Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ERA LULA

Aluízio Falcão

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

ERA LULA

"A cultura do contra e do a favor", copyright O Estado de S. Paulo, 9/08/03

"Aguça-se, nesta segunda metade do ano, a revolução que virou de cabeça para baixo a nossa cultura política. Grupos que foram ?do contra?, durante 25 anos, mudaram de lado; e partidos tradicionalmente ?a favor? exercitam-se meio sem jeito no ofício da contestação. Refletindo essa reviravolta, os intelectuais, que de modo geral sempre estiveram na trincheira oposicionista, esforçam-se para assumir uma postura de aceitação e concordância.

Durante o governo Geisel, o escritor Antonio Candido fez uma conferência que repercutiu fortemente. Com grande lucidez analítica, ele observou que a cultura brasileira foi sempre muito ?a favor?. Na melhor das hipóteses, apresentava episodicamente movimentos ?do contra?, porém sempre temperados com ingredientes de adesão. Diante da iminência de uma era conservadora, o mestre aconselhava uma composição dos intelectuais com a mentalidade ?do contra?.

Seguiram-se, na bancada gauche do pensamento nacional, intensos debates sobre o tema. As digressões duram até hoje. Em livro organizado por Fernando Haddad (Desorganizando o Consenso, Editora Vozes), a intelligentzia de esquerda, em várias entrevistas, especulava sobre a questão. Um dos participantes, Paulo Eduardo Arantes, chegava a lamentar, com muito espírito, um certo ?déficit de negatividade? em nossa vida intelectual. E lembrava o grande João da Ega, personagem de Eça de Queiroz, para quem ?o desacato é a condição do progresso?.

Com exceção desta frase e de uma intervenção de Roberto Schwartz, o livro pouco trata de literatura. Gira quase por inteiro sobre a política brasileira e seus contrastes. Schwartz recusa-se elegantemente a falar mal de Fernando Henrique. Diz, no máximo, que votou no outro candidato em duas eleições presidenciais. Sobre o livro em seu conjunto, acrescentemos que, apesar de alguns bordões um tanto gastos, contém reflexões provocadoras e justas. Numa sociedade como a nossa é natural que fiquemos em oposição aos agentes da exclusão social e forças que a sustentam. Isso é uma coisa.

Outra, muito outra, é ser ?do contra? em tudo e por tudo.

A sociedade brasileira seria de uma chatice angustiante se todas as mulheres fossem Heloísas Helenas e todos os homens fossem deputados Babás. Imaginem esse horror nos bares, na rua, na chuva, na fazenda. Mas, caros leitores, reparando bem, a gente nota que está ficando assim. O que vemos por aí tudo é a prevalência quase compressora do não sobre o sim, restando cada vez menos espaço para a educada alternativa do talvez – em que freqüentemente se refugiam as pessoas de bom senso.

Nos idos de 1978, discutido este ponto em tertúlias acadêmicas, ninguém se lembrou do que acontecera dez anos antes no palco do Tuca. Ali, parodiando Maiakovski, o barco da doutrina se chocara violentamente com as pedras do cotidiano: Caetano Veloso, tentando cantar É Proibido Proibir e uma platéia militante vaiando sem parar. Quem era ?do contra? naquela cena? O cantor propondo uma estética inovadora ou a esquerda ululante, exigindo silêncio e obediência?

Na tevê – Tomemos a mídia de hoje como exemplo, a começar pela chamada mídia popular. É insuportável assistir programas vespertinos de televisão e seus ?corajosos? apresentadores clamando contra a inépcia dos governantes e quase os chamando para um desforço físico ou duelos à bala. Os governados são apontados como ?cidadãos contribuintes?, pobres vítimas que os bravos apresentadores defendem. Ninguém evidentemente fala de sonegação de impostos ou de injustiça social. E as explosões de cólera são intercaladas por anúncios que prometem a cura do câncer.

Durante a noite há outros eventos de hipocrisia explícita em vários canais.

Um irado senhor, com o pomposo título de âncora e salário de três dígitos, grita que deputado ganhar bem ?é uma vergonha!?. Uma senhora, contumaz apoiadora de Paulo Maluf, também investe ?corajosamente? contra o Congresso e se apresenta como guardiã da ética em política. A pessoas da sala de jantar, saudosas do militarismo, balançam a cabeça em sinal de aprovação. E suspiram pela volta do arbítrio, quando os generais cassavam, prendiam e arrebentavam os deputados. De modo que nem sempre o ?contra? simboliza, como queremos, uma rebeldia libertária. A vida segue corrigindo as nossas utopias.

Nos jornais – Na mídia impressa, onde há mais tempo e espaço para a interpretação, o fenômeno é menos gritante. Mas há também nela inúmeros adeptos incondicionais da cultura ?do contra?, e com todos os abusos da incondicionalidade. A propósito, um dos melhores profissionais da imprensa brasileira, Evandro Carlos de Andrade, costumava brandir na redação um exemplar diário de certo matutino que tem conhecido ?superávit de negatividade?. Evandro definia, magistralmente: ?O jornal que aposta no fracasso!?

