Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Angélica Brum

Por lgarcia em 19/09/2001 na edição 139

DICIONÁRIOS

"Mais uma opção de dicionário", copyright Jornal do Brasil, 16/09/01

"Nem Aurélio, nem Houaiss. A última palavra, em Portugal, agora, é o dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa. Os dois volumes de capa azul-marinho sisudo, lançados no Brasil pela editora Verbo, reúnem em quatro mil páginas mais de 270 mil verbetes. Com pelo menos 40 mil vocábulos a mais que o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, a versão portuguesa saiu mais barata. Cerca de R$ 5,6 milhões, ou seja, R$ 600 mil a mais do que a editora Objetiva gastou com a obra, sem falar nos recursos que o Instituto Antônio Houaiss obteve via Lei Rouanet.

?Também não rodamos o dicionário na Itália?, provoca, de Lisboa, o dono da editora Verbo, Fernando Guedes, 72 anos. ?Soubemos que o Houaiss foi impresso em uma gráfica italiana. Nós ficamos aqui mesmo em Braga. Não precisamos ir tão longe porque estamos acostumados com edições referência e de grande porte. O carro-chefe da nossa empresa é uma enciclopédia, lançada há mais de 40 anos.? Se os seis quilos, peso dos dois volumes, não chegam a abalar o mercado editorial português, a história do dicionário ajudou a chamar a atenção para o lançamento, que aconteceu há cinco meses.

Padrão – A obra, que caminha para a terceira tiragem depois de bater a marca dos 20 mil exemplares vendidos, começou a ser produzida desde a fundação da Academia, em 1779. O primeiro volume, só com a letra A, ficou pronto quatro anos depois. ?Já naquela época havia a preocupação em criar um dicionário padrão para a língua portuguesa?, explica o professor João Malaca Casteleiro, 65 anos, coordenador do léxico e também responsável pela edição portuguesa do Houaiss.

Considerado um projeto ambicioso, o sonho do dicionário ficou arquivado por quase dois séculos. Até que, em 1988, uma equipe de filólogos e lingüistas foi convocada para pôr o ponto final no trabalho. Durante 12 anos, especialistas portugueses, africanos e brasileiros se dedicaram a criar um dicionário que mostrasse as combinações do português falado em quatro continentes. Com destaque para cem expressões usadas em Macau.

?Recomeçamos do zero, com a perspectiva de juntar os verbetes de forma enciclopédica e associar a eles mais de 33 mil citações de autores consagrados?, esmiúça o professor. Entre os autores, estão os brasileiros Jorge Amado e Monteiro Lobato. Segundo o professor, os trechos de peças literárias aparecem para mostrar os diversos usos e também a sintaxe da palavra destacada. ?Assim, podemos dizer que montamos uma gramática em ordem alfabética.?

Grande diferencial do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, as abonações foram deixas de lado no Houaiss. ?Cada publicação apresenta critérios específicos. O Houaiss pretende dar uma dimensão atual da língua e traz como inovação a datação, revelando quando os verbetes foram utilizados pela primeira vez?, compara o professor Malaca.

As diferenças entre os dois dicionários animam o dono da editora Verbo. Fernando Guedes espera que os brasileiros se sintam atraídos com a chegada de uma obra inédita no mercado nacional. ?Nosso dicionário virou livro de cabeceira da família portuguesa. Quem sabe não acontece o mesmo no Brasil?? Os dois volumes custam R$ 390."

 

"Palavras, palavras, palavras", copyright O Estado de S. Paulo, 12/09/01

"A frase que dá título a esta crônica é do Shakespeare. Word, word, word, já dizia Hamlet meio século atrás, lá na Dinamarca, onde havia algo de podre.

E começo com as palavras dele esta bobagera, ao receber da Editora Objetiva o dicionário do Houaiss. Onde, aliás, não existe o verbete Aurélio. Mas tem 63 mil palavras a mais do que o supracitado Aurélio.

Sei que o Verissimo já tergiversou aqui no sábado sobre o calhamaço. E fê-lo (me desculpe!) muito bem.

Adoro dicionário. Adoro as palavras. Trabalho com eles, vivo delas. Procuro palavras exatas para a hora certa. Bisbilhoto dicionários. São meu ganha-pão (esta palavra, por exemplo, está nos dois dicionários).

Minha paixão pelos dicionários começou quando descobri – com uns 8 anos – que lá tinha palavrão. Todos. Aquilo, na minha turma da Rua Oswaldo Cruz, lá em Lins, foi uma loucura. Nossa vida nunca mais seria a mesma. Estavam todos lá. E mais, com sinônimos. Centenas, milhares de palavrões. Com a explicaçãozinha e tudo. Pornografia pura e impressa. Um masturbatório deleite.

E gosto também de inventar palavras. Já inventei três. Mas os dicionaristas ainda não as incluíram no corriqueiro da língua pátria.

A primeira, foi em 1982: homoternurismo. Eu precisava explicar a relação entre dois homens na minha peça Besame Mucho. Era uma relação de amor, mas sem sexo. Essas amizades que duram para a vida toda. Que vem lá da infância. Tem gente que acha que isso é coisa de veado, mas não é não. Tenho várias relações de homoternurismo pelo mundo afora.

