Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > LEI 222

Ancelmo Gois

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

CUT, MST & IMPRENSA

"MST desbanca a CUT", copyright no. (www.no.com.br), 14/02/01

"Foi-se o tempo em que a imprensa elegia a Central Única dos Trabalhadores (CUT) como uma espécie de inimigo público número um. O movimento operário parece que definhou: líderes como Vicentinho e Jair Meneguelli perderam a eleição municipal no ABC ano passado. Agora, o alvo da mídia é o Movimento dos Sem Terra (MST), como mostra pesquisa do cientista político Bruno Konder Comparato, 31 anos, que mergulhou na leitura dos editoriais dos quatro maiores jornais brasileiros (JB, Estadão, O Globo e Folha). Em 1995, a CUT foi objeto de 98 editoriais e o MST de apenas 47. Já no ano passado, foram apenas 17 sobre a CUT e 77 sobre os sem-terra. Bruno diz que os jornais pesquisados até têm opiniões diferentes sobre o governo: ?Mas são unânimes em condenar o MST?. Veja aqui a tabela por jornais e a entrevista com o autor da pesquisa."

"?A CUT deixou de asssustar?", copyright no. (www.no.com.br), 14/02/01

"Depois de um ano de trabalho braçal, remexendo pilhas e pilhas de jornais, o cientista político Bruno Konder Comparato conseguiu desenhar um novo mapa das relações entre governo e movimentos de oposição. Com a ajuda da calculadora, Konder enumerou a quantidade de vezes que a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra foram citados – e, na maioria das vezes, criticados – pelos principais diários brasileiros. Da matemática, o cientista trouxe uma nova tese: o MST tomou da CUT, definitivamente, o posto de ?maior adversário? dos governos. Exposta na dissertação de mestrado ?A ação política do MST?, defendida semana passada na USP, a tese de Konder aponta uma lógica para a superação da CUT pelo MST como movimento de oposição: ? O MST tem uma força grande porque é um movimento radical, e, principalmente, porque suas necessidades são radicais. Ao contrário dos sindicatos, o MST não tem nada a perder?, analisa ele.

Como surgiu a idéia de confrontar as aparições do MST e da CUT na mídia brasileira?

Bruno Konder – Queria fazer uma dissertação sobre um tema atual e comecei a perceber, pelos jornais, que o MST aparecia todos os dias. E constatei que todas as revistas e jornais faziam matérias contra o MST. Senti um certo mal estar dos jornalistas em relação ao assunto e comecei a me perguntar se não era uma posição do jornal. O mais importante é que quando li os editoriais a respeito do MST não percebi diferença alguma entre os jornais, sejam eles mais ou menos governistas. Fui pesquisando os editoriais e percebi que a posição dos jornais é a mesma: todos pedem que o governo tenha uma postura mais rígida ou que a ocupação de terra é um atentado à democracia. A utilização da CUT e da Contag foi mesmo um termo de comparação.

A que conclusão o senhor chegou?

BK – O MST ocupou o lugar da CUT como adversário. Antes, líamos nos editoriais: ?isso é coisa do PT e da CUT?. Agora, lemos: ?Isso é coisa do MST?. O MST tornou-se um ator político novo no país. Há uma frase interessante do Jorge Bornhausen, que é um bom exemplo. Ele disse: ?O objetivo é deixar claro que se o MST faz tudo isso em um governo democrático, o que faria num governo do PT??.

Quando o MST se consolidou como um ator político?

BK – Em 1996, com o massacre de Eldorado de Carajás, que repercutiu no mundo inteiro. Naquela semana, a CNBB lançou um comunicado condenando o governo. O Papa mandou um recado semelhante ao governo. E o governo criou o Ministério da Reforma Agrária. O auge se deu em 1997, com a Marcha a Brasília.

Onde está a força do MST?

BK – A força política de uma organização não depende só do tamanho. O MST tem 250 mil famílias (um milhão de pessoas). A Contag tem 15 milhões de filiados e a CUT tem 21 milhões. O MST incomoda porque questiona a propriedade privada e acua o governo. O MST desafia o governo e não pode mais ser ignorado. Quando o MST forma um acampamento, dificulta a ação do governo porque elas só saem de lá para irem para outro lugar. Um grupo é fácil de separar, mas o governo tem que dar um crédito para o assentamento. O MST tem uma força grande porque é um movimento radical, e, principalmente, porque suas necessidades são radicais. Eles não têm para onde ir. Em 1999, por exemplo, um grupo acampou em frente à sede do governo de São Paulo enquanto o governador viajava para o exterior. A população, no início, não gostava muito daquilo, mas se sensibilizou quando uma mulher perdeu a filha e disse que não sairia dali, independentemente da doença da criança, porque não tinha para onde ir. Ao contrário dos sindicatos, o MST não tem nada a perder.

O senhor acredita que o MST tem ambições de se tornar um partido político?

BK – Não há interesse do MST em possuir uma conotação partidária, pois só teriam o apoio da população rural, enquanto que deveriam contar com o apoio de toda a população. O princípio do partido é, além de reunir as reivindicações de um grupo e levar ao governo, ganhar eleição. Num país onde os partidos são relativamente fracos, outros agentes políticos adquirem uma importância maior. Além disso, no Brasil, que é um país com dimensões continentais, quando este agente é nacional, ele ganha uma importância ainda maior. Os partidos, por sua vez, são regionalizados. O PFL do Nordeste, por exemplo, é diferente do PFL do Sul. O MST não é um partido e também não é um sindicato.

O senhor acredita que a redução de citações à CUT nos editoriais de jornais tem relação direta com o crescimento do MST na mídia brasileira? Ou seja, o crescimento de um agente político está atrelado, necessariamente, à derrocada de outro?

