Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > ALI KAMEL vs. MS CONTI

Ali Kamel

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

ALI KAMEL vs. MS CONTI

“Resposta a Mario Sergio Conti”, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 8/10/03

“Caro Mário Sérgio,

Em primeiro lugar, deixe-me dizer que é um prazer ler um artigo-resposta seu, mesmo quando o objetivo dele é me contradizer. Porque, como sempre, você não ultrapassa os limites das boas normas de convivência. Acredite, isso é uma exceção. Ao longo dessa carta, aceitando a discussão que você propõe, vou tentar deixar claro o que eu considero ser ?bom jornalismo?. A você e aos leitores peço paciência: o texto é longo, em respeito a você e a eles.

Você começa o seu artigo-resposta com uma imprecisão. E isso não é bom jornalismo. Você diz que eu acusei ?todos os que criticaram a cobertura do Jornal Nacional daquele comício de não terem feito a pesquisa necessária?. Bem, não foi o que eu fiz. Eu critiquei coisa bem diversa: critiquei todos os que, em seus livros, publicaram uma informação errada, todos os que disseram que a edição do Jornal Nacional de 25 de janeiro de 1984 omitiu que a razão do comício da Praça da Sé era exigir eleições diretas para presidente da república. Seu livro diz o seguinte:

?Numa reunião na sala de Armando Nogueira, [Boni] determinou que uma repórter falasse da Praça da Sé, em menos de vinte segundos, que ali estava sendo comemorado com um show o aniversário de São Paulo. Não deu certo: além de omitir, a Globo foi acusada de distorcer a verdade.?

Isso é um erro, uma inverdade, uma acusação injusta. No caso, o seu livro, uma grande reportagem histórica, não fez bom jornalismo. Se você e os outros tivessem apenas criticado a cobertura do JN daquele dia, eu não teria feito artigo algum. Você e todos os outros poderiam ter considerado a cobertura um exemplo de má cobertura. Poderiam até mesmo ter usado todos os argumentos do mundo para provar a tese de vocês. Eu não teria escrito artigo algum, mesmo discordando. Porque criticar é um direito de todos; mas, errar, por ter feito uma pesquisa ruim, ou mentir, ninguém pode. Pelo menos não aqueles que praticam o bom jornalismo.

Eu gostaria de ter lido em seu artigo-resposta a admissão explícita de que você se equivocou em seu livro. Isso seria bom jornalismo: reconhecer o erro. Mas você, que é bom jornalista, não o faz. De um lado, você parece se justificar: a culpa foi do Cedoc da Globo que não teria lhe dado acesso à fita. De outro, você parece mudar a tônica do que você disse em seu livro: agora, você já não acusa a Globo de ter inventado uma mentira; você apenas tenta mostrar, com seus argumentos, que, embora não tenha mentido, a Globo cobriu mal o comício, seja porque não dedicou a manchete a ele, seja porque lhe concedeu um tempo curto demais, seja porque, na reportagem, mencionou o aniversário da cidade de São Paulo. Como eu já afirmei antes, se você tivesse dito tudo isso em seu livro, sem dizer que a Globo mentiu, eu não teria escrito artigo algum. Porque, opinião, cada um tem a sua. Fico então sem saber: você admite que errou? Pretende consertar o erro numa próxima edição do seu livro? Isso seria bom jornalismo.

Mas vamos enfrentar a questão mais a fundo. Eu perguntei ao pessoal do Cedoc se algum dia a fita da edição do dia 25/01/1984 lhe foi negada por alguma razão. Infelizmente, não há registros desse tipo de pesquisa. Portanto, não há prova definitiva e cabal sobre se o pedido foi ou não negado. Tentei então que eles usassem o mesmo recurso que você usou, a memória, e eles foram categóricos: jamais negaram qualquer pedido e acrescentaram que a justificativa que você diz que eles deram não faz sentido (você conta que eles disseram que a fita estava gravada num sistema ?x? e passava por um processo de transcodificação para o sistema ?y?). O pessoal do Cedoc explicou-me que nem um leigo aceitaria uma justificativa assim. Mas, aqui, eu não vou duvidar nem dos funcionários do Cedoc, nem de você. Já disse que não gosto de trabalhar com base na memória porque, quando o faço, confundo Newton Cruz com Newton Cardoso. Peço desculpas ao pessoal do Cedoc, mas vou admitir que a sua versão é a verdadeira, como hipótese de trabalho.

