Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > GENOMA HUMANO

Analfabetismo científico na mídia

Por lgarcia em 28/02/2001 na edição 110

OFJOR CI?NCIA

OfJor Ciência 2001 ? Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

GENOMA HUMANO

Ulisses Capozoli

Ao contrário do que freqüentemente ocorre em economia e política, a pesquisa científica raramente rende uma manchete de jornal. Quando isso acontece, é um sinal evidente de que as coisas do mundo já não são as mesmas de antes. Foi o que ocorreu na terça-feira [13/2/01], quando a imprensa tratou, obrigatoriamente, do genoma humano com informações apresentadas pelo consórcio internacional de pesquisas, liderado pelos Estados Unidos e pela empresa privada Celera Genomics, do cientista-empresário norte-americano Greg Venters.

Ao menos os jornais reproduziram, em comum, a principal informação dos geneticistas: publicaram que os genes humanos (unidade responsável pelas características hereditárias de um organismo) são em número bem menor (entre 30 e 50 mil) do que o anteriormente previsto (100 a 150 mil).

A partir daí, os enfoques de alguns dos principais jornais foi bem diferente. A Folha de S.Paulo, sem dúvida, fez o melhor cobertura. Já na véspera, dedicou três páginas ao assunto, anunciando a publicação dos trabalhos (o material do consórcio internacional saiu na revista inglesa Nature e o da Celera, na norte-americana Science). O Estado de S.Paulo chegou atrasado e, para tentar compensar a vantagem de véspera da Folha, abriu (no dia 14) duas páginas com chamada no alto da primeira página, acima do espaço que tradicionalmente reserva para suas manchetes otimistas de economia ou política.

O Correio Braziliense também deu duas páginas, enquanto o Jornal do Brasil economizou espaço com apenas uma. O JB, que recentemente voltou à Idade Média, ao interpretar acidentes no Rio (incêndio no auditório da Globo, problemas no estádio do Vasco e ferimentos por fogos de artifício no final do ano) como resultado de conjunções astrais desfavoráveis à cidade, fez uma cobertura pífia. A começar pela manchete de página: "Racismo não tem base genética". Por que deveria ter? Se racistas recorrem a raciocínio deste tipo, um jornal como o JB não deveria seguir o mesmo caminho ? ainda que, pretensamente, para fazer uma refutação.

Numa linha politicamente correta, o JB cita um pesquisador, identificado como sendo do Instituto Max Planck, na Alemanha, para dizer que "no fundo somos todos africanos, já residimos na África". Pode ser a opinião do citado Svante Pääbo, mas não da comunidade internacional de antropólogos. Há dúvidas ainda não esclarecidas se o homem surgiu na África e de lá espalhou-se para o resto do planeta, ou se apareceu em mais de uma região e o que aconteceu em seguida pode ter sido uma interação entre diferentes populações.

O Jornal do Brasil ainda invocou Gobineau (Joseph-Arthur 1816-1882, conde Gobineau) diplomata e etnólogo francês cujas teorias exóticas sustentaram teorias racistas no Ocidente. O jornalão fez graça com "o Y da evolução", fugindo, na realidade, do "X da questão".

O Correio Braziliense ficou entre uma projeção vaga ? "cura de muitos males daqui a três ou quatro décadas" ? e um ufanismo bobo ? "show da pesquisa verde-amarela" ?, neste caso referindo-se às contribuições do Brasil. O Brasil contribuiu com informações, mas não foi citado como fonte no trabalho do consórcio internacional. Houve quem se indignasse com essa omissão. Mas quem conhece as regras do mundo acadêmico sabe que não há nada de novo aí.

Cozidão mal-temperado

A big science, investigação científica conduzida por equipes, demandando altas quantias em dinheiro e sofisticado equipamento, não fica nada a dever ao submundo do futebol brasileiro. Aí há uma sangrenta guerra pelo poder. Um exemplo recente envolveu Robert Gallo, nos Estados Unidos, e Luc Montaigner, na França, sobre a identificação do vírus da Aids. Na prática, Gallo roubou a descoberta do seu colega francês. Mas esse é apenas um, entre milhares de outros casos da história.

Talvez a primeira experiência de big science tenha sido feita pelo astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), em seu observatório de Uraniburgo. Tycho só passou os dados a Kepler bem próximo de sua morte. Com isso, Kepler desmontou a teoria das órbitas circulares estabelecidas por Aristóteles e abriu espaço para Galileu e Newton. Tycho Brahe foi um pequeno tirano para com seus empregados e colegas, até que a morte de seu protetor fez com que ele procurasse abrigo em Praga, onde Kepler o encontrou.

A falta de suplementos de ciência nos jornais brasileiros (se há cadernos especiais de informática, televisão, agricultura etc., por que não existem cadernos de ciência?) faz com que repórteres e editores, na maioria dos casos, ainda se ressintam de uma formação adequada na área. São, em muitos casos, e lamentavelmente, analfabetos científicos. E transferem para os leitores suas próprias confusões e equívocos.

Prova dessa situação é o material publicado pelo Estado de S.Paulo no domingo [18/2/01]. Para tentar recuperar a vantagem aberta pela Folha durante a semana, o Estadão saiu com um "cozidão" de duas páginas no fim-de-semana. Na A18, sob o título de "O fim do começo", lê-se uma série de mal-entendidos que mais confundem que esclarecem o leitor. Antes da terça-feira, fazendo eco a uma interpretação reducionista da ciência (uma das variantes do analfabetismo científico dentro das universidades, para quem possa pensar que esse problema só se manifesta entre leigos), a maior parte da imprensa apresentava a visão de que a genética é responsável por quase tudo que somos e fazemos. Pouca gente lê autores como Ruppert Sheldrake, filósofo e bioquímico inglês, que, com apoio em Aristóteles, há muito demonstrou que os genes não podem ser o que se dizia que eram.

