Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > NO AR

Angélica Santa Cruz

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

CAROS AMIGOS

"Caros manos", copyright no. <www.no.com.br>, 2/8/01

"As reuniões de pauta aconteceram em volta da mesa do escritor Ferrez, em seu quarto sem reboco no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Espalhados por ali, estão uma calculadora (?roubei da empresa onde trabalhei durante dois anos e que explorava os funcionários?, conta ele), lápis de cera (?roubei no Shopping Iguatemi, lugar de playboy paulista?), uma foto do escritor alemão Hermann Hesse (?esse cara, mano, é o que há de melhor na literatura?) e uma pequena pilha de CDs produzidos por grupos de rap locais (?a gente toca essas músicas para os moradores na rádio comunitária daqui?). Em volta do tampo de madeira, um pequeno grupo formado por poetas, desenhistas e articulistas ? entre eles um conhecido ladrão do bairro ? discutiu detalhes da primeira edição da ?Caros Amigos Literatura Marginal?, que chega no final do mês a 16 mil bancas espalhadas pelo país afora. É a primeira revista de circulação nacional totalmente produzida por moradores de favelas e periferias. ?É feita pela escória mesmo!?, assegura Ferrez, garantindo a autenticidade do produto.

Quartel-general da publicação, o quarto/escritório de Ferrez tem paredes coloridas e cobertas por prateleiras com livros, revistas em quadrinhos e bonecos das séries Arquivo X e Guerra nas Estrelas. Da porta do lugar, avista-se uma panorâmica dos quatro bairros que formam o Capão Redondo , o maior exemplo do que os sociólogos gostam de chamar de ?banalização da violência?. Só este ano, cinco chacinas foram oficialmente registradas ali e todas as semanas encontra-se um cadáver nas redondezas. Um passeio pelas ruas em volta da casa é suficiente para esbarrar com pequenas amostras do que dizem os textos já incluídos no primeiro número da revista, que terá uma tiragem de 25 mil exemplares e será vendida por R$ 4,90. O lugar é uma usina de histórias de quem sobrevive na clandestinidade ? e a revista é o relato disso.

Os artigos falam, por exemplo, do estigma que acompanha os moradores da periferia. Uma demonstração está a poucas quadras da casa de Ferrez, em um pequeno galpão onde funciona uma oficina que faz materiais de borracha, como os que vedam os semáforos da cidade. O negócio está em expansão. O dono do lugar tem 23 anos e dá emprego para o pai e outros dois funcionários. Os três viram madrugadas prensando borrachas em máquinas com altas temperaturas. Para conseguir encomendas, o proprietário do negócio veste roupas de grife, entra em um Corsa novo em folha e vai aos bairros nobres da cidade com um pequeno álbum onde mostra seu produto. Aos clientes, se apresenta como representante de vendas da empresa ? não como dono. E nunca diz que mora no Capão Redondo. Faz isso porque duvida que alguém vai pedir mercadorias a um sujeito cuja oficina fica na região mais violenta da cidade.

Outro texto incluído na revista reclama da ?educação garapa? que as crianças da periferia recebem do Estado. O artigo também tem comprovação na esquina da casa onde aconteceram as reuniões de pauta, na escola pública da região. A área dedicada ao primeiro grau é um barraco de madeira, escuro e úmido ? onde estudaram algumas das pessoas que agora escrevem para a publicação. O prédio do segundo grau poderia ser confundido com uma unidade da Febem. Ali, os professores trancam as salas com cadeados durante as aulas, para evitar que os alunos fujam ? e depois das aulas, para evitar que os alunos roubem alguma coisa.

Com a vida na periferia entrando por sua janela, Ferrez fechou o projeto da revista há pouco mais de dois meses. Ele tem 25 anos, é filho de uma dona-de-casa mineira e de um aposentado baiano, foi caixa da rede de lanchonetes Bob?s, trabalhou no setor de Contabilidade de uma empresa e fez vários bicos até entrar para o grupo de escritores marginais ao publicar o livro ?Capão Pecado?, há dois anos. Depois do lançamento, alinhou-se com Mano Brown, líder do grupo de rap Racionais MC?s, no papel de ?voz da periferia?. Participou de seminários, deu entrevistas, posou para editoriais de moda e criou um projeto cultural chamado Movimento 1 da Sul (uma gíria que quer dizer mais ou menos ?todos por um? na região Sul de São Paulo?). No início do ano, ofereceram a Ferrez uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. Ele ficaria um ano cursando literatura ? e contribuindo com pesquisadores que estudam a produção literária das periferias. Com a oferta, o escritor ficou naquela encruzilhada comum a quem se destaca na periferia justamente por ser alguém da periferia: sair do lugar é dar as costas para origem? Na dúvida, achou que já estava virando ?outra coisa? e resolveu ficar. Recusou a bolsa. ?Mas decidi tentar fazer mais alguma coisa por aqui, além de escrever livros?, conta.