Eu pergunto: justificar o seu erro, imputando-o a terceiros, ameniza a sua responsabilidade por publicar uma inverdade sobre a Globo? Eu creio que não. Como bom jornalista, o que você deveria ter feito é coisa diversa do que fez. Você deveria ter ?denunciado? em seu livro que a Globo não lhe franqueou o acesso a tal fita. E acrescentado: ?Mas, pelo que eu me lembro, naquele dia a Globo mentiu assim e assado?. Claro, você não fez isso porque queria o impacto das certezas e, como você mesmo disse, a memória só traz dúvidas e nenhum impacto. Você optou então por basear-se exclusivamente na sua memória e na de outros (sem admiti-lo expressamente) e acusou a Globo de um crime que ela não cometeu. Não foi bom jornalismo.

O que me intrigou em seu artigo-resposta é que a certa altura você parece admitir que a memória não é boa companheira da reconstituição histórica (?A memória, como você, eu e todo leitor de Freud e Proust sabemos, é parcial e enganadora?, você disse). Mas, a seguir, você não faz outra coisa senão recorrer à memória, à sua memória. E continua deixando-se enganar. Você diz, por exemplo:

?As redes Bandeirantes e Manchete deram flashes ao vivo da preparação da manifestação (acompanhei as duas na redação, antes de sair para a cobertura). Com as emissoras de rádio, a mesma coisa (ouvi rádio no táxi, da ‘ ‘Veja’ até a Sé?.

Leia, no entanto, o que disse a Folha de São Paulo, na edição do dia seguinte ao comício, numa minuciosa análise sobre a cobertura das TVs (o título da matéria era: ?Nas TVs, um comício sem cobertura?). É evidente que a Folha e seus articulistas colocam a Globo no pelourinho, criticando acidamente a emissora (aliás, quem primeiro divulgou a versão de que a Globo mentira, inventando que o comício era para comemorar o aniversário da cidade, foi Tarso de Castro, na mesma edição). Mas você vai notar que não viu os flashes na Globo porque não quis. Pelo que diz a reportagem, eles eram esparsos, mas, pasme, existiram. A reportagem da Folha, no entanto, é, no mínimo, omissa em relação a possíveis flashes nas concorrentes que você cita. Eu digo ?omissa? porque não quero ser injusto com as duas emissoras, tendo pesquisado apenas na Folha (porque foi somente ela que falou de televisão), mas você e os leitores vão perceber que tudo indica que as duas emissoras não puseram flashes do comício no ar (embora os noticiários de ambas tenham sido de fato mais extensos, mas não a enormidade que você sugere: três minutos no Jornal de São Paulo, da Band, por exemplo). Primeiro, vejamos o que a reportagem diz sobre a Globo:

?A Globo, rede de maior audiência, foi o pivô da história. Só começou a tocar no assunto na véspera, ainda assim, em suas emissoras locais. O Jornal Nacional da quarta-feira embutiu o comício no meio das comemorações sobre o aniversário da cidade. Tão rápido quanto possível, mas a imagem da Praça da Sé estava lá, incontestável. Durante a tarde, o Globo Cidade trazia ‘flashes’ esparsos entre um segmento e outro do filme de ‘Lassie’ ou do seriado ‘As Panteras’. À noite, um noticiário um pouco mais alentado no ‘SPTV’. O suficiente para mostrar que ninguém entende de jornalismo quanto essa emissora: móveis, suas equipes estavam em toda parte, mostrando o comício, os postos médicos, a boca do metrô por onde chegavam as pessoas; a emoção das pessoas fora do palanque?.

Pausa para análise: 1) a Globo tocou no assunto comício já na véspera; 2) Durante a tarde, deu flashes durante dois filmes, Lassie e as Panteras; 3) à noite, a cobertura do SPTV arrancou o reconhecimento de que ?ninguém entende de jornalismo quanto essa emissora?.