Pois bem. De terça-feira, 13, para cá, com base especialmente no reduzido número de genes encontrados pelos pesquisadores, repórteres e editores apressadamente começaram a escrever o contrário. Certamente que é prematuro qualquer afirmação taxativa sobre o conhecimento genético no tratamento de doenças hereditárias, como insistiu o Estadão no domingo, dia 18. No começo deste século, Willliam Thomson, Lord Kelvin, um brilhante físico e inventor inglês, disse que na física não havia mais nada para ser conhecido. Lord Kelvin, insuspeito por sua brilhante reputação, disse isso um pouco antes do aparecimento da relatividade e da mecânica quântica.

E Lord Kelvin não foi o único a cometer esse mesmo erro ao longo do tempo. O velho e sábio Aristóteles também caiu nessa armadilha ao anunciar o que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset chamou, em A rebelião das massas, de "plenitude dos tempos". O erro aqui, segundo Ortega y Gasset, é considerarmos que, em nosso tempo, atingimos uma plenitude que os povos que nos antecederam nem puderam sonhar.

O problema é que o mundo, como já estabeleceu Heráclito (nenhum homem se banha no mesmo rio ou sobe a mesma montanha duas vezes), nunca é o mesmo. Isso significa que o mundo dos gregos era diferente do nosso. Podemos nos referir a ele e supor como os gregos pensavam. Mas não podemos, rigorosamente, recuperar o sentimento de mundo dos gregos. Para isso deveríamos ser um deles e viver naquele tempo. A razão disso é que o que sabemos do passado resulta de uma interpretação feita à luz do presente. Assim, "contaminamos" o passado.

No referido "cozidão" de domingo do Estado de S.Paulo é preciso excluir o artigo despretensioso escrito pelo geneticista mineiro Sérgio Danilo Pena. Cuidadoso, Pena aponta cenários promissores trazidos pelos novos conhecimentos na genética. Mas sem ser definitivo.

Como podiam??

A visão definitiva é algo que não combina com ciência. Ao menos com ciência moderna. Na Escolástica, a tentativa de unir fé e razão poderia ser plausível ? e realmente o foi durante muito tempo. O problema, aqui, como o Jornal do Brasil anunciou já na semana anterior, são resquícios da Idade Média na forma de se pensar o mundo.

O material do Estadão se trai pela titulação. Na mesma A18, uma das matérias traz o título "Por que tudo é tão complicado?". Uma resposta possível poderia ser: talvez porque os autores dos textos não tenham muita idéia do que estão falando.

O que é simples em ciência? Uma pedra, ou um tampinha metálica de refrigerante, é algo simples? Claro que não. Atrás de si, a pedra e a tampinha metálica estão relacionadas à forma como a matéria se condensou logo após a explosão primordial, se é que a teoria do Big Bang realmente traduz tudo o que aconteceu, em termos de nascimento e evolução do Universo. O problema é que os redatores de nossas publicações, aparentemente, nem de longe suspeitam disso. Nesse sentido, denunciam uma outra influência deletéria no pensamento intelectual brasileiro: o positivismo reducionista de Auguste Comte. O assunto é quilométrico e não há como abordá-lo aqui.

Mesmo a revista Veja, semanário que teoricamente teria alguma vantagem de tempo sobre as publicações diárias, não escapou do besteirol. Na página 58, uma das quatro que dedicou ao assunto, escreve: "mas os genes não informam que a cabeça tem que ficar em cima dos ombros, ou que os braços devem sair um de cada lado do tronco…"

Os problemas não só do feto, mas de processos aparentemente muito mais simples, como o da cicatrização, podem ser conhecidos em Shaldrake. Mas daí até a simplificação de Veja há uma distância astronômica. Ou talvez esteja havendo, realmente, um esquartejamento intelectual pouco visível aos espíritos mais complacentes e isso esteja refletido, em boa parte, no que se escreveu sobre genética na semana de 11 a 17 de fevereiro.

Em resumo, a propósito dos acontecimentos de terça-feira, 13, pode-se pensar o seguinte: a determinação genética não é taxativa, como muitos imaginavam até agora. Mas muitos não significam todos. Uma boa parte de cientistas e filósofos da ciência sempre discordou dessa visão reducionista. Exemplo disso: o que uma árvore viva tem que uma árvore morta não tem? Segundo o velho Aristóteles, tem energia vital. O vitalismo foi abandonado pela ciência moderna (pós-Bacon) como sinônimo de ignorância. A propósito, os cartesianos acusaram Newton de "bruxaria" por sua lei da gravitação universal. Disseram que Newton não sabia o que era a gravitação. E não sabemos disso até hoje.

Newton, com sua superioridade imbatível, disse que realmente não sabia o que era gravitação e não estava preocupado com isso. Mas a lei que a traduzia, alfinetou, estava contida no seu Principia.

Talvez em duas décadas seja interessante ler o que, naquela semana de fevereiro de 2001, a imprensa brasileira publicou sobre o genoma humano. É possível que até a futura garotada da rede básica de ensino possa perguntar a seus professores (eventualmente descendentes de HAL, o computador de 2001, Uma Odisséia no Espaço, para quem não lê ficção científica e não viu a obra-prima de Kubrick): como é que, no começo do século 21, os jornalistas podiam escrever assim?

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, historiador científico e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)


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