi, Le Pen e Haider e vitimizar por outro lado um Jospin não dá trabalho, não exige consulta à história. E parece ser exatamente isso o que procuram os editores quando assim lhes interessa. (Sandro Guidalli é editor-chefe da newsletter Depois.com.br.)"

 

"Para a imprensa, uma desagradável obrigação", O Globo, 01/05/2002

"Uma charge no jornal ?Libération? de segunda-feira resumia como a mídia francesa se sente na cobertura da campanha de Jean-Marie Le Pen. Ela mostrava o candidato urrando, com as amígdalas visíveis, dentes à mostra, enquanto preso em sua mão está o pobre entrevistador, dizendo: ?Obrigado, senhor Le Pen, por nos mostrar o seu ponto-de-vista sobre economia, Europa, justiça, paz social, cultura…?

Dez dias atrás, o líder da Frente Nacional era um convidado cobiçado em programas de entrevistas na TV, uma piada entre mentes cultas. Mas desde que conquistou o segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais francesas, se tornou uma desagradável obrigação. Recentemente, a mídia riu quando ele chamou o presidente Jacques Chirac de mentiroso e que merecia ser presidente de ?nada além de um Club Med?. Agora, está aterrorizada com a possibilidade de fazer algo que possa suavizar a sua imagem.

Depois do choque com o resultado do primeiro turno, os jornais analisaram o manifesto de Le Pen, embora tenham enfocado mais suas inflamáveis políticas anti-imigração do que a oposição à União Européia. Todos sabem que o rugido de cinco milhões de franceses significa algo, mas não sabem o quê. Le Pen aparece várias vezes por dia no rádio e na TV, dá entrevistas aos jornais, mas os jornais não estão publicando artigos em sua defesa. A maioria dos franceses acredita que o país está em crise, que derrotar Le Pen é um dever republicano e que a mídia deve ajudar."

 

"Seguranças de Le Pen atacam equipe de TV", copyright Comunique-se, 30/04/02

"A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) criticou o ataque físico ao Canal+TV por seguranças do candidato do Partido da Frente Nacional à presidência da França, Jean-Marie Le Pen. O jornalista John-Paul Lepers e o assistente técnico Yacine Ben Jannette foram forçados a se retirar da sala onde ocorria uma coletiva de imprensa com o político.

?Este foi outro ataque de intimidação física à mídia?, disse o secretário-geral da RSF, Robert Ménard. ?Por trás da imagem respeitada que o partido vem tentando construir ao longo dos anos, agressões físicas e verbais à imprensa são constantes?. E advertiu: ?A liberdade da informação, palavra-chave para qualquer democracia, seria a primeira vítima se Le Pen chegasse ao poder?.

Levantamento feito pela organização constatou que cerca de 15 jornalistas foram atacados fisicamente durante cobertura das atividades daquele partido entre 1990 e 2000. Em 1997, membros do partido revelaram a RSF que existem arquivos com nomes, fotos e dados pessoais dos jornalistas que cobriram as atividades da Frente Nacional.

Imprensa francesa alimenta campanhas eleitorais

Em matéria pubilcada nesta terça-feira (30/4), Gilles Lapouge, correspondente do Estadão, diz que a imprensa francesa é acusada pela mídia estrangeira de ?falta de independência?. Jornalistas franceses chegam a viajar gratuitamente nos aviões dos políticos, sem se importar com um mínimo de ética e seriedade no trabalho.

?Políticos e jornalistas estão na mesma bolha. Estão em família?, disse Stefan Braendle, do jornal austríaco Der Standard."

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