Prossigamos com outro trecho da Folha sobre TVS (hoje SBT), Record, Manchete e Gazeta, logo depois de criticar a TV Cultura, a emissora pertencente ao Governo de São Paulo:

?Seja como for, a Cultura estava lá. A TVS ficou com um show besta em que atores americanos famosos faziam números perigosos. A Globo teve o filme de ‘Lassie’, ‘As Panteras’ e as novelas. Na Record, um apaixonante campeonato de futebol de salão corria solto. A mumificada Manchete ficou com o seu Shopping Show e depois com Xuxa e desenhos animados a tarde toda. Na Gazeta, ‘Mulheres em desfile’ (com flashes, a exemplo da Globo)?.

Pausa para análise: 1)a Record não deu flashes;2)a reportagem não menciona flashes da Manchete; e a referência à Globo na análise da Gazeta, que deu flashes, permite a interpretação de que a Manchete não deu flashes.

Mas e a Bandeirantes? É a Folha quem conta:

?A Bandeirantes tinha Joelmir Betting (e depois José Augusto Ribeiro) para resgatá-la dos infinitos desenhos animados da tarde. A melhor cobertura foi da Abril Vídeo que percebeu alguma coisa importante fora do palanque?.

Pausa para análise: 1) se o repórter viu os flashes na Band, à tarde, ele não os menciona, como fez com a Gazeta, Cultura e Globo. Critica apenas os desenhos animados.

Donde eu posso concluir que a sua memória pode ter falhado: você pode ter visto os flashes na Globo, ou na Gazeta, ou na Tv Cultura. Ou nas três.

Talvez você confie mais nos seus próprios textos jornalísticos. Você mesmo cita, de memória, a entrevista que fez com Osmar Santos, no dia seguinte ao comício. Cita para provar que a matéria da Globo tinha menos de um minuto e que não houve flashes. Se você, em vez de apenas citar, tivesse pedido a algum colega de redação da Veja para enviá-la por fax, você mesmo perceberia ser enganosa a sua lembrança. Eis a sua pergunta:

?Veja: Como você interpreta a cobertura que a Rede Globo deu ao comício de São Paulo? Ela não divulgou quase nada sobre a preparação do ato público e, no Jornal Nacional de quarta-feira, dedicou apenas 1 minuto para o comício?.

Eu já tive oportunidade de dizer em outro lugar, mas repito aqui: ?quase? não é o mesmo que ?nada?. E para matar de vez a sua curiosidade: a matéria tinha dois minutos, sendo que um minuto e quatro segundos exclusivamente para o comício.

O certo é que, naquele dia, nenhuma emissora privada transmitiu o comício ao vivo. Em outra reportagem, publicada no mesmo dia na página sete da Folha com o título ?Comício quebra boicote do rádio e da televisão?, há referências ao noticiário da Band e da Manchete. Para sermos transparentes, vamos a eles:

?No Jornal de São Paulo, da TV Bandeirantes, a cobertura do comício foi editada em três minutos. A emissora mostrou a presença de artistas e políticos, entrevistou um prefeito do PDS presente ao ato e colocou na boca do presidente nacional do PMDB, Ulysses Guimarães, a presença de 250 mil pessoas na Praça da Sé?. Não há referência, em toda a reportagem, a outro telejornal da Band.

Sobre a Manchete, a mesma reportagem diz o seguinte:

?As outras emissoras _ Manchete e TVS_ não conseguiram esconder o comício e o apresentaram no ar timidamente nos programas noticiosos?.

Diante desses relatos, gostaria de saber se você ainda acredita no que lhe disseram os seus colegas na época do comício. Porque em seu artigo-resposta, você diz:

?Nos telejornais do horário nobre, a Manchete e a Bandeirantes dedicaram bem mais da metade do tempo ao comício (perguntei aos colegas, ao preparar a entrevista com o Osmar Santos)?. Ou a sua memória o traiu, ou os colegas não eram boa fonte ou a Folha de 26 de janeiro de 1984 foi incorreta, imprecisa ou injusta com as duas emissoras. Coisa que não descarto.