Depois, ao sentir que estava chegando a velhice, inventei a palavra envelhescência para me justificar. Ou seja, entre a maturidade e a velhice, existe a envelhescência. É onde me encontro agora, entre os 50 e os 70. Esta palavra pegou bem na boca dos psicanalistas. Outro dia vi um deles a usando na televisão com a maior naturalidade, sem dar a fonte. Claro que ele era um envelhescente. O envelhescente é muito parecido com o adolescente. Mas isso é outra crônica e deixa pra lá. Está no meu último livro Minhas Tudo.

A terceira palavra eu ainda não inventei, para falar a verdade. Mas vou inventar. É que, daqui a cinco anos, se eu ainda não tiver inventado uma palavra nova, vou me tornar em sexagenário. Sexagenário, não! Posso ser tudo, mas esta palavra, não! É horrorosa. Fulano é um sexagenário!, é um xingamento. Não sei por que, mas me lembra broxa, um cara que não tem mais sexo. Um fim de linha, mesmo.

Tenho pensando numa nova palavra. Para começar a usar agora e quando eu chegar lá, ela já estar bem difundida. Sessentinha, pensei. Mas não soa bem. É um pouco gay, também. Sessentão é muito machista, dirão as meninas.

A nova palavra tem de ter um charme, um quê, um buquê. O Jabor, por exemplo, fez 60 anos outro dia. Ele é tudo, menos um sexagenário. Você olha para a cara do Jabor e vê, percebe, sente que ele não é um sexagenário. Um homem como ele, bonito, inteligente, alto daquele jeito, com aquela mulher ao lado, não pode ser um sexagenário. Na minha cabeça, sexagenário é baixinho, barrigudinho e encurvado. E tem mau hálito. E o Jabor perfuma o lugar onde entra. Definitivamente meus amigos com 60 (o Tenório de Oliveira Lima é outro) não são sexagenários. Amigo meu, jamais! E muito menos eu! No ano que vem, olhe bem na cara do Caetano Veloso. Duvido que você o chame de sexagenário. Aquilo é, no máximo, um quarentão bem esticado.

Já septuagenário e octogenário eu gosto. São palavras adultas, fortes, masculinas e sonoras. Se eu chegar lá, vou me orgulhar. Mario Prata, octogenário da silva. Beleza.

Mas sexagenário a minha geração não assume. Vamos todos, colegas, numa frente ampla, procurar uma palavra mais nossa, menos velha. Quem sabe um dia o Aurélio e o Houaiss não tirem essa bobagem do dicionário deles.

Pensei agora em sexenvelhescente. Não, uma bobagem. Parece fim de linha também. Me ajude aí. Me mande uma colaboração. Mas mande logo, antes que eu chegue lá."

 

"Houaiss, o missal da língua", copyright O Estado de S. Paulo, 14/09/01

"Mal o Houaiss foi lançado, todos começaram a comentar as diferenças com o Aurélio. Achei indelicadas as declarações dos editores do Aurélio, colocando uma porção de defeitos, como se algum deles já tivesse atravessado as 2.922 páginas e os milhares de verbetes que compõem o Houaiss. No Brasil é assim, mal se escalou a seleção, fala-se mal dela, nem se espera jogar. A verdade é que temos o Houaiss e temos o Aurélio, uma maravilha. Melhor dois dicionários na mesa do que um só na estante. Assim que ?estreiou?, o Houaiss criou divergências. A Veja o anunciou como custando R$ 125, enquanto na Saraiva da Rua Augusta estava a R$ 109 e na Fnac a R$ 99. Portanto, o melhor é fazer a cada vez mais habitual pesquisa, tão necessária, hoje, diante de um comércio caótico e competitivo. Minha ansiedade, no entanto, me fez entrar logo na Saraiva e comprar, a livraria fica perto do meu trabalho.

Comprei e fui almoçar, orgulhoso, feliz. É tão fácil ser feliz depois que se passou por uma veia bailarina. Lembrava-me de Antônio Houaiss como colega de júri no monumental Concurso de Contos do Unibanco, anos 70. A maneira como ele defendia ou execrava certos textos eram contos em si que exigiam dos outros jurados minidicionários para acompanhar o pensamento. Encantador.

Carreguei o pesado dicionário por duas quadras até chegar ao restaurante Quatrino. Tenho ali uma mesa escondida, como e leio, ninguém perturba, demoro quanto quero, Mary Nigri e os garçons mantém minha privacidade.

Quando criança, coroinha na Matriz de São Bento, em missas solenes, eu era o portador do imponente missal até a estante diante da qual o padre oficiaria a missa. Um volume quase medieval, mais grosso do que este Houaiss, do mesmo tamanho, mas em capas de couro, letras gravadas a ouro, cheios de iluminuras. Onde estarão os preciosos missais da Matriz? Eram em latim e agora a missa é em português, devem estar aposentados. E as opas, casulas, roquetes, aqueles paramentos bordados a ouro? Ou seriam apenas linhas douradas? Carregar o missal conferia status ao coroinha, ele seguia na frente do pequeno cortejo que demandava o altar-mor.

