Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >   VIOLÊNCIA & JORNALISMO

Ana Paula Sousa

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

CINEMA / TV GLOBO

“Cineastas Com Padrão Globo”, copyright Carta Capital, 28/10/03

“A mesma câmera que de manhã capta as cenas de uma novela pode ser usada à tarde para a filmagem de um longa-metragem. O mesmo diretor que tem a responsabilidade de fazer subir os pontos no Ibope pode ganhar uma folga de quatro meses para dirigir um título com a grife GloboFilmes. O mesmo programa que passa na tevê à noite pode ser visto na tela grande, como que num episódio incrementado.

A parceria entre cinema e tevê, acalentada durante anos no País, sedimentou-se numa base única: a GloboFilmes. Responsável por 92% dos ingressos vendidos pelo cinema nacional este ano, a empresa instaurou um novo patamar de mídia para a divulgação dos títulos e fisgou um público que há anos havia abandonado os filmes nacionais.

Apesar de atrelar seu nome a um filme como Carandiru, que nada tem a ver com tevê, a Globo, inegavelmente, tem transferido para a tela grande filmes com a cara de seus programas e, cada vez mais, emplaca diretores da própria casa à frente dos projetos. Os Normais, que chegou a 240 salas de todo o País na sexta-feira 24, é um exemplar típico desse cinema que se configura como uma extensão da telinha. Não por acaso, foi dirigido por José Alvarenga Jr., responsável pelos 71 episódios da série.

Diretores com passagens importantes pela Globo começaram a se impor no cinema com o surgimento da GloboFilmes, em 1997. Guel Arraes inaugurou a safra com O Auto da Compadecida (2000), e continuou a movimentar a caixa registradora da empresa com Caramuru – A Invenção do Brasil (2001) e Lisbela e o Prisioneiro (2003), que já fez 2,8 milhões de espectadores.

São também funcionários da emissora Luiz Fernando Carvalho (do autoral Lavoura Arcaica), Jorge Furtado (O Homem que Copiava), Jorge Fernando (Sexo, Amor e Traição, que estréia em 1? de janeiro) e Jayme Monjardim (Olga, que acabou de ser filmado). Moacyr Góes, diretor de Maria, Mãe do Filho de Deus e Dom, não está na lista dos contratados, mas também já dirigiu novelas da casa.

?O momento forte do cinema publicitário passou. Agora é a televisão?, diz Maria Dora Mourão, professora de Cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP. ?O perigo é que o público ache mais interessante ver a televisão em tela grande, com reproduções daquilo que ele já conhece, do que um filme verdadeiramente cinematográfico.?

Os Normais, que traz da tevê não só o diretor, mas também os roteiristas Alexandre Machado e Fernanda Young e os atores Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, alimenta ainda mais essa discussão, já que nasce de uma série. ?Esse filme inaugura um novo gênero, que é o de filmes baseados em seriados?, crava Bruno Wainer, diretor da Lumière, co-produtora e distribuidora do filme.

?O fato de ter o mesmo diretor da tevê é superpositivo?, completa Wainer. ?Como o cinema está no alto do pódio, é natural que diretores consagrados de publicidade e tevê queiram se consagrar no cinema. O que está atraindo esse pessoal é o cinema possível.? Esse cinema possível é viabilizado pelas leis de incentivo e alardeado pelo poder de mídia da Globo.

Aplaudidos por reaproximar o público dos títulos brasileiros, tais filmes são criticados por criar uma espécie de monopólio da Globo também sobre o cinema. Alvarenga, antes mesmo de ler qualquer texto a respeito de Os Normais, antecipa-se ao que virá e reage: ?A crítica carrega uma certa autoridade diante do gosto das pessoas. Qual o conceito para avaliar a diversão e o gosto do público? Esse filme não é tevê, é cinema?.

?Muita gente está amarrada ao cinema Brancaleone, que junta a herança da avó com uma ou outra captação e faz um filme?, define o diretor, referindo-se a filmes mais autorais e, talvez, reflexivos. ?Isso não funciona para quem está interessado em viver de audiovisual. Eu gosto de filmar, sempre. Até porque, se parar de filmar, o diretor perde a prática e o próximo filme sai frouxo.?

Sobre os novos códigos da atividade, Alvarenga é implacável. ?Se o cineasta quiser entrar nesse novo mercado, ele tem de fazer concessões, criar caminhos de comunicação com o público e negociar com produtores, seja para escolher um ator, seja para cortar uma cena.?

Apesar de trabalhar na Globo há três anos, em Os Normais, Alvarenga tem um passado cinematográfico (dirigiu O Casamento dos Trapalhões e A Princesa Xuxa e os Trapalhões) e publicitário. Talvez por isso goste de definir a sua geração como uma geração que vive do audiovisual – tenha ele que forma tiver.

