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Domingo, 19 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > 4.

Alexandre Mansur

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234

DEPOIMENTO DOS JORNALISTAS
(*)

Acho muito triste que alguém tenha criado um e-mail falso para se fazer passar por um jornalista só para criar intrigas envolvendo quatro jornalista e um cientista.

O episódio mostra como estamos vulneráveis a este tipo de bobagem que circula pela internet. Ainda bem que o Observatório teve a lucidez de checar a história antes de coloca-la no ar. (A.M.)

(*) Subeditor da revista Época

 

(*)

Criado para fiscalizar os deslizes de jornalistas, o Observatório da Imprensa acaba cometendo os erros que condena.

Parece que foi ontem. Márcia Silveira, jornalista gaúcha que mora em Manaus há mais de quatro anos, me enviou por e-mail um artigo publicado no Observatório da Imprensa, assinado pelo paraense Lúcio Flávio Pinto. No texto, veiculado no dia 20 de novembro do ano passado [remissão abaixo], Lúcio Flávio ameaça fazer uma crítica sobre o livro que eu acabara de lançar, Direto da Selva. O livro narra histórias interessantes e inusitadas que vivi durante dois anos na Amazônia, como correspondente da revista Veja na região. Mas Lúcio Flávio n&atiatilde;o fez críticas pontuais ao livro. Foi muito mais longe. Em seu texto, ele me acusou de ter inventado um dos episódios que relatei, o seqüestro do qual fui vítima, em Belém ? fui encapuzado e levado num carro até a floresta por três homens, que me amarraram a uma árvore, depois de fazerem ameaças (a intimidação tinha o propósito de evitar a publicação de uma reportagem em curso na ocasião, sobre apropriação ilegal de terras).

Desconsiderando todo o trabalho de investigação que a polícia havia feito, Lúcio insinuou que eu nunca sofrera aquela agressão. Eis os fatos comprovados pela polícia:

1. No dia 8 de março de 2000, por volta das 19 horas, cheguei, cambaleante, molhado de chuva e com os pulsos e joelhos sangrando, ao posto da Polícia Rodoviária Federal em Benevides, município paraense a cerca de 30 quilômetros de Belém.

2. Um dos policiais desse posto levou-me até minha casa, no veículo da polícia.

3. No dia seguinte, acompanhado por dois policiais, fui levado ao IML para ser examinado. O legista constatou que as marcas nos meu pulsos haviam sido causadas por atrito com corda ou nylon e que os hematomas nas minhas costas eram conseqüência de chutes e socos.

4. Numa operação envolvendo duas viaturas da polícia e oito investigadores, fui levado à região de Benevides. Os policiais encontraram uma família em cuja casa eu tinha pedido socorro na noite anterior. Os moradores confirmaram que, de fato, eu tinha aparecido, molhado de chuva e sangrando, pedindo socorro.

Lúcio Flávio também argumentou que o seqüestro era inverossímil pelo fato de a reportagem que o motivara não trazer nada de novo. Outro equívoco. A matéria tratava do maior caso de grilagem de terras do mundo. Mostrava todos os meandros da quadrilha: nomes dos envolvidos, juízes, empresários, madeireiros, cartórios. Eram tão fortes e consistentes as provas apresentadas, que a Câmara Federal instalou a CPI da Grilagem de Terras na Amazônia.

Há, ainda, muitas outras provas concretas que fariam qualquer órgão de imprensa sério avaliar se valeria mesmo a pena divulgar o texto de Lúcio Flávio Pinto. O Observatório da Imprensa, entretanto, jogou o “artigo” na web como se fosse a mais absoluta e intocável verdade. E, pior, sem se dar ao trabalho de entrar em contato comigo. Só fiquei sabendo da história duas semanas mais tarde, ao retornar de uma viagem de trabalho e ler o já citado e-mail da jornalista Márcia Silveira.