A crítica política é para ser feita com propósitos cívicos, e jamais deve estar a serviço do egocentrismo de quem a exerce, como infelizmente ocorre no Brasil. E o tom do escrito assinado, quanto mais furioso, mais revela esta mesquinha intenção. Há poucos herdeiros da escola risonha e franca do Castelinho.

As Farpas –Risonha, sobretudo, como queriam, em 1870, os jovens Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz. Eles deixaram nas Farpas o exemplo máximo de uma imprensa ?do contra?, com o diferencial do humor e da ironia. Vinte anos depois, reunindo os textos em livro, um grisalho Eça escreveu no prefácio que se esforçara para disciplinar a prosa juvenil.

Referia-se ao estilo imperfeito e desordenado. Manteve, porém, o que era intocável: ?… procurei escrupulosamente que se não desmanchasse aquele feitio especial das Farpas que constituem sua força, e que nem uma nota se evaporasse daquele riso que outrora tão triunfalmente cantou, e pelo contágio da sua sinceridade acordou os risos da multidão…?. As Farpas ficaram na história como a publicação que antecipou, em mais de cem anos, o bom jornalismo de cultura e denúncia. A linguagem mudou, mas permanece a regra moral.

Chaplin – Falar mal agressivamente é um pobre exercício de vaidade. O detrator quer fama de valente, mas também quer fixar a própria imagem como dissonante e original. Estes seres ?do contra? povoam também os bares, usufruindo sem limites a liberdade boêmia de expressão. Diz a lenda que em um botequim do Rio, nos anos 60, estava na mesa o compositor Sérgio Bittencourt a esculhambar Charles Chaplin, a quem chamava de ?cômico vulgar e chinfrim?. Carlitos, vociferava Bittencourt, era uma fraude, imensa fraude. Dizem que em determinado momento Ivan Lessa não se conteve e perguntou: ?Mas Sérgio, por que falas tão mal do velho Chaplin?? Resposta veemente: ?Falo mal porque tenho coragem de dizer a verdade!? E Ivan, com muita calma: ?Acho muito estranho, Sérgio. Ainda ontem encontrei o Chaplin e ele falou tão bem de você…?"

 

"O Dia do Presidente", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 11/08/03

"Eu era pequeno, tinha apenas cinco anos. Como qualquer filho das chamadas ?classes populares? (filho de um porteiro com uma ex-empregada doméstica, morador da Rocinha durante 12 anos), minha família tinha o costume de assistir ao Programa Sílvio Santos na então TVS (hoje SBT). Não entendia muito bem, mas no meio da programação (escorada pelos inesquecíveis ?Domingo no Parque, ?Qual é a música?, ?Roletrando? e ?Show de Calouros?), existia o estranho noticiário ?A Semana do Presidente?. Nele, vinham todas as viagens, os encontros e as decisões tomadas pelo então todo poderoso Gen. João Baptista Figueiredo, militar de plantão no mais alto cargo do Poder Executivo.

Apenas mais tarde fui entender que, na verdade, se tratava de um afago do agora ex-doente terminal Senor Abravanel, agradecido pelo fato da concessão da falida TV Tupi ter sido desmembrada em duas – uma para Adolpho Bloch, da Revista Manchete, destinada ao Rio de Janeiro, e outra para o ex-camelô da Praça Mauá (?o peru que fala?, apelido da época), determinada para São Paulo.

O tempo passou, saiu Figueiredo, entrou Sarney, depois Collor, e juro que não percebi quando a rasgação de seda acabou. Agora, democracia a pleno vapor, governo petista no poder (o partido mal tinha sido fundado na época da ?Semana do Presidente?), vi que a cobertura de fatos que nem sempre merecem destaque ou significam realmente alguma coisa à população está de volta. Envio abaixo os links das ?notícias? publicadas no site da Agência Brasil neste sábado, dia 09 de agosto. ?Notícias? que tiveram a cobertura de jornalistas (que, cabe ressaltar, não devem ter a menor culpa pela ?pauta?) pagos com o meu, nosso dinheiro de contribuintes.

Reforma da Previdência atribulada, manifestações no Congresso com atos de vandalismo que nunca imaginei presenciar, greves no funcionalismo federal, a capa de O Globo anunciando que as restituições do Imposto de Renda vão atrasar para aumentar o repasse de recursos aos municípios, os conflitos agrários surgindo em todo o país… Enfim, tudo de cabeça para baixo e a cobertura do órgão oficial de Imprensa do Governo Federal voltada para o bate-bola das autoridades. Nada contra o lazer, muito pelo contrário, mas discuto muito o uso da máquina para tal coisa.

Deixo apenas uma pergunta no ar: há relevância real em saber que o presidente sentiu uma dor no joelho e ficou apenas dez minutos em campo na pelada da Granja do Torto?

Links:

http://www.radiobras.gov.br/materia.phtml?materia=142830&q=1&editoria=

http://www.radiobras.gov.br/materia.phtml?materia=142829&q=1&editoria=

http://www.radiobras.gov.br/materia.phtml?materia=142818&q=1&editoria=

(*) Jornalista."

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