Pensou, então, em fazer uma publicação de banca com textos da periferia feitos por gente da periferia. A idéia é levar para artigos o que já acontece, por exemplo, com o rap ? um gênero musical feito e consumido nos cinturões de pobreza das grandes cidades, mas que também extrapola as fronteiras e chega à classe média. Com o projeto embaixo do braço, Ferrez entrou em um ônibus, passou por baixo da catraca para não pagar a passagem (?com que dinheiro??) e foi até a redação da revista Caros Amigos , na zona oeste da cidade. ?Achei a idéia maravilhosa?, conta Sérgio de Souza, editor da publicação. A Caros Amigos investiu 40 mil reais na produção gráfica e distribuição país afora dos textos reunidos no quartel general do Capão Redondo. E só. ?Não colocamos o dedo em nada. É tudo feito por eles?, diz o jornalista.

O primeiro número da revista está pronto. A capa é uma lambança de sinais gráficos usados em presídios, recortes de salmos e uma arma e uma rosa dispostas sobre um livro aberto, onde se lê, em vermelho, a expressão ?literatura marginal?. Lá dentro, estão textos produzidos por escritores como Paulo Lins (?Cidade de Deus?), Alessandro Buzzo (?O Trem?), Sérgio Vaz (?Pensamentos Vadios?) e o próprio Ferrez. Mas há também artigos produzidos por gente como Garret, identificado ao final de seu artigo como ?morador da favela da Muvuca, odeia o Presidente e não planeja lançar nenhum livro na vida?. Garret é também ladrão ? embora nenhum de seus companheiros de redação queira dar detalhes sobre o ramo exato de sua atuação. ?Ah, ele rouba aí uns troços?, diz um deles. Garret compareceu rapidamente às reuniões de pauta para entregar seu texto com uma frase rápida: ?taí, firmeza, tchau?.

O conjunto dos textos ? de dez autores, ao todo ? pode até ter sua qualidade literária questionada, mas é um relato da lógica de sobrevivência que se espalha pelos centros de pobreza urbana tão certeiro quanto um rap entoado por Mano Brown. No final das contas, a revista é lançada no rastro de um interesse crescente e com certa dose de inclinação politicamente correta pela produção cultural das periferias. Nos últimos meses, há uma coleção de iniciativas do gênero. A revista independente ?Simples? dedica duas páginas a cada número para a seção ?Becos e Vielas Z/S?, onde escrevem moradores da periferia. O último cd do racionais MC?s, ?Sobrevivendo do Inferno?, foi lançado há dois anos e alcançou rapidamente a casa dos 600 mil exemplares vendidos. Mas mesmo depois do boom inicial, o sucesso se manteve e agora o CD está prestes a alcançar um milhão de cópias vendidas. A própria ?Caros Amigos? já dedicou um número especial à cultura Hip Hop e vendeu 56 mil exemplares. É dificil acreditar que os próprios moradores da periferia sejam responsáveis por esse consumo. ?Mas quer saber? Tá valendo. É melhor a gente escrever sobre a gente, seja lá que vai ler?, argumenta Ferrez. Como já dizia a faixa oito do ?Sobrevivendo no Inferno?, periferia é periferia, em qualquer lugar."

NO AR

"A pior seca", copyright Folha de S. Paulo, 3/8/01

"Começou com o Bom Dia Brasil dizendo que a estiagem fez o São Francisco cair 25 metros e levou à descoberta de um vapor do século 19.

Prosseguiu com o Hoje dizendo que o Nordeste enfrenta a pior seca em 70 anos, tornando mais lastimável a situação das mulheres, que ficam com os filhos enquanto os maridos viajam para São Paulo em busca de sustento.

Na Bahia, avança a decadência das lavouras de cacau.

Todas histórias tristes, mas o nó dramático só foi aparecer no início da noite, quando Fátima Bernardes anunciou o ?risco de apagão? no Nordeste. E a Globo News explicou:

? Pode ser que o governo tenha que usar o plano B, porque este foi o pior período de chuvas dos últimos 70 anos.

E o tortuoso ministro do ?apagão?, Pedro Parente:

? A hidrologia do Nordeste continua bastante baixa. Foi somente 65%. É pior do que o pior ano da série de 70 anos.

Depois do relatório que garantiu, no JN, que FHC não foi avisado da crise de energia, agora isso. Definitivamente, não é culpa do presidente se esta é a pior seca em 70 anos.
Como mostrou a Globo ao longo do dia, aos pouquinhos, em pequenas doses.

***

Só para recordar, o que dizia Franklin Martins, dias atrás, sobre crise de energia e a popularidade de FHC:

? Aos olhos da população, o governo está passando com um comportamento competente. É o que a pesquisa mostra. Ele está fazendo o dever de casa, então a bronca cede um pouco. As pessoas começam a olhar para o governo sem tanta raiva. Aos pouquinhos, a popularidade melhora.

Em pequenas doses.

***

Tony Blair seguiu em turnê para o México -e ontem já se anunciavam os contratos conseguidos pela Rolls Royce no Brasil, um deles com o Ministério da Defesa.
Blair não veio ao Brasil trazer o carro da oficina.

***

Algumas perguntas sobram para Amaury Jr. fazer. Ontem, para Marta Suplicy:
? Você acha que a sua separação maculou sua imagem de alguma forma?
? Acho que as pessoas não dão nenhuma importância a isso.
? Nenhuma importância?
? Não. Elas estão interessadas é no que eu vou fazer, como prefeita. É o que interessa à população."

    
    
                     

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