Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Ana Maria Bahiana

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

TURISTA ACIDENTAL

“Cartas da Turista Acidental (I)”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 22/7/03

Caríssimo Chris *,

Lembra daquela frase do filme Whitnail and I (GB, Bruce Robinson, 1987): ?Nós tiramos férias por engano?? Pois é. Eu tenho me sentido assim, ultimamente. Estou aqui no Brasil a trabalho, mas muitas vezes os desencontros habituais criam várias planícies de férias por engano.

Dizer que eu me sinto uma turista acidental é pouco. Nada mais peculiar do que estar de visita na terra onde se nasceu e onde se passou mais da metade da sua vida. Nada mais estranhamente agudo e desfocado do que o olhar que já é de fora, mas que permanece abarrotado da cumplicidade, da compaixão e da impaciência de quem compreende perfeitamente o que se passa por dentro.

É uma estranha abordagem de, por exemplo, uma banca de jornais. Você sabe que aqui agora tem muito dessas mega-bancas, meio livraria, meio café, um verdadeiro paraíso para ratos de papel como nós. É como a Border e a Barnes & Noble, mas com tempero. Uma tentação.

Ver jornal na internet é uma coisa, vê-lo de corpo presente é outra. Muito estranho, Chris, muito estranho. Atenho-me aqui à parte que nos toca, a tal da cultura. Chris, que descoberta estes jornais daqui! São verdadeiros templos de Luxor, de Karnac, o Parthenon! Como tem coluna, rapaz!

Eu sei, aí tambem tem, mas… Em todas as páginas? Eu não estou brincando, amigo, tem dias que tem coluna em todas as poucas páginas dos suplementos culturais.

São basicamente dois tipos de coluna. Uma, em tese, é opininativa. Isso já dá uma estatística e tanto, não? Com tanta coluna, creio que o Brasil é o país com mais opinião do mundo. Não haveria caixote suficiente, em Hyde Park, para acomodar tanta gente com tantos pontos de vista formadísssimos sobre praticamente tudo.

Como é possível ter jornais tão magrinhos, com tão pouca notícia (e tantos erros de edição e gramática) e tanta opinião?

Um fenômeno, sem dúvida.

Uma segunda leitura, contudo, revela que as tais colunas são menos de opinião e mais de reclamação. Está todo mundo aparentemente furioso por aqui. Furioso com tudo, com todos. Ou passando mal do fígado, ainda não sei bem.

Lembra essa coisa que você e seus colegas vivem falando, do Brasil como reserva mundial de alegria, de energia vital, de criatividade, de originalidade? Pois é, meu nego, isso aqui não cola não. A galera tá danada da vida com praticamente tudo o que se faz, o que se diz, o que se pensa e o que não se pensa no Brasil.

Autocrítica? Não, não é tanto isso – se fosse, eles podiam passar uma dose aí pros coleguinhas da Terra de W. Bush, hein? É mais uma raiva mal resolvida, um rancor, um mau-humor endêmico, uma troca virtual de socos e sopapos e farpas e indiretas e diretas.

Eu sei que você acha isso incabível no Brasil – fonte de energia, alegria, criatividade, etc. A vida é dura aqui. A vida é dura aí tambem – coisa em que, em perfeita simetria, as pessoas não acreditam muito, por aqui. Mas aqui, pelo menos ao ler toda esta verdadeira Acrópole de pugilatos verbais, criou-se um país culturalmente sem esperança.

Aí tem o outro tipo de coluna: de notinhas. Notinhas sobre o que, você me perguntará? Pessoas famosas. Não estou brincando, Chris: Hollywood é brinquedo perto disso aqui. Tem tanta, mas tanta gente famosa neste país que dá para ter coluna sobre eles todos os dias em quase todas as páginas de quase todos os jornais. E um monte de revistas inteiramente dedicadas a eles, também!

Vou contar mais na próxima carta. Não comente isto com aqueles seus amigos roteiristas, eles vão se sentir meio humilhados…

Até lá, beijos na Monica, na barriga da Monica, na Dona Neusa e nos gatos.

