Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

Alfabetização e universidade responsável

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

Dóris Santos de Faria (*)

O analfabetismo num país como o Brasil é a expressão de um “câncer” social causado por uma “fábrica” de exclusão social como tem sido a educação em nosso país, ao longo de toda a história. Convivemos não apenas com padrões de Bélgica e Índia ao mesmo tempo, mas também com a continuação de problemas que vão desde a Idade Média até a era informática mais contemporânea. O presente é o do século 12 junto ao do século 21 ? uma inversão inaceitável para uma nação que já nasceu em tempos modernos.

A nossa educação montou uma máquina de produção em série de analfabetos. Apesar de mais de 90% das nossas crianças estarem na escola fundamental, a cada quatro ou cinco anos impedimos que outros 10 ou 12 milhões a freqüentem. E isso sem contar os outros tantos que entram, mas não conseguem ficar e, gradativamente, ao longo das séries, vão sendo excluídos…

Por mais que campanhas nacionais sejam feitas e consigam, em três ou quatro anos, atender um tanto de 10 milhões de analfabetos, a máquina da exclusão social, que é a educação, continua atuando e fabricando outros tantos analfabetos. Enquanto não houver escola para todos (100%), com condições de permanência e qualidade de ensino, especialmente investimentos no professor, o Brasil não romperá o círculo vicioso: quão mais ignorante é, mais ignorante será. Isso vale para o povo, seus governantes, e para nós todos.

E a universidade com isso? Afinal, isso é problema do ensino fundamental, do serviço social, da política governamental… A universidade tem muito a ver com isso. Vejamos: é a universidade que forma os professores, qualifica-os, pesquisa sobre os métodos de ensino, sobre as causas dos problemas do país. O analfabetismo talvez seja o maior desses problemas.

É a universidade que garante à nação uma educação continuada capacitando sistematicamente os recursos humanos necessários aos quadros estratégicos de gestão da coisa pública. É a universidade que é capaz de alertar os governos sobre cenários futuros que tenham valor estratégico para o país. A alfabetização e a subseqüente escolarização possibilitam novos cenários de qualificação de mão-de-obra e emprego, de produção industrial, de melhoria sócio-econômica. A universidade é capaz de descobrir no passado as causas dos problemas que nos afetam hoje. Ela pode avaliar as situações com mais isenção e competência, possibilitando o monitoramento permanente das indicações do desenvolvimento de um país, da melhoria da qualidade das condições do desenvolvimento de um país e da melhoria da qualidade de vida de seu povo.

Estratégias para o país

Mas, que vida é essa que não sabe ler nem escrever? A universidade dispõe ? dentre seus principais constitutivos ? de interação permanente com a sociedade por meio da atividade de extensão, que detecta e reage ao analfabetismo em nosso país. Isso é formar com e para a cidadania. É a universidade a instituição que forma e prepara indivíduos para formar os cidadãos de um país. Mas, que cidadania é essa imersa em analfabetismo? Por fim, é a universidade talvez a única instituição que congrega máximas tradição e modernidade em qualquer sociedade ? que é capaz de imprimir em seus passos a marca da solidariedade com as pessoas, do respeito aos direitos humanos para todos, e da luta por justiça social aliada ao desenvolvimento científico. Isso é formar para a cidadania.

Quem deve preparar indivíduos e condições para a educação em um país? Onde se localiza o núcleo da deflagração do processo educativo? Na escola fundamental que ensina as primeiras letras às criancinhas ou na universidade que prepara o(a) professor(a) para ensinar? Onde se origina a produção do conhecimento e a formação do potencial necessário para lidar com o desenvolvimento da sociedade? É na universidade. E como enfrentar a falta de escolas, a falta imediata de um milhão de professores, a desqualificação de dois milhões de docentes na educação básica, a falta de profundidade no conhecimento dos processos e da eficiência dos métodos de escrita, leitura e cálculos básicos que capacitam o cidadão para o mais fundamental da vida?

Que estratégias adotar num país com as características monumentais do nosso? Qualificar processos e pessoal para agir. E, se a universidade não fizer isso, quem fará?

(*) Decana de Extensão da Universidade de Brasília ? área que coordena projetos de alfabetização ? e organizadora do livro A alfabetização: práticas e reflexões. Subsídios para alfabetizados (Editora UnB, 2003).

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