E até a TV cultura mereceu avaliações negativas. De um Tarso de Castro, por exemplo:

?É um inferno mesmo. A ‘cobertura’ feita pela TV Cultura, não foi só um ato de extrema imbecilidade. Para esse que vos fala, pareceu mais uma sabotagem. Ora, se sabia que as demais televisões estavam fazendo as piores coisas contra os comícios. Muito bem. Vai daí que a transmissão ao vivo ficou a cargo da Cultura. E o que acontece? Simplesmente a televisão resolve cortar a maior parte da manifestação para apresentar um debate frio, de estúdio. Terá sido nojo do cheiro do povo? Ou ódio da audiência? Sim, porque muita gente estava em casa sintonizado na torcida. Pessoalmente, reconheço a qualidade de alguns dos participantes do debate. Mas não era hora. E o autor do projeto foi brilhante em matéria de serviço completo: à certa altura dos acontecimentos, conseguia irritar os telespectadores mais do que a TV Globo. E com razão: se é para ver a coisa pela metade, se é para ver e ouvir seis pessoas e não 400 mil, então é melhor ver um musical da Metro, em outro canal.?

Pausa para análise: 1) Tarso de Castro diz que as demais televisões estavam fazendo as piores coisas contra o comício; 2) assim, onde estava o brilhante jornalismo da Bandeirantes e da Manchete? Eu respondo: talvez, apenas na sua memória, parcial e enganadora, como a minha e de todos os homens (os leitores de Freud e Proust sabem disso, você lembrou bem).

Tudo isso talvez responda um de seus questionamentos. Você diz que a transcrição da matéria do Paglia ajuda a ?saber a partir de qual base factual se produziu o balanço (em livros, artigos e na memória das pessoas) daquela cobertura?. Eu também achava isso, mas, a partir do seu artigo-resposta, noto que as transcrições que faço hoje são mais valiosas. Porque mostram que é repetindo inverdades _ num único movimento, tão mentiroso contra a Globo como mentiroso a favor das concorrentes _ que se chega à ?percepção social de que a cobertura das diretas feita pela Globo foi um escândalo?. Só que se trata de uma percepção falsa de um falso escândalo.

Você também glorifica os jornais impressos para detratar um pouco mais o JN. Mas a memória o trai novamente. E, mais uma vez, o bom jornalismo sai comprometido com informações inexatas: O Globo não deu manchete para o comício; o JB, na véspera, dia do evento, não deu uma linha sequer sobre a realização, uso palavras suas, ?da grande notícia do dia?. Mas você dá a entender aos jovens de hoje que o Jornal do Brasil daquele período, em plena ?fase malufista?, era um baluarte a favor das diretas. Isso não é bom jornalismo. Leia o que disse o Tarso a respeito:

?A coisa não ficou por aí: o ‘Jornal do Brasil’, do Rio, cuja pauta de reportagem é redigida pelo ilustre jornalista Calim Eid, na edição do dia do comício mesmo negou-se a dar uma só linha a respeito do assunto. Em compensação, gastou muitas laudas quanto a visita de Paulo Salim Maluf à Manaus para visitar umas dez pessoas?.

O Estadão saiu no dia 25 com boas matérias de serviço sobre o comício. E, na cobertura do dia seguinte, cumpriu o seu dever. Noticiou o evento, mas não deixou de citar que, embora não tenha sido realizado para comemorar o aniversário da cidade, o comício aconteceu no dia 25 de janeiro justamente porque era aniversário de São Paulo: um feriado no meio da semana (uma quarta-feira), o que daria oportunidade a todos, para que pudessem, legitimamente, comparecer ao ato sem maiores problemas. Na primeira página, embaixo da manchete dedicada ao comício, o Estadão fez o seguinte texto-legenda:

?Além do comício na Praça da Sé, pelo menos 150 acontecimentos preencheram o feriado de ontem para os paulistanos: aqueles realizados para comemorar os 430 anos da cidade, o cinqüentenário da catedral de São Paulo, e os 30 anos do Parque Ibirapuera. Houve de tudo: torneios de futebol, desfiles de escolas de samba, exposições de arte, gincanas, espetáculos musicais e corridas. Apesar da chuva, muita gente saiu de casa só para se divertir um pouco?.

