Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & PORNOGRAFIA

Angélica Santa Cruz

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

MÍDIA & PORNOGRAFIA

"?Eu sou imoral?", copyright no. (www.no.com.br), 16/02/01

"O empresário Oscar Maroni Filho é libertino, devasso e obcecado por sexo. ?Realmente, sou bem imoral…?, reflete ele, sentado em um escritório decorado com tapete de oncinha, paredes espelhadas, prateleiras onde se vê livros de Henry Miller, CDs de Lou Reed, um exemplar da Bíblia e um punhado de revistas de sacanagem. Um dos pornógrafos mais bem sucedidos do país, Maroni é dono da casa noturna/motel/balneário Bahamas American Bar, por onde circulam diriamente cerca de 150 paulistanos endinheirados. Há algumas semanas, chacoalhou o ramo ao anunciar o lançamento da versão brasileira da revista Penthouse, um dos maiores títulos eróticos dos Estados Unidos, e iniciar a construção do primeiro hotel temático brasileiro – sobre sexo, claro – a poucos minutos do aeroporto de Congonhas. ?Tudo dentro das mais estritas normas da imoralidade e da legalidade?, garante.

Aos 50 anos, casado, pai de quatro filhos, Maroni é um dos tantos personagens que enriqueceram explorando os atrativos sexuais da noite paulistana. É o único, no entanto, que não se importa em aparecer à luz do dia para contar exatamente o que faz para viver. É dono, por exemplo, de uma fazenda de 1 500 hectares na cidade de Araçatuba, interior de São Paulo, onde cria 5 700 cabeças de gado. Também planta soja e é formado em Psicologia. Mas jamais foi visto por aí dizendo que é fazendeiro, agricultor ou psicólogo.

?Ganho dinheiro com a pornografia. E, para falar a verdade, acho que é um ofício muito nobre?. Em defesa de sua profissão, emenda argumentos sobre o direito à liberdade de expressão, que vão do artigo 5? da Constituição brasileira à primeira emenda da americana, e em torno dos benefícios do sexo – ainda que pago – para a humanidade. ?Mas resumiria minha porno militância em dois únicos argumentos: é bom e todo mundo gosta?.

A sociologia da libidinagem – como define – de Maroni é fruto de 25 anos de experiência em um setor que, com todo o respeito, não pára de crescer. No ano passado, a indústria do entretenimento sexual movimentou 10 bilhões de dólares nos Estados Unidos. No Brasil, não há estimativas confiáveis. Mas o velho e bom método empírico mostra que o ramo é sucesso absoluto. O laboratório de Maroni, por exemplo, é o Bahamas, um dos bordéis mais caros de São Paulo. Um lugar, sim senhor, permitido por lei.

Trata-se de uma empresa legalmente constituída (O.M.F. Restaurante e American Bar), que conta com 77 funcionários registrados. No térreo, funciona uma casa noturna – que também é movimentadíssima à tarde e está sempre lotada por umas moças que poderiam concorrer sem maiores pudores com o casting de garotas de programa da famosa Gruta Azul, em Porto Alegre. A entrada custa 81 reais para os homens e 13 para as mulheres. Na parte de cima do lugar, por onde se chega por meio de uma escada coberta por tapete vermelho, há um motel com 23 suítes, pelas quais se paga 57 reais por hora.

Faturamento de R$ 9 milhões e fé no BNDES

Também trabalham por ali cinco moças equipadas com computadores, que participam de chats eróticos no site da casa www.cyberbahamas.com.br. Normalmente o que se pratica no lugar é sexo pago. Mas Maroni está legalmente protegido da acusação de rufianismo por conta de uma gambiarra jurídica: ?Ter motel não é proibido, é? Ter casa noturna não é proibido, é? Ter sauna também não. Eu tenho essas três coisas em um só lugar. Agora, o que as meninas fazem com os rapazes não é absolutamente da minha conta. Se for sexo, acho maravilhoso!?.

A movimentação no Bahamas e a criação de gado garantem a Maroni um faturamento anual de 9 milhões de reais. Com o pé-de-meia que o lugar lhe rendeu – e a certeza de conseguir em breve financiamento do BNDES – o empresário já iniciou a construção de seu hotel erótico. As obras estão sendo tocadas em um terreno de 4 000 metros quadrados ao lado do Bahamas. Trata-se de um investimento de 17 milhões de reais. Serão 175 apartamentos acomodados em 13 andares de um prédio em forma de triângulo. Uma ?construção vaginiforme?, nos dizeres do empreendedor.

A decoração de interiores, assinada pelo badalado arquiteto Sig Bergamin, será fiel à orientação do dono: referências sexuais por todos os lados. No 13? andar do edifício, vai funcionar a redação da Penthouse, por enquanto montada em sede provisória. Com o slogan ?sexo, política e protesto?, o título é a revista masculina mais vendida em bancas nos Estados Unidos e atinge cerca de três milhões de leitores por mês. Nos últimos dias, Maroni anda às voltas com uma polêmica com o departamento comercial da revista. ?Quero fazer fotografias muito ginecológicas das meninas. Mostrar o sexo como ele é. Mas vender anúncio assim é difícil?, diz ele.