Eu sentia o peso do livro, tinha de levá-lo em pé, apoiado contra o peito, a capa mostrando o desenho com a cruz. Seguia devagar, para que todos os olhos da igreja me acompanhassem. Era um ator ou um exibido? As luzes, o órgão, o cheiro do incenso e da cera das velas, a hierarquia dos oficiantes, as associações religiosas em seus ?uniformes?, suas fitas coloridas (azul para Filhas de Maria, vermelha para as do Sagrado Coração, amarelas para as de São José), o coro cantando, a igreja superlotada denotavam uma superprodução. Tinha um sentido do teatral e provocava inveja no Zé Celso Martinez Corrêa que nunca foi coroinha. O mesmo Zé que escreveu comovente depoimento a meu respeito nos Cadernos de Literatura, confirmando uma amizade de 60 anos, quase desde que fomos para o Colégio Progresso.

No restaurante, demorei a pedir a comida, enquanto o garçom me olhava abrindo o novo missal da língua portuguesa. Surpreso, me viu abaixar e cheirar. O Houaiss cheira bem, adocicado, melhor do que o Aurélio, lamento dizer. É mais bonito como design. Capa solene, severa, marrom sobre bege com letras douradas. Tenho a mania de ver qual a primeira palavra, qual a última. Exceção feita às explicações sobre a letra A que se estendem por coluna e meia, a primeira palavra do Houaiss é aabora. A derradeira o Luis Fernando Verissimo revelou é Zzz. As últimas letras possuem tão poucos vocábulos. Vejam o Y. Menos de meia página, com 44 designações. Quem vai empregar a palavra yué? Ou yatê? Tentaram, há muitos anos, eliminar o Y, transformando-o em I. Fui dos reclamaram. Não gosto de meu nome grafado Loiola em lugar de Loyola. E pensar que tem assessoria de imprensa que usa Loiola ao me mandar o mailing. Nem abro, jogo o envelope no lixo.

Dicionários fizeram parte de minhas aventuras de infância. Eu percorria a enciclopédia Jackson, descobrindo palavras. Enchia páginas do caderno e pentelhava (a palavra está no Houaiss) a professora. O que significa mimalho? Ou guanaco? Obrigava a infeliz a protelar a resposta. Quando adolescente freqüentava a biblioteca pública e encontrava um rival pela frente, o Sérgio Fenerich, cuja paixão era a etimologia. Ele vivia com o nariz dentro dos dicionários da biblioteca. Havia, naquela época, uma parte da enciclopédia espanhola Espase Calpe que fazia a delícia do Fenerich.

Nunca entendemos porque não havia todos os volumes, mas os que existiam eram suficientes para longas leituras. O célebre Torrinha era virado do avesso e, em latim, Sérgio era imbatível.

Quando comecei a escrever críticas de cinema para a Folha Ferroviária, entregava a ele para que copidescasse (está no Houaiss). O termo não existia em nossa linguagem araraquarense, pertence à gíria da imprensa moderna, apareceu nos anos 60, é anglicismo. Mas era isso que ele fazia: arrumava as minhas frases deficientes. Sei que hoje ele trabalha num Fórum de São Paulo, dando brilho ao português de petições de advogados empolados. Fenerich rivalizava-se com o Dedão no uso de palavras herméticas, intransponíveis por nós, simples mortais. Dedão era o Raphael Luiz Junqueira Thomas (morreu em 1978), um preciosista revoltado contra tudo e todos, de meus melhores amigos e mentores daquela fase. Um poeta que cultivava Augusto dos Anjos e fazia as provas de matemática em versos, ganhando boas notas do Ulisses pela criatividade.

Fazia provas de história em sonetos, divagando sobre Ciro, Alexandre, Júlio César e Diógenes, sem nada responder das questões, mas ironizando a solenidade dos vultos históricos. Será que a Cidinha Valério guardou aquelas provas? Pensar que hoje, em lugar de escrever, basta preencher o quadrinho à direita. Pensar que se naquela época tivéssemos o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis, teríamos às mãos um arsenal de palavras que nos faria imbatíveis.

Porque gostávamos de palavras. De disputas. De ver quem sabia a mais difícil. Vocábulos como pultáceo, nefrectásico, impado, entuviada, damejador, quadropolo e telmesse.

Às vezes, queríamos impressionar as meninas com nossos conhecimentos, crentes de que seriam subjugadas pelo poder da palavra. Olhavam, perplexas:

?Precisa falar difícil assim?? Laís Pinheiro, hoje Vendramini, loira suave e de olhos verdes, pedia: ?Digam palavras perfumadas.? Aprendemos que havia várias linguagens, para vários momentos. E que falar de forma clara e comprensível, com palavras boas, sinceras e bonitas era o melhor caminho para se atingir o coração das mulheres e o entendimento das pessoas. O que a maioria, principalmente economistas, acadêmicos e políticos, não entende."

    
    
                     
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