Jayme Monjardim, outra grife da emissora, também defende que o audiovisual é uma coisa só. Numa entrevista ao portal O Globo disse que os diretores de tevê tendem a levar ao cinema mais emoção, ingrediente que falta hoje às produções cinematográficas nacionais. Na sua opinião, Manoel Carlos (Mulheres Apaixonadas), Carlos Lombardi (Kubanacan) e Glória Perez (O Clone) dariam ótimos roteiristas. ?Eu acredito que a emoção é a salvação da criação?, afirmou.

Para Jorge Fernando, que estréia no longa-metragem com 24 novelas na bagagem, a expressão ?cinema televisivo? é prepotente e reducionista. ?Na própria tevê, o trabalho de cada um de nós é diferente. A única coisa que temos em comum é que a GloboFilmes nos proporcionou a entrada no cinema?, observa. ?Não iria fazer um filme se tivesse de ficar de porta em porta pedindo dinheiro.?

No caso de Sexo, Amor e Traição, que terá distribuição da Fox, ele foi convidado para trabalhar como diretor e, assim, não teve de se preocupar com produção ou verba. ?Outra coisa importante é que a Globo me liberou durante quatro meses para eu poder dirigir o filme. E ela faz isso porque o filme é dela também.?

O diretor considera a televisão como a ?grande faculdade? de todo realizador, já que o obriga a exercitar todas as aptidões. ?Num capítulo só você é obrigado a exercitar os estilos diferentes e a compreender um público que a cada momento muda e que só assiste ao que gosta.?

Apesar de a tevê apresentar-se como a ?grande faculdade? de um punhado de cineastas, o número de cursos de Cinema não pára de crescer no País. ?Nunca houve tantas faculdades ou cursos de extensão?, atesta a professora Dora Mourão. Ela atribui esse boom à atual visibilidade do cinema nacional e observa que as próprias escolas passam a se preocupar com o cruzamento de linguagens. A ECA, por exemplo, mudou o nome de seu curso de Cinema para curso de Audiovisual.

Fernão Ramos, professor da Unicamp, critica a uniformização metodológica de cinema e tevê. ?São coisas diferentes. Falar de uma história do audiovisual não é nada. Sou favorável a cursos que se debrucem sobre cinema, que é uma forma narrativa, um conteúdo. O cinema tem muito a perder se trabalharmos com essa maçaroca que é o audiovisual.?

Para os jovens cineastas, o que mais preocupa não é nome dos cursos, mas sim os bloqueios que o mercado impõe a quem chega da universidade. ?Sempre houve um certo preconceito do mercado em relação a quem tem formação acadêmica, pela própria postura reflexiva?, diz a professora Dora.

Com o domínio da tevê, esse descompasso tende a ficar ainda maior. O cinema nacional, sempre defendido como uma necessária alternativa à hegemonia da tevê e de Hollywood, continua dependendo de incentivos estatais, mas parece sentir-se cada vez mais bem acomodado nos braços daqueles antes apontados como inimigos.”

 

TELENOVELAS

“As malvadas”, copyright Época, 28/10/03

“Que elas são tão importantes quanto as mocinhas, disso ninguém duvida. E não raro as vilãs surrupiam a cena nas telenovelas brasileiras. Coincidentemente, nas tramas atuais da TV Globo, é a hora e a vez das malvadas. Em Celebridade, que acaba de ocupar o horário das 8, Claudia Abreu já acumula elogios de crítica e público na pele de Laura – o tipo de ?vilã sonsinha? que Gilberto Braga é mestre em criar. Basta lembrar da Maria de Fátima (Glória Pires) de Vale Tudo, que conseguiu enganar muita gente até mostrar sua verdadeira face. As duas, aliás, já estão sendo comparadas. ?Vilões são elementos essenciais em folhetins?, diz Braga. Em Chocolate com Pimenta, das 6, a Jezebel de Elizabeth Savalla, um tipo de má cômica que cai nas graças do público, tem sido a maior atração da trama de Walcyr Carrasco. ?É um tipo de vilã diferente, porque nunca se dá bem, embora atrapalhe muito a vida dos mocinhos?, diz Savalla.

Laura é a primeira vilã de Claudia Abreu. ?Não vivi só heroínas certinhas, mas, malvada mesmo, só essa?, diz a atriz, que, em Celebridade, quando não está fingindo ser amiga da protagonista Maria Clara (Malu Mader) – de quem quer se vingar por um motivo ainda misterioso -, apresenta um comportamento raivoso e sadomasoquista com o amante. A personagem promete. A idéia da falsa fã que quer destruir a mocinha famosa lembra um clássico do cinema: A Malvada (All about Eve, de 1950), em que a personagem de Anne Baxter conspira o tempo todo contra seu ídolo, uma atriz vivida por Bette Davis. O filme ganhou o Oscar e a atuação de Baxter virou referência de vilã.