O Jornal Nacional fez o mesmo e foi execrado.

Caro Mário, eu repito o que disse em meu artigo. O que não se perdoou na TV Globo foi o fato de ela não ter feito campanha, não ter se engajado jornalisticamente como fez a Folha, para usar um exemplo seu. Independentemente das posições políticas do Dr. Roberto Marinho, eu não sei se isso seria possível na época. Nenhuma emissora privada fez isso. A própria Folha, antes de criticar a performance de cada emissora no primeiro texto que citei acima (?Nas TVs, um comício sem cobertura?), faz uma análise do sistema jurídico precário em que viviam as emissoras de televisão em plena ditadura (hoje, apesar de continuarem a ser uma concessão pública, com a democracia consolidada, as emissoras têm uma segurança jurídica bem estabelecida e liberdades que lhe são constitucionalmente asseguradas). Mas vejamos a análise que a Folha fazia na época:

?Não passavam das seis e meia quando o governador Leonel Brizola tocou o ‘X’ da questão: ‘Gostaria que o Brasil inteiro estivesse assistindo a este acontecimento. A corte que se formou em Brasília não reconhece a vontade do povo brasileiro.’ E se há corte em Brasília, o que é a TV senão a sua cortesã? Meio mais influente, ela estava, na prática, ausente. É difícil dizer se as emissoras são culpadas por isso. Vivem sob sistema de concessões precárias, que as torna fantoches do poder central. Os canais pertencem – é bom sempre lembrar – ao Estado, e não custa encontrar um pretexto para cassá-los. Em matéria de TV temos o que há de pior em matéria de estatismo. Todas as desvantagens do Estado somadas a todas as desvantagens da iniciativa privada? .

Você mesmo dá conta de que mesmo no final da campanha, quatro meses depois daquele comício, quando multidões já tinham ido às ruas protestar, os acionistas da Globo ainda recebiam ameaças vindas de homens armados de metralhadoras em helicópteros. Eu não tenho informações a respeito, mas imagino que no começo da campanha de rua, quando tudo era incerto, as pressões externas tenham sido de grande monta. Seu raciocínio não faz sentido: você diz que emissoras menores e mais fracas puseram no ar reportagens mais longas no dia do comício, e se pergunta por que a Globo, mais forte, não poderia fazê-lo. Eu respondo: justamente por ser a mais forte, ela era também a mais visada. No comício da Candelária, transmitido ao vivo pela Globo e pelas outras emissoras, a Globo teve um índice de audiência de 75% no Rio de Janeiro, contra 7% da Manchete e 1% da Bandeirantes. Eu tenho certeza de que você sabe para que lado esses números faziam apontar as baionetas.

Mas a Globo não se acovardou. No dia 25 de janeiro, a despeito de tudo, pôs no ar uma reportagem completa de Ernesto Paglia, sem omissões e sem mentiras. Vou repetir: falou em diretas para presidente duas vezes, citou a verdadeira razão do comício, mostrou a praça e as imediações lotadas, disse que o povo não arredava pé nem com a chuva, exibiu os políticos no palanque (Ulysses, Lula, Tancredo, Brizola etc) e encerrou com o veemente trecho final do discurso de Montoro. Para mim, isso é bom jornalismo. Para mim, isso é um jornalismo corajoso, que deve servir de motivo de orgulho para toda aquele batalhão de jornalistas que cobriram o evento, informaram o povo brasileiro com correção, mas tiveram de conviver, injustamente, com a pecha de terem participado de uma farsa. Escrevi o artigo para mostrar que a farsa não estava na Globo. Esteve primeiro nas colunas de política, depois nas mesas de bares e, depois, onde nunca poderia ter estado: nos livros. Recontar essa história, corrigindo-a, é sim bom jornalismo. Com todo o alarido da Folha, sem a Globo, você sabe, 99% dos brasileiros não teriam tomado conhecimento do comício.