Com saudade,

Ana Maria

PS: O Chris destas ?Cartas? existe mesmo. Ele é Chris McGowan, amigo, jornalista, escritor, brazilianista, brazilianófilo e autor, com Ricardo Pessanha, de The Brazilian Sound, o mais completo volume sobre música brasileira já publicado nos EUA. Mais aqui.”

 

JORNAL DA IMPRENÇA

?Matérias deletérias?, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 24/7/03

“Mais recente e já tradicionalíssimo membro do nosso clube, o jornal Diário do Nordeste, do Ceará, escreveu, sob o título Cães – 5.400 capturados: ?As cinco viaturas da carrocinha, com capacidade para 30 animais, cada, pegam, de segunda a sexta pela manhã, uma média de 20 cães, que são levados para o canil do Centro de Zoonoses. Este ano, já foram capturados 5.400 animais. Lá, eles esperam três dias o resgate. Conforme Evanisa Ventura, a maioria dos cães capturados é vadio e apenas 10% é resgatado. Segundo ela, muitos cães ficam no canil e outros que são doentes são eutanaseados.?

Celso Neto, diretor de nossa sucursal cearense, estranhou o bizarro verbo eutanasear, que felizmente não existe, e Janistraquis é de opinião que dona Evanisa exagerou na invencionice da palavra. Assim, repórter, redator, editor e diretor de Redação embarcaram na furadíssima canoa. A coisa ficou um tanto à moda do paraibano Zé Limeira, o ?Poeta do Absurdo?, segundo o livro de Orlando Tejo. Conheçam o estilo do genial vate sertanejo, embora aqui, pelo menos, matérias rime com deletérias:

Peço licença ao truliso

Dos obus da periféria

Dos chuás das pontulínias

Dos chomotós das matérias,

Das grotas dos veluais,

Das mimosas deletérias.

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Exemplo de goianês

Nossa considerada Auri de Paula Rodrigues, conhecida de todos aqui no Comunique-se, enviou à coluna um exemplo de ?goianês?, o jeito de falar dos conterrâneos, que ela escutou de uma vizinha, acadêmica de Direito, de 22 anos, amiga de sua filha: ?Auricélia do céu, de repente ê’s (eles) turvaro na porrada e embostiô tudim!…?.

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Sou baiano, tchê!

Numa irada linguagem de gaúcho, o baiano José Wellington R. do Nascimento envia mensagem à coluna:

?Não sei se concordarás comigo, mas considero essa o supra-sumo da sem-vergonhice. Veja o que está escrito no expediente da revista One Aim, da TMC – Toyota Motor Corporation: ?Todo o cuidado é tomado para garantir que o conteúdo da One Aim seja correto, mas o editor, a gráfica e a TMC não aceitam responsabilidade por erros e omissões.?

Janistraquis responde: ?Estou contigo, meu rei, porém faço pequena observação – quem já foi repórter político sabe que essa da One Aim não é o supra-sumo da sem-vergonhice, se é que me entendes!?

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Suspeitos & assassinos

Nosso considerado Vito Diniz, que folheia os jornais do Rio na mansidão de quem vive na Serra, leu no Jornal do Brasil: Suspeitos da morte do juiz são inocentes. ?Ora bolas?, reclamou Vito; ?se os caras presos sob acusação de matarem o juiz foram considerados inocentes, não são mais suspeitos, né mesmo? Essa me lembra uma manchete que li num jornal de Petrópolis (não me lembro qual) há muitos anos: Assassino é absolvido por falta de provas.?

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Falta de ratos

O considerado Maurício Khalil, o mais esperto leitor de jornais de quantos existem em Osasco, leu no Diário da Região, de sua cidade, esta inesquecível manchete: Falta de higiene e ratos fazem Vigilância interditar três bares. ?Falta de higiene, tudo bem; mas falta de ratos??? Nem sei mais se continuo colocando no meu currículo que um dia trabalhei nesse jornal?, desabafa o jovem e já tão desiludido Khalil.

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Extra!, Extra!