Ao contrário de Claudia, Elizabeth Savalla já havia sido vilã. Depois das heroínas sofridas que viveu nos anos 70 – como a taxista Lili, de O Astro (1978), e a bailarina Carina de Pai Herói (1979), ambas em par lírico com Tony Ramos -, pediu para ser vilã em Pão Pão Beijo Beijo (1983). ?Uma vez, seguranças de um shopping tiveram de me proteger?, lembra. ?Foi a glória!?, brinca a atriz, lembrando que a emissora, a princípio, não acreditava que ela convencesse no papel de má. No ano passado, foi a beata Imaculada de A Padroeira, que também aprontou quanto pôde – e, claro, caiu no gosto popular.

O bom artista veste qualquer personagem, mesmo que seja estigmatizado em determinado papel, o que a televisão costuma fazer com quase todo mundo. Símbolo da mocinha de novela, alçada ao posto de ?namoradinha do Brasil?, Regina Duarte hoje brilha como a senhora maligna de Kubanacan, novela das 7. No mês passado, entrou na trama em clima de participação especial como Maria Félix, a mãe de Esteban (Marcos Pasquim). Com uma peruca de cabelos curtos e cacheados escondendo os cabelos lisos – marca da ?namoradinha? -, Regina encarnou a mulher que comanda o submundo de Kubanacan. O sucesso a fará voltar em novembro – e , ao que tudo indica, deverá ficar até o fim da novela. A galeria de vilões inolvidáveis de novela não é pequena. Rubem de Falco, o Leôncio de Escrava Isaura, cansou de apanhar na rua – talvez mais que a própria Isaura no tronco. Odete Roitman(Beatriz Segall), de Vale Tudo, tirou muita gente do sério em frente à telinha. Quem viu Selva de Pedra (1972) não esquece das crueldades de Fernanda (Dina Sfat). Na trama, que se tornou naquele momento recordista de audiência da Globo, os capítulos em que a bandida prende a mocinha (mais uma vez, Regina Duarte) por dias numa cabana e quase a leva à morte foram os que tiveram mais televisores ligados.

Muitos novelistas atuais têm evitado o maniqueísmo do bem contra o mal e optado por personagens ?humanos?, capazes de atos generosos em certo momento e traições no dia seguinte. É fato, porém, que são heróis infalíveis e vilões inescrupulosos que ficam na memória do telespectador. ?O vilão dá vida à trama e faz com que as coisas aconteçam. Os vilões interferem nos destinos como nenhum protagonista é capaz de fazer?, diz a professora de comunicação social e pesquisadora Roberta de Andrade, em seu trabalho Os Sentidos da Telenovela. Na posição de quem ?poderia ter evitado o racionamento de água em São Paulo, de tantas lágrimas que já derramou em cena?, a ex-mocinha Elizabeth Savalla dá o tom do que é fazer uma vilã na TV: ?A mocinha sofre, a vilã se diverte?, garante. E o público aplaude.”

 

VIOLÊNCIA & JORNALISMO

“Rivalidade entre donos de jornal acaba em tentativa de homicídio”, copyright O Estado de S. Paulo, 23/10/03

“A batalha travada em manchetes entre dois donos de jornal de São Vicente acabou em tentativa de homicídio, quando Ricardo Gonçalves Rocha, de 71 anos, o Rochinha, feriu com seu canivete Domingos Raimundo da Paz, de 49 anos, o Mingão. Rocha, que perdeu o mandato de vereador por corrupção na década de 60, é dono do Jornal Vicentino. O ferido edita o jornal Clarim.

No dia do crime, durante a inauguração da sede do PMDB em Santos, no fim da tarde de terça-feira, Rochinha mandou distribuir no local a edição do Jornal Vicentino com a manchete ?Mingão, dono do Clarim, é preso, vai para a cadeia e vê o sol nascer quadrado?, já que ele seria depositário infiel.

Durante a assinatura do livro de presença, Rochinha foi fotografado por Mingão, não gostou e acertou o abdome do rival com o canivete que diz usar para descascar laranja. Mingão reagiu e acertou o nariz de Rochinha, que foi levado para 2.? DP de Santos. No fim da noite, foi conduzido &agraagrave; Cadeia Pública de Santos, mas teve uma crise de hipertensão e foi internado.

Ricardo Rocha alega que foi agredido quando assinava o livro e usou o canivete para se defender.

O desentendimento entre os dois é antigo. Mingão trata Rochinha por um apelido ofensivo nas páginas do Clarim e explorou bastante o fato de o PMDB ter intervindo no diretório de São Vicente, que era presidido Ricardo Rocha.

Como revide, o Jornal Vicentino destacou a notícia da prisão de Mingão. Com a briga de anteontem, será a vez de o Clarim anunciar a prisão de Rochinha, que responderá por tentativa de homicídio ou agressão.”

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