Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > NATURE vs. SCIENCE

Anderson S. L. Gomes

Por lgarcia em 28/02/2001 na edição 110

OFJOR CI?NCIA

OfJor Ciência 2001 ? Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

ANÚNCIO MALFEITO

"O que é fibra ótica: um comercial de TV e o analfabetismo científico", copyright Jornal do Commercio (Recife), 15/02/01

"O analfabetismo cientifico, como toda forma de analfabetismo, e’ altamente indesejavel em qualquer sociedade, por todas as suas consequencias sociais e economicas.

Na era do conhecimento e das tecnologias da informacao, o analfabetismo cientifico gera tambem o analfabetismo tecnologico, por pura falta de disseminacao correta da informacao.

A motivacao para este artigo e’ a recente propaganda veiculada na televisao por uma das companhias telefonicas que atuam em Pernambuco, em que se pretende divulgar os avancos tecnologicos obtidos nos ultimos anos, particularmente com a implantacao de fibras opticas.

Na minha opiniao, a propaganda peca seriamente ao induzir o telespectador a nao procurar entender o que e’ uma fibra optica, com o argumento de que isso nao e’ coisa para os simples mortais entenderem, bastando saber o que ela faz e deixar que os engenheiros da companhia entendam.

Isso e’ induzir o analfabetismo cientifico. Se a ?coisa? – a fibra optica e’ tao boa e tanto ja’ foi instalado, como explicar a indisponibilidade de linhas telefonicas fixas? Um milhao de quilometros de fibras opticas instaladas por uma companhia no Brasil, como divulgado na propaganda, parece muito, mas na realidade e’ muito pouco.

Mais salutar e construtivo seria, por exemplo, a propaganda dizer os responsaveis pelo ?marketing? poderiam sugerir que um engenheiro da companhia explicasse que uma fibra optica e’ um fio de vidro de diametro da espessura de um fio de cabelo, que tem uma composicao com base em silica e cujo indice de refracao (conceito estudado no segundo grau) e’ maior no nucleo, que tem cerca de um centesimo de milimetro de diametro.

As informacoes voz, dados, imagens na forma de luz, propagam-se por dezenas de quilometros na fibra optica devido a um fenomeno fisico, tambem estudado no segundo grau.

A propaganda poderia ainda induzir estudantes a montar um prototipo de comunicacoes com fibras opticas para suas feiras de ciencias e, para isso, a companhia poderia distribuir ?kits? ilustrativos.

Poderia ainda informar que Pernambuco tem pesquisadores e grupos de pesquisa na Universidade Federal de Pernambuco que trabalham ha’ varios anos com fibras opticas.

Poderia informar mais especificamente que a fibra optica ainda nao chega nas residencias e nem mesmo nas caixas distribuidoras proximo ‘as moradias, e que isso contribui para o problema atual de falta de linhas, o que poderia ser resolvido se mais fibras opticas ja’ tivessem sido instaladas ha’ varios anos.

Isso seria perfeitamente possivel nao fosse a falta de visao e decisao politica dos orgaos responsaveis pelo desenvolvimento da infra-estrutura de telecomunicacoes no Estado e no pais.

Alias, em recente materia no JC, essa falta de visao ficou novamente evidente: esta’ faltando fibra optica no mercado, simplesmente por que agora todo mundo quer tirar o atraso e a demanda e’ maior do que a oferta.

Ha’ cinco anos, havia fibra sobrando no mercado. Importante tambem seria deixar claro que as fibras atualmente instaladas pela companhia terao uma capacidade para atender ‘a demanda nos proximos 25 (!) anos, inclusive com previsao para chegar na residencia de cada um de nos (fato que ja’ acontece em varios outros paises).

Um pesquisador e executivo de uma grande companhia telefonica no exterior deixou claro que ?se voce vai cavar para implantar fibras oticas, faca so’ uma vez colocando o que tem de mais moderno e em quantidade suficiente?.

Essa, sim, seria uma propaganda digna de uma companhia que atua num Estado onde o conhecimento e portanto a sua difusao e’ um dos atrativos para o desenvolvimento social e economico.

Um Estado que se consolida como um polo de conhecimento em areas como tecnologias da informacao e tecnologia medica, e que se preocupa com a formacao e informacao dos seus cidadaos.

Como professor e pesquisador, com atuacao tambem na area de comunicacoes opticas, coloco-me ao dispor da companhia para contribuir na elaboracao de um kit de comunicacoes opticas para difusao e desmistificacao de que a sociedade nao precisa compreender o que esta’ por tras dos avancos tecnologicos Precisa, sim.

A Secretaria Regional da SBPC/Pernambuco pode colaborar na difusao dos kits O Espaco Ciencia, museu cientifico interativo localizado no Memorial Arcoverde, no Recife, pode ser grande disseminador dessa e de outras tecnologias utilizadas no dia-a-dia.

O Depto. de Fisica da UFPE ja’ faz isso, apoiando alunos que o procuram para fazer projetos sobre o tema apresentados em feiras de ciencias. O Depto dispoe de laboratorios de ensino com kits de fibra optica para formacao de seus estudantes e demonstracao. Vamos combater o analfabetismo cientifico."