Chegou à Redação de Comunique-se um misterioso e-mail que foi imediatamente encaminhado a esta coluna, por razões que o leitor entenderá. Anexada, veio uma página da editoria Geral do jornal Extra, na qual estava cravado o seguinte título: Atração em São Cristõvão – Feira no Pavilhão ficará porreta. Aparentemente, só estava faltando o ponto de exclamação, para ficar como nos velhos e bons tempos, porém o melhor da noitada nordestina jazia no ?olho? da matéria: Inauguração do novo espaço dos nordestinos terá show de Elba e Zé Ramalho, Gonzaguinha e Fagner.

Janistraquis, que é sobrevivente do sertão de Pernambuco, comentou, com alegria: ?Considerado, vamos pegar a estrada e nos mandar pro Rio; afinal, não se pode perder um show que levanta até defunto!?. É verdade; Gonzaguinha morreu há doze anos mas, num forró arretado, se Dominguinhos bobeia, perde o lugar pro autor de ?Explode, Coração!?.

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Bola fora

Nosso considerado Carlos Marchi via Grêmio X Paissandu no Sportv quando o goleiro Carlos Germano, frangueiro porém valente barbaridade, se contundiu e ficou a exibir macheza, ao permanecer em campo durante mais de dez minutos depois de sofrer uma contusão no ombro. Quando, finalmente substituído, saía pro vestiário, foi abalroado pelo microfone de um temerário repórter que lhe fez esta pergunta: ?Você não acha que foi muito temeroso ficar em campo contundido?? Carlos Marchi, veterano de outras bolas fora, preferiu ligar o som do rádio.

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Altas velocidades

O diretor de nossa sucursal paulistana, Daniel Sottomaior, leu no Wall Street Journal Americas, abaixo do título McDonald’s cultiva mística do sigiloso Ronald: ?(…) a cuidadosa coreografia de cada passo desse palhaço mostra a máquina da McDonald’s em marcha alta?.

Sottomaior aproveitou para mais uma aula: ?Ora, quem dirige sabe que marchas ‘altas’ correspondem a altas velocidades. Por associação é possível descobrir o sentido da expressão, mas ela simplesmente não existe em português como existe em inglês. Ela tem diversos correspondentes adequados em português, como ‘a mil (por hora)’, ‘a todo vapor’, etc.

Mais adiante, o texto informa que ‘às vezes você tem manifestantes’, uma evidente tradução de ‘sometimes you have’. Ter é uma opção informal para haver, sim, mas ‘você tem manifestantes’ soa muito mal em português. Ficaria perfeitamente natural se a tradução fosse ‘às vezes aparecem manifestantes’, e aí não ficaria parecendo inglês falado em Portugal.?

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Incomoda muita gente

Janistraquis organizava o arquivo dos despachos (no sentido jornalístico, é claro) do Roldão para nossa coluna, quando encontrou esta nota que se havia extraviado. Nosso diretor tinha lido em ?Coisas da Vida?, do Almanaque do Correio Braziliense:

?Elefantes – O mamífero não consegue levantar suas quatro patas do chão, ao mesmo tempo(…).?

Roldão escreveu ao jornal: ?Se conseguisse levantar as quatro patas do chão ao mesmo tempo, seria o Dumbo, o elefante voador dos desenhos de Walt Disney, ou iria competir com os cavalos da Hípica nos torneios de salto de obstáculos!?

É bem pensado, Roldão, é bem pensado.

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Nota dez

Apesar da extrema impiedade, ou talvez por isso mesmo, a mais saborosa notinha da semana saiu na coluna do Claudio Humberto:

?Maldade pura — Piadinha que circula no serpentário do Itamaraty: o funcionário espanhol que fechou a porta do Rolls-Royce, esquecendo a primeira-dama no banco de trás, estava apenas contornando o carro. Ia abrir o porta-mala.?

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Errei, sim!

?QUÉRCIA MAIS MALUF – Erramos do Jornal da Tarde, de São Paulo: O governador Orestes Quércia declarou ‘vamos eleger o Fleury’ e não ‘vamos eleger o Maluf’, conforme saiu publicado na página 3 da edição de ontem’. Fiquei horrorizado, porém Janistraquis levantou preciosa hipótese: ‘Considerado, vai ver a matéria foi escrita por um redator indeciso…’? (dezembro de 1990)”

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