Oscar Maroni Filho é casado com uma psicóloga. Mas guarda no cofre de seu escritório álbuns com fotos de outra moça. Muito bonita, por sinal. No mesmo lugar, mantém retratos que tirou durante a entrega do Oscar Pornô americano ao lado de alguns dos personagens mais bizarros dos filmes trash exibidos mundo afora. Também deixa por ali uma cópia em vídeo do filme ?Amor, Estranho Amor?, aquele que conta com participação especial da apresentadora Xuxa – ?para eventuais surtos de hipocrisia na sociedade brasileira?, segundo conta. Mas o maior tesouro ali guardado são os retratos que tirou ao lado do ídolo Larry Flint, o americano dono da revista Hustler que inspirou o filme ?O Povo contra Larry Flint? e vez por outra tira o sono dos republicanos.

Garota de programa cura paciente

Ser reconhecido como o similar brasileiro de Flint é a meta de Maroni. E até que a sua biografia autoriza a briga pelo título. O empresário começou a ganhar a vida como proprietário de uma lanchonete na Faculdade Objetivo, do empresário João Carlos di Gênio – onde também cursava Psicologia. Lá pelas tantas, já formado e com consultório montado, resolveu aconselhar um paciente com problemas sexuais a procurar uma garota de programa. O sujeito, conta ele, foi e ficou curado: ?Percebi a importância desse mundo?. Maroni mudou de ramo. Fechou o consultório e comprou a casa de massagens Holm’s, muito conhecida em São Paulo nos anos oitenta. Em quatro anos, era dono de dez casas do gênero. Transformou-se em um apologista da sacanagem.

Há três anos, Maroni foi preso durante 63 dias pelo delegado Romeu Tuma Júnior, filho do senador Romeu Tuma, sob acusação de manter casa de prostituição. A detenção rendeu-lhe uma coleção de histórias folclóricas. Preso em uma cela especial do 27? Distrito Policial, ele pedia comida no restaurante Fasano, o mais vip da cidade, e revolucionou as visitas íntimas. ?Como a lei não especifica quantas pessoas eu poderia receber, enchi o lugar de mulheres?, garante. ?O período em que ele esteve lá foi uma festa?, confirma um investigador que na época trabalhava na delegacia.

Maroni acabou solto por intervenção de seu advogado, Celso Bastos. O jurista produziu um parecer de 52 páginas que remete à prostitição na Roma Antiga e em Portugal no reinado de Afonso IV, reproduz textos de outros dez juristas, evoca o Código Penal e, ao final, conclui que seu cliente não passa de um dono de motel – o que, afinal de contas, não é crime. O texto transformou-se em uma espécie de salvo-conduto para Maroni. Com base em sua argumentação, foi absolvido nos cinco processos a que respondeu. E, quando foi solto, roubou o cadeado de sua cela. Depois colocou-o em uma moldura e pendurou em seu escritório. ?É o troféu para a minha prisão?, diz. Quando encontrou o ídolo Larry Flint, em uma cerimônia em Dallas, Maroni aproveitou para vangloriar-se de sua prisão. Recebeu de volta um tapinha nas costas.

Ainda na tentativa de seguir os passos do mestre, Maroni inventou dia desses de editar a revista Hustler no Brasil. Comprou o título e chegou a participar de alguns números, mas saiu do controle editorial por conta de uma briga com o sócio. Agora, briga na Justiça para retomar as rédeas da publicação. Enquanto não coloca seus dois títulos nas bancas, espeta no quadro de avisos do Bahamas, entre fotografias ginecológicas, textos que defendem a liberdade de expressão e o direito da humanidade de ?fantasiar, delirar e ser dono da própria sexualidade?. Um dos panfletos pró-libidinagem termina com a frase ?De resto, somos hedonistas: o homem veio ao mundo para o prazer?.

A militância de Maroni, garantem as pessoas que convivem com ele, escorrega para o dia-a-dia. ?Ele é assim o tempo todo. Passa o dia me falando de liberdade de expressão, do direito à escolha e que eu não devo ter vergonha da minha sexualidade?, diz o filho Aruã Maroni, 18 anos, que pretende suceder o pai em seus negócios.

?Pelo direito ao pênis ereto?

Na semana passada, Aruã acompanhava as fotos que o pai fazia, ao lado de garotas de programa, para no. Em meio à seção de fotografias, recebeu um telefonema da namorada. Com uma mão no celular e outra ajudando a segurar uma das moças, ele disse; ?Estou no escritório do papai. Te ligo daqui a pouco?. Quando desligou, discursou: ?A vida da nossa família é assim mesmo, meio excêntrica. Mas lá em casa todo mundo entende e apóia. E eu me orgulho quando penso que uma das manias do meu pai é implodir a caretice?.

Maroni, de fato, tem algumas outras esquisitices. Odeia números pares (?tudo na minha vida é ímpar?), guarda água do Rio Tietê em um vidro em seu escritório (?é um trecho que foi despoluído. Sou um ambientalista?), é tarado por carros e motocicletas (?tenho quatro motos, entre elas uma Harley Davidson?), discorre durante horas sobre seus ídolos (?são: Leila Diniz e Maysa?) e costuma chocar as pessoas mais impressionáveis ao falar o lema de sua vida: ?pelo direito da humanidade ao pênis ereto e à vagina molhada?.

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