BK – Elas estão atreladas no sentido de que a política é igual à Física: não há um vazio.

A CUT deixou, então, um vácuo no meio do caminho?

BK – Não sei se foi algo consciente, mas a CUT deixou de assustar a classe governante porque perdeu muito de seu poder.

Por quê?

BK – Porque quando o desemprego está alto é mais difícil mobilizar os trabalhadores para fazerem uma greve. E as mobilizações da CUT e de qualquer sindicato são ou para aumentar salários ou para melhorar as condições de trabalho. Hoje, a questão é ter trabalho: se manter ou conseguir um emprego. A CUT é um movimento que se esvaziou por si só. Em 1995, houve a greve dos petroleiros e o governo, para manter a estabilização da economia, não podia tolerar sindicatos fortes. O governo, em 95, quebrou a espinha dorsal dos sindicatos. Ao mesmo tempo, os sindicatos não podiam reagir.

Na opinião do senhor, o movimento hoje passa por uma fase de estagnação?

BK – Atualmente, o governo tenta asfixiar economicamente o MST, com denúncia de desvios de verba. O MST enfrenta dificuldades econômicas. O governo, a princípio, achava que fazendo assentamentos acabaria com a força do MST, porque não teria mais gente para pleitear assentamentos. Por outro lado, o MST perderia o apelo da população. Só que sempre surgem mais candidatos à reforma agrária. Até mesmo pessoas do governo dizem que a reforma agrária é um saco sem fundo. A tática deles agora é asfixiar economicamente.

O senhor também analisou a relação do MST e o Congresso. De que forma o MST aparece ou interfere no parlamento?

BK – O MST está no discurso do presidente, é discutido em reuniões com ministros. Na teoria da representação, os deputados fazem a ligação entre povo e governo. O MST é recebido pelo governo, o que é uma característica dos movimentos sociais. Ele faz o que um partido faria. Ele organiza as reivindicações de uma série de pessoas. Os deputados são úteis, mas não são indispensáveis.

O senhor também analisou as possibilidades de futuro para o movimento. Até onde, então, sobrevivem o movimento e a pressão do governo?

BK – Acho que existem três possíveis evoluções para o governo: ou continua fazendo assentamentos; ou pára de dar créditos e o movimento será obrigado a se reestruturar internamente; ou então reprimir duramente e acabar com o movimento. Mas mesmo que o MST acabe, eles estão organizados para a perpetuação. Se o MST acabar hoje, ele ficará na memória das pessoas. Ficará a noção de que a atuação política é um meio de mudar pela ação. Eles têm a noção disso. O mais importante é a evolução política na cabeça destas pessoas. A seguinte frase de um militante resume isso: ?A maior revolução é dentro da nossa cabeça?.

LEI 222

"Subterrâneos", copyright Coleguinhas, uni-vos (http://www.coleguinhas.jor.br), 14/02/01

"Como você sabe, sou paranóico. Ate aí nada demais, eu acho – Andy Grove, ex-CEO da Intel dizia que só nós conseguimos sobreviver e, acrescentaria eu, ser jornalistas. Terça-feira passada, o ex-procurador e ex-deputado petista Antônio Carlos Biscaia entrou com uma representação no Ministério Público para que este peça a suspensão do registro da empresa na Junta Comercial da empresa Cadadia do Brasil, que edita (editaria, editará) o Metro, aquele jornal que será (seria?) distribuído gratuitamente no Metrô do Rio. Biscaia argumenta que o jornal seria custeado por capitais suecos e ingleses, o que contraria a Constituição.

A minha paranóia entrou em festa quando li a notícia, na quarta-feira no Blue Bus, basicamente devido a três perguntas cujas respostas devem estar enterradas em algum lugar:

1. A quem Biscaia representa? – Bem, teoricamente, ele poderia representar a si mesmo, já que todo cidadão pode provocar o MP para que este cumpra o papel de fiscal de lei que a Constituição lhe faculta. O problema com essa hipótese é que ela suscita logo uma outra pergunta: por que o ex-procurador geral da Justiça do Rio iria sair de seus cuidados para entrar numa briga dessas? Por simples fervor cívico de ver a lei observada em toda a sua extensão? Hmmm… Você ficaria muito zangado se eu não acreditasse nisso?

2. Por que a representação foi apresentada só agora? – A MTG (o grupo sueco por trás da Cadadia do Brasil) chegou ao país mais ou menos lá por agosto do ano passado fazendo barulho – teve até matéria de página inteira no Meio&Mensagem em que anunciava as negociações com a Opportrans, a empresa que administra o Metrô carioca, e o jornal O Dia, que rodaria o diário. De lá para cá, o Metro esteve pra ser lançado pelo menos três vezes, e muita gente sabia disso. Então, por que só agora – quando o número zero do jornal começou a rodar por aí – é que o nobre Antônio Carlos Biscaia resolveu entrar com a representação?

3. O silêncio é de ouro? Agora, o outro lado. Pensei que, com a publicação no Blue Bus e em jornais analógicos, Sérgio Rego Monteiro, o homem forte desta operação da MTG, logo viesse a público para explicar as coisas. Estamos no domingo e até agora só o mais ensurdecedor silêncio foi a resposta ao ataque de Biscaia. Por que? Será que Monteiro e o pessoal da MTG está achando que a ação do MP seria até uma ?propaganda gratuita? de um jornal que ainda não saiu? Espero que não porque seria bobagem. Sabe como é: os procuradores tendem a ser bodes cegos, com tremenda propensão a dar marradas a torto e a direito. Se a representação cair nas mãos de um xiita, a dor de cabeça será imensa. E, como diz o adágio, ?quem cala consente?: o Metro estaria realmente passando por cima da Constituição?"

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