Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > RODÍZIO

Amor/ódio ao governo, desprezo pelo cidadão

Por Mauro Malin em 20/06/1997 na edição 24

Um ano depois, a Folha de S.Paulo sai na frente da concorrência, pesquisa (sic) em punho, a fazer prognósticos sobre o rodízio de automóveis na Grande São Paulo, que este ano “deve ter adesão de 98%”. O verniz barato de alguma pretensa isenção escorre ao longo do texto como a pintura no rosto do velho ator decadente dos Boas-Vidas fellinianos.

Leitor do OBSERVATÓRIO: ajeite-se na cadeira, diante da tela cintilante de modernidade em que nos lê, respire fundo para mitigar a indignação e siga o raciocínio da Folha. Ipsis verbis (na capa do caderno Cidades de domingo, 15/6):

“A aprovação ao rodízio de veículos cresceu entre os paulistanos desde o ano passado, mas ela [sic] está longe de ser desinteressada. Atormentado pelos congestionamentos, o morador da capital apóia o rodízio ‘de resultados’, que provoque queda sensível no trânsito.

A esperteza [sic] do paulistano vai além: ele quer que o vizinho seja obrigado a deixar o carro em casa, para que possa sair tranqüilamente com seu segundo automóvel, com a rua vazia [sic] pela frente”.

A Folha, leitor, o Estadão, Veja-São Paulo e outros baluartes do pensamento cívico nacional têm horror ao rodízio, talvez por enxergar nele alguma manobra política do governo do Estado de São Paulo. Jamais se conformaram com a medida, tentaram bombardeá-la quanto possível, lutando como um personagem medieval de Vítor Hugo contra a realidade dos fatos. Tratamos deste assunto aqui repetidas vezes.

Agora, a Folha dá uma volta no parafuso e chega a uma explicação para o comportamento abominável dessa maioria esmagadora de cidadãos que teimam em respeitar o rodízio: malandragem. Se apóiam uma medida tão execrável, é porque são uns velhacos, espertinhos, que querem rodar em paz – e, é claro, por covarde medo da multa. A Folha, diante dos fatos colhidos em sua própria “pesquisa”, esperneia como criança contrariada: “Não é a poluição! Não é a poluição!”

E nós podemos bradar: “A Folha roubou! A Folha roubou!”, porque atribui a todos os entrevistados a intenção de apenas 25% deles, os que têm dois carros (e telefone, para ser entrevistados).

A Folha e todas as folhas não conseguem se libertar da retórica oficial, da qual são criaturas especulares. Todo o raciocínio gira obsessivamente em torno do governo, não em torno da vida.

Se os jornais paulistanos tivessem um mínimo de independência mental, estariam cobrando metodicamente dos governos (todos) medidas paralelas para melhorar a qualidade de vida na maior cidade do país: transporte de massas (hoje muito reduzido, no metrô e nos trens suburbanos), diferentes melhorias no sistema de ônibus e tróleis, redução da tarifa de táxi durante o rodízio, mudanças de horários de trabalho, política competente de ciclovias, cobrança de pedágio nas vias centrais. Providências que ajudariam a fazer do rodízio uma medida mais eficiente tanto para o trânsito como para a poluição, para a saúde pública, para se poder trabalhar, estudar, ir ao médico, passear, viver.

Mas não: passam o ano tomando sustos com pontes que balançam, buracos, contagens fetichistas de quilômetros de congestionamento, à espreita da próxima traquinagem dos governos, para lhe contrapor outra traquinagem, como essas pesquisas-estilingue. Têm tanto interesse na melhoria da qualidade de vida na Grande São Paulo quanto o governador Mario Covas, o prefeito Celso Pitta ou o presidente Fernando Henrique Cardoso.

A Folha apresentou a cara-metade de sua obsessão pelo governo: o desprezo pelos cidadãos. Casal perfeito, que vive feliz há muitos e muitos anos.

P.S. – A Folha de 17/6 levou adiante, como era de se prever, sua tentativa de desmoralizar o rodízio e a cidadania: “Motorista quer driblar rodízio com carro velho e com placa de final diferente”. Isto não tem importância, é ideologia pura.

Grave é a manchete de página (2 do caderno São Paulo): “Justiça dá 1a liminar contra rodízio de 97″. Aqui, trata-se de desinformação da pior qualidade: o texto da reportagem omite o pequeno detalhe de que, em 1996, foram derrubadas todas as 145 liminares concedidas em primeira instância a mandados de segurança contra o rodízio. Da “primeira” (na verdade, trata-se da nona tentativa; o sobretítulo mesmo diz que “8 pedidos já foram negados”) à centésima quadragésima quinta.

Trata-se, por sinal, de um caso de Folha X Folha. No dia 3/8/96, artigo de Eunice Nunes na mesmíssima Folha explicava muito claramente por que os mandados de segurança são rejeitados: “Não há direitos constitucionais ilimitados. Eles sofrem limitações impostas pelas circunstâncias. Quando o direito individual colide com o direito coletivo, este – que é mais amplo e engloba vários direitos individuais – sobrepõe-se àquele. ‘Não se trata de anular o direito individual, e sim de harmonizá-lo com o interesse da coletividade’, afirma Celso Bastos, professor de direito constitucional da PUC-SP. Arystóbulo de Oliveira Freitas, advogado especialista em relações de consumo, concorda. Ele lembra que a Constituição se preocupou em assegurar não só direitos individuais, mas também direitos difusos e coletivos. ‘Admitem-se as limitações aos direitos individuais em benefício do interesse difuso de toda a sociedade’, diz Freitas. (….) Acontece também, e há mais tempo e com mais freqüência, com o direito à propriedade. Quando um imóvel é tombado, desapropriado ou integra área de preservação ambiental, por exemplo, o direito à propriedade deixa de ser absoluto (….). ‘Nem o direito à vida é ilimitado. A pessoa que mata em legítima defesa ou por estado de necessidade não é punida’, lembra Bastos.”

Para repórteres e editores que esquecem o que foi lido – quando foi lido – uma semana atrás, agosto de 1996, quando se realizou a que era até agora a única experiência de rodízio no Brasil, é quase pré-história.

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Preparem-se: aí vem o rodízio de carros – “Circo da Notícia”- 20 de maio.

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