NATURE vs. SCIENCE

"Mapa do genoma humano é exibido e explicado na Internet", copyright Folha de S. Paulo, 21/02/01

"O sequenciamento do genoma humano foi anunciado na semana passada por dois grupos de pesquisa. No que depender da Internet, conhecê-lo não será coisa só para cientistas. Há na rede sites dedicados ao genoma e à genética, principalmente em inglês, tanto para quem ainda não se aprofundou no assunto como para quem pretende aplicar as novas descobertas em seu trabalho.

A revista ?Nature?, que publicou os resultados da pesquisa do consórcio internacional PGH (Projeto Genoma Humano), dedicou uma seção ao genoma humano e liberou o acesso à edição da semana passada, em www.nature.com/genomics/human.

Os dados obtidos pelo PGH estão no no site do NCBI (Centro Nacional para Informação sobre Biotecnologia, em inglês), em www.ncbi.nlm.nih.gov/genome/guide/human. É possível encontrar a localização de genes específicos -ou simplesmente navegar no mapa dos cromossomos humanos-, relacioná-los a doenças e ver se têm correspondência em outros organismos.

Já no site da ?Science?, responsável pela divulgação da Celera Corporation (dos EUA), em www.sciencemag.org/feature/data/genomes/landmark.shl, você pode encontrar os textos sobre genoma -não somente humano- publicados pela revista desde 1990, incluindo o da edição da semana passada.

A ?Science? também possui uma página (www.sciencemag.org/feature/plus/sfg/resources/reseducation.html) que leva quem quer conhecer um pouco mais sobre genética e genoma a alguns sites educacionais.

Um dos destaques da lista é o DNA Learning Center (http://vector.cshl.org), do Laboratório de Cold Spring Harbor, que traz um almanaque com explicações sobre genética desde os experimentos de Mendel com ervilhas.

A Celera também dedica uma página (www.celera.com/genomics/genomics.cfm) ao ensino de temas referentes ao genoma, com, textos, animações e até uma linha do tempo da genética."

"Celera denuncia exageros sobre o genoma", copyright Folha de S. Paulo, 20/02/01

"Um cientista é cauteloso em relação às possibilidades abertas pelo sequenciamento do genoma humano. O outro insiste em que o mapeamento revolucionou o mundo da ciência. Curiosamente, o cético é Craig Venter, da empresa Celera, que tem muito a ganhar vendendo seus dados.

O otimista é Francis Collins, líder do consórcio internacional PGH (Projeto Genoma Humano). Dele se esperaria uma postura que evitasse inflacionar as expectativas do público leigo.

?O mapa do genoma humano não é o livro da vida, não é o manual da humanidade, ele não contém instruções sobre como fazer um coração, um cérebro. As analogias sendo feitas são exageradas?, afirmou Venter, em encontro com jornalistas, no sábado.

?Esses dados mostram que não fomos destacados pela natureza. Somos parte de um contínuo biológico. Não somos importantes como espécie só porque temos 3 bilhões de bases nitrogenadas. Um dos cientistas da Celera brincou que as moscas-das-frutas (que têm metade do genoma humano) disseram não ter ficado tão surpresas com a revelação.?

Já Collins, apesar de ressaltar que ainda há muito o que fazer, enfatizou o marco histórico do sequenciamento feito pelo consórcio público internacional.

?O Sol nunca se põe no Projeto Genoma Humano, que vai dos EUA até o Japão. Temos o livro da vida, que li de ponta a ponta, sem conseguir entender tudo, mas que nos surpreendeu. Estamos trabalhando para compreendê-lo.?

?Recebo todos os dias e-mails de uma mulher que sofre do distúrbio de Lou Gehrig (o mesmo que acomete o físico britânico Stephen Hawking) e tem mais quatro meses de vida. Ela sabe que o livro da vida chegou tarde demais para ajudá-la, mas está animadíssima com o progresso feito. Acho que o espírito é esse.?

Os dois foram as principais estrelas da reunião anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), onde deram palestras no último final de semana, para um auditório lotado.

No sábado, Collins foi ovacionado de pé. No domingo, Venter é que foi cercado pelo público de cientistas e estudantes, muitos em busca de autógrafos.

Conhecidos por sua rivalidade, Venter e Collins se cumprimentaram amigavelmente e conversaram em particular por alguns minutos antes da entrevista coletiva na AAAS, no último sábado. Collins brincou: ?Que surpresa ver você?, depois de uma semana aparecendo juntos em palestras e programas de televisão, após a divulgação dos artigos científicos com as sequências do genoma.

Apesar do clima amistoso, sobrou espaço para alfinetadas. Durante a conversa, Venter cutucou: ?Acabo de saber que a ?Nature? tentou interceptar o caminhão de entrega da ?Science?, mas não foi bem-sucedida?, referindo-se à rivalidade entre as revistas britânica (com os resultados do PGH) e americana (com os da Celera)."

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