Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > foi sabotado em dois níveis: no plano administrativo, ao solapar o esforço para punir abusos do setor privado, e no plano político, quando o setor público chegou a combater de forma truculenta a avaliação.

Algo de podre no reino do Provão

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

AVALIAÇÃO IMPLODIDA

Alberto Dines

O governo, por intermédio do seu ministro da Educação, quer avaliar o ensino superior, quer punir os estabelecimentos que não oferecem condições satisfatórias mas não quer o Provão. Ou seja: não quer o Provão PR (Paulo Renato, ex-ministro). Que se faça então o Provão CB (Cristovam Buarque, atual ministro).

Alguma coisa precisa ser feita com urgência para evitar os descalabros e os chocantes episódios como o que está acontecendo na Cásper Líbero, a decana do ensino do jornalismo no Brasil, praticamente parada porque o corpo docente protesta contra a sua crescente mercantilização.

O governo levou nove longos meses para resolver o dilema hamletiano "Provão ou não Provão?", e enquanto não põe em marcha uma alternativa viável convém lembrar os vilões desta história:

** O lobby do ensino superior privado agia dentro do Conselho Nacional de Educação impedindo a consumação das punições. Sabotagem escancarada. Avesso à idéia do controle público, o lobby privatista preferiu nivelar por baixo ? proteger as arapucas dos nanicos para evitar que no futuro as grandes empresas de educação pudessem ser igualmente enquadradas. Comandante do lobby: o "imortal" Arnaldo Niskier, que a mídia acolhe com todo o carinho porque traz os anúncios das universidades mais ricas.

** O lobby corporativo da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da União Nacional dos Estudantes (UNE), com interesses diferentes e objetivos finais em comum: impedir o controle social do ensino superior. Em outras palavras: proibir a sociedade de cuidar da formação das próximas gerações.

Inicialmente a Fenaj chegou a aderir à idéia do Provão ao designar alguns representantes de altíssimo nível para integrar o Grupo de Trabalho que estabeleceu as bases do sistema de avaliação das escolas de Jornalismo. Arrependeu-se logo em seguida e mandou dizer que "desindicava" os nomes que acabara de indicar. Então aconteceu uma coisa extraordinária: a maioria dos professores-jornalistas indicados pela Fenaj aceitou continuar no Grupo de Trabalho como cidadãos desvinculados de qualquer instituição.

O Provão, assim como a idéia das agências reguladoras, é um avanço democrático mas não conseguiu moralizar e melhorar o ensino de Jornalismo porque foi sabotado em dois níveis: no plano administrativo, ao solapar o esforço para punir abusos do setor privado, e no plano político, quando o setor público chegou a combater de forma truculenta a avaliação.

O ministro Cristovam Buarque disse que deseja fechar os cursos ruins. Parabéns! Mas é preciso barrar urgentemente o licenciamento de instituições precárias apadrinhadas por políticos da chamada "base aliada". Isto aconteceu no governo passado e corre o risco de acontecer com o novo.

O "negócio" da educação superior no Brasil movimenta milhões de dólares, está chamando a atenção dos "investidores" estrangeiros que já perceberam onde e como atravessar os sistemas de controle. Políticos e educadores inescrupulosos estão ouriçados.

A mídia não deu seqüência a uma denúncia de página inteira publicada em O Globo ("Contratos sob suspeita", 31/8, pág. 22), na qual se mostra que o governo fluminense pagou nos últimos três anos mais de 500 milhões de reais a um pequeno grupo de universidades privadas e fundações para evitar licitações. Uma destas "universidades" chama-se Unicarioca e pertence ao mesmo "imortal" Arnaldo Niskier (recebeu quase 50 milhões, 10% do total).

Há algo de podre no reino do Provão. Mais uma prova da atração entre a má-fé e as forças do atraso contra a modernização e os avanços.

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