Bom jornalismo não se mede em minutos, em páginas, em centímetros. Mede-se pelo seu conteúdo de verdade. Pode ser apenas uma frase, um minuto, ou um caderno inteiro ou um telejornal inteiro. O que importa é a verdade. E aquela reportagem do Paglia era verdadeira do início ao fim.

Meu caro Mário, eu sinceramente agradeço a sua carta e a maneira fraternal como você se referiu a mim. Mesmo não sendo o seu objetivo, você me deu a chance de esmiuçar o passado e renovou minhas chances de esclarecer melhor o assunto. Fique também tranqüilo, eu conheço bem as minhas responsabilidades e vou sempre levar em conta sua advertência quanto a possíveis crises futuras, jornalísticas e políticas. Vou tentar superá-las de duas maneiras: tirando lições do passado e tentando fazer sempre bom jornalismo.

Com o abraço de sempre,

Ali Kamel

ps: para matar a sua curiosidade, alguns dados que você me perguntou. O locutor do Jornal Nacional do dia 25 de janeiro não era o Cid Moreira, era o Marcus Hummel; como eu já disse, o mote do locutor foi mesmo o aniversário da cidade, mas, no título, ele não usou as palavras ?comemoração? nem ?show?, nem ? festa?; usou ?solenidades? e ?comício?.”

“Alegações finais”, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 11/10/03

“Caro Ali,

Obrigado pela resposta. Não a comentarei em detalhe porque não quero entediá-lo e presumo que os leitores estejam a ponto de nos abandonar. Parto rápido para as conclusões.

Antes, algumas observações inescapáveis. Recorri à memória porque não tenho comigo meus arquivos e anotações. Eles estão em São Paulo, de onde saí há quase três anos. E também porque a memória pode ser imprecisa mas é o ponto de partida de tudo, inclusive do jornalismo diário: ao fazer a sua matéria, o repórter lembra o que apurou horas antes. É por isso que, entre outros motivos, há erros na imprensa.

E é por isso que as fontes escritas primárias às vezes não trazem a palavra final quando se busca reconstruir um acontecimento. Na frase famosa, os jornais são ?o primeiro rascunho da história?. A reconstrução fidedigna depende do uso, ou do abuso, que se faz das fontes escritas.

Vejamos alguns exemplos. Você escreve que uma reportagem da ?Folha? no dia seguinte ao comício da Sé é ?omissa?, e a usa para fazer afirmações taxativas. Você ?não descarta? que uma outra matéria da ?Folha? possa ser ?incorreta, imprecisa ou injusta?, mas a utiliza para escorar suas conclusões. Você acusa Tarso de Castro de mentir e inventar quando ele ataca a Globo, e parágrafos adiante aceita sem questionar o que ele diz de outras emissoras.

No artigo, você nos explicou que, como todos queriam que a Globo aderisse à campanha, ninguém perdoou quando ela ofereceu sua dieta de ?bom jornalismo? Ou seja, o povo é bobo mesmo.

Agora, na carta, a generalização da implicância com a Globo ganha uma explicação mais bisonha: Tarso de Castro inventou a ?farsa? de que o ?JN? cobriu o comício tendo como o foco o aniversário de São Paulo; a mentira foi repetida pelas colunas políticas; em seguida chegou às mesas de bares; e dos bares pulou para os livros.

Quanto aos seus arroubos ex cathedra, aos inúmeros e sentenciosos ?isso não é bom jornalismo?, aos rombudos ?você deveria? isso, ?você deveria? aquilo, à grave admoestação de que ?a memória não é boa conselheira?, ao ribombante ?o que importa é a verdade? – afasto-os e sigo em frente.

***

Você me lança o repto, com retórica sinistra: ?Você admite que errou? Pretende consertar o erro numa próxima edição do livro?? E decreta em seguida: ?Isso seria bom jornalismo?.

Aceito o repto de bom grado. Não porque concorde com o seu entendimento do que seja bom ou mau jornalismo. E sim porque ele oferece uma oportunidade para clarificar a nossa discussão.