A gravíssima falha do Observatório ? que, pela missão a que se propõe, não deveria publicar textos sem obedecer a lei básica do bom jornalismo, a checagem ? por muito pouco não se repetiu. Na segunda-feira passada, recebi um e-mail de Luiz Antonio Magalhães, editor do Observatório, contendo um texto que seria publicado pelo site na terça, 15. Também assinada por Lúcio Flávio Pinto, a matéria “Jaysons Blairs Brasileiros: Jornalismo-Ficção faz Escola” acusava a mim, Alexandre Mansur, subeditor de Época, e Claudio Angelo, editor-assistente de Ciência da Folha de S. Paulo, de termos inventado supostas entrevistas com o pesquisador e ambientalista americano Russel Mittermeier, presidente da ONG Conservation International. Segundo Lúcio Flávio, o próprio Mittermeier teria declarado a ele (Lúcio) que nunca tinha sido entrevistado por mim, por Mansur ou por Claudio.

O primeiro e-mail de Luiz Antonio deixa bem clara a postura do Observatório. “Você está citado na matéria abaixo, que o Observatório da Imprensa publicará na edição desta semana.” Noutras palavras, mesmo sem prova alguma o texto iria ao ar. E Luiz Antonio ainda determinava o deadline: “A edição do Observatório entra na rede na noite de amanhã e aguardamos um retorno seu até às 16h de amanhã”. Ou seja: nós, os acusados, é que teríamos de provar nossa inocência. Eu e Claudio Angelo gastamos boa parte da nossa terça-feira trocando e-mails e conversando por telefone com o próprio Luiz Antonio e com a assessoria de comunicação da Conservation International no Brasil.

Por mais que afirmássemos que todo o texto era uma grande bobagem sem o menor fundamento, e que era Lúcio Flávio quem devia apresentar as provas de suas acusações, o editor do Observatório continuava dizendo que a matéria entraria no site às 18 horas. Só às 16h45 a matéria caiu. A assessoria da Conservation International no Brasil conseguiu falar com Russel Mittermeier, que negou ter dado as referidas declarações a Lúcio Flávio Pinto. Portanto, existe mesmo um Jayson Blair brasileiro, mas não sou eu nem os colegas citados levianamente no artigo em questão. A história, no entanto, ainda não tinha chegado ao fim. Diante da situação constrangedora, surgiu na última hora uma explicação curiosa para a confusão.

Toda a comunicação entre Lúcio Flávio e o editor do Observatório ? do envio da matéria aos acertos finais ? foi realizada por e-mail. Constatada a imprecisão do artigo, Luiz Antonio telefonou para mim e para Claudio Angelo, dizendo que tinha acabado de falar com Lúcio Flávio e que estava “perplexo” com o que descobrira. Na verdade, tudo teria sido armado por um “falso” Lúcio Flávio Pinto, utilizando um endereço de e-mail que o “verdadeiro” Lúcio desconhecia. Éramos, enfim, todos vítimas. É de se estranhar, no entanto, que o texto da matéria que acabou não sendo publicada é impressionantemente semelhante ao estilo de Lúcio Flávio ? o que não quer dizer grande coisa. O interessante é constatar que o editor Luiz Antonio passou praticamente dois dias conversando por e-mail com o “falso” Lúcio Flávio Pinto sem perceber que se tratava de um impostor. E a matéria só caiu quando Russel Mittermeier desmentiu tudo.

Agora, analisemos a gravidade do caso. Alexandre Mansur está viajando de férias e, portanto, não tomaria conhecimento da pendenga por e-mail, que foi o único meio de comunicação utilizado pelo Observatório para nos avisar que o artigo iria ao ar. Claudio Angelo está de viagem marcada para os Estados Unidos, onde passará um tempo estudando no respeitadíssimo MIT. Eu sou editor da revista Terra e passo ao menos dez dias do mês viajando a trabalho. O que teria acontecido se essa matéria tivesse sido publicada numa semana em que nós, os três acusados, estivéssemos sem contato por e-mail? Seríamos os três tomados por farsantes e embusteiros, mesmo sem o acusador ter prova alguma. Foi exatamente o que aconteceu comigo em novembro do ano passado, quando um certo Lúcio Flávio Pinto ? se o real ou o falso, não sei ? recebeu do mesmo Observatório da Imprensa espaço livre para me difamar. Talvez seja a hora de alguém criar o Observatório do Observatório. Como disse Cláudio Ângelo, com quem eu nunca havia falado até tudo isso acontecer, “quem observa os observadores?”. (K.C.)

(*) Editor da revista Terra

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