O trecho que você contesta é o seguinte: Boni ?determinou que um repórter falasse da Praça da Sé, em menos de vinte segundos, que ali estava sendo comemorado com um show o aniversário de São Paulo. Não deu certo: além de omitir, a Globo foi acusada de distorcer a verdade.?

Com base nas suas informações, manteria o texto tal como está e colocaria a seguinte nota no pé da página:

?A Globo omitiu a manifestação pela eleições diretas tanto na manchete de abertura do ?JN? como no título da reportagem em que se referiu ao comício. A reportagem tem dois minutos de duração. Metade dela é dedicada ao aniversário de 430 anos de São Paulo, ao aniversário da catedral da Sé e ao cinquentenário da USP. No minuto final, o repórter Ernesto Paglia informa que houve um comício pelas diretas na Sé, e acrescenta que ?não foi apenas uma manifestação política?. Ele lista o nome de dez artistas presentes no palanque e de apenas um político, Franco Montoro, que encerra a matéria discursando: ?Houve a anistia, houve a censura, o fim da tortura; mas é preciso conquistar o fundo do poder que é a Presidência da República?.

***

A partir daí começam nossas divergências. As importantes.

Você se dá por satisfeito com as fugazes alusões ao comício e decreta: os telespectadores da Globo foram ?bem informados?. Eu digo que houve um processo contraditório, que se desenvolveu aos saltos e ziguezagues durante meses, no qual manifestações populares cada vez maiores fizeram com que a Globo fizesse uma autocrítica silenciosa em relação à Sé e, na Candelária, cobrisse o comício longamente, ao vivo, sem dissimulações – no momento mesmo em que a pressão da ditadura chegava ao ápice e helicópteros militares lhe rondavam a sede.

Onde você detecta ?motivo de orgulho? eu vejo um episódio complexo, que concentra problemas cruciais do jornalismo brasileiro.

Problemas que continuam a existir hoje e se projetam no futuro: o lugar de patrões e profissionais na produção da imprensa; as pressões governamentais sobre o noticiário; o embricamento de política e jornalismo; a dependência das emissoras de televisão em relação ao Estado; as relações entre cobertura e campanha. Com o seu modelo conformista de ?bom jornalismo? acho difícil enfrentá-los.

Obrigado pela paciência e pelas palavras afetuososas. Se vier a Paris, vamos continuar a conversa em torno de um café.

Com o abraço do, Mario

Caro Mário,

A sua decisão de acrescentar um pé de página ao seu livro, com mais informações sobre a reportagem da Globo, deixa-me feliz porque terá valido a pena a polêmica. Seu livro, nesta parte, continuará não sendo um retrato fiel da realidade, mas estará ao menos um pouco mais próximo disso. Melhor seria a reprodução integral do texto do Paglia, porque seus leitores teriam a chance de julgar por si mesmos. Mas eu entendo a restrição de espaço.

Eu advirto apenas que uma nova interpretação poderá surgir, e não será falsa: alguns ficarão com a impressão de que Boni deu uma ordem e foi desobedecido. Eu desconheço se houve aquela reunião e aquela ordem, mas, se houve, o seu pé de página deixará claro que, na Globo, a notícia fala mais alto. A título de colaboração, e já que você estará mesmo com a mão na massa, acrescento que no seu livro está escrito ?uma repórter?. Talvez você queira corrigir integralmente ao menos isso.

De resto, quem se dispôs a ler a nossa troca de cartas saberá julgar qual de nós dois deixou perguntas sem respostas, fez afirmações sem conseguir prová-las e se ?lembrou? de fatos que nunca existiram. E, por último, noto que as coisas estão melhorando. Na sua primeira réplica, você dizia que o meu conceito de bom jornalismo era uma aberração. Agora, você classifica o meu jornalismo como conformista. Mais um pouco e você recobrará a tranqüilidade necessária para ser justo.

Nesses vinte anos de profissão, tive o privilégio de ter trabalhado apenas em empresas que reconhecem que jornalismo só se pratica com independência, liberdade e correção (numa dela, fomos colegas). Quando passar por Paris, continuaremos a nossa conversa, sem aborrecer os leitores.

Um abraço, Ali Kamel”

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Carta a Ali Kamel ? Mario Sergio Conti

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