Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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“Ano exuberante”, copyright Folha de S. Paulo, 28/12/03

Por Bernardo Ajzenberg em 30/12/2003 na edição 257

FOLHA DE S. PAULO

“Ano exuberante”, copyright Folha de S. Paulo, 28/12/03

“Os acontecimentos fizeram de 2003 um ano exuberante no que toca a questões fundamentais para o jornalismo:

** A independência da mídia se colocou de modo diferente sob um novo governo. Após uma ?lua-de-mel? entre a maior parte dos veículos e o Planalto, a cena mudou. Houve cobranças, dificuldades no contato, excessos. Lula, dias atrás, proferiu a (polêmica) frase do ano nessa matéria: ?Eu aprendi uma coisa: notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado. O resto é publicidade?.

** A mídia dos EUA viveu um debate semelhante, com a invasão e ocupação do Iraque. Cabe patriotismo no noticiário de uma imprensa crítica? Como a mídia e o Pentágono usaram, cada qual a seu modo, os repórteres ?encaixados? nas tropas?

** Casos históricos abalaram a credibilidade de três das maiores instituições de mídia do planeta.

O primeiro foi o de Jayson Blair, o repórter demitido do ?New York Times?, em maio, após descoberta de fraudes em suas reportagens. O jornal expôs os erros. Fez mea culpa. Uma investigação interna resultou em demissões na cúpula e em mudanças estruturais, dentre elas a adoção de um ombudsman.

Ainda no primeiro semestre, explodiu a crise na BBC, da Grã-Bretanha, com o suicídio de um assessor científico do governo, fonte secreta de um jornalista que teve sua identidade revelada após esse mesmo jornalista ?inflar? suas afirmações sobre o potencial bélico de Bagdá.

No mesmo período, o principal diário francês, ?Le Monde?, sofria acusações, em livros, de condução editorial deturpada por vínculos políticos e econômicos.

** No Brasil, as entidades das empresas de comunicação assumiram a existência de uma crise empresarial e pediram ajuda ao BNDES. Em que pese a falta de transparência com que o tema foi e continua a ser tratado na própria mídia, o gesto expressa, em si, a gravidade da situação.

** Em vários países, em especial EUA e Itália, a discussão, no terreno empresarial, versou sobre propostas de leis que ampliam a chance de concentração da propriedade dos meios de comunicação, com o que isso acarreta de ameaça à pluralidade e à diversidade.

** Dois episódios, de proporções limitadas mas alto valor simbólico, chamaram a atenção para os riscos da crescente ?fusão? entre jornalismo e entretenimento. Foram o ?sarro? de Silvio Santos, que numa revista anunciou estar próximo da morte, e a ?entrevista? do Gugu com supostos membros do PCC.

** Ao longo do ano, a Folha protagonizou tr&eecirc;s casos relativos ao direito da sociedade de ter acesso a informações públicas. Em maio, o tema foram os critérios da prefeitura de São Paulo para fixar valores da taxa do lixo. Em julho, contratos sem licitação do governo do RJ. Em novembro, a verba indenizatória dos deputados federais. Em todos, ante a resistência das autoridades, o jornal fez pedido formal de dados, com base na Constituição. Iniciativa ainda incomum, que abre nova perspectiva ao debate sobre mídia, Poder e transparência.

O ano de 2003 ainda gerou, concretamente, polêmicas sobre ética jornalística, assassinato de repórteres, mistura de jornalismo com publicidade…

Na certa faltaram eventos relevantes nesse resumo. Mas, se fosse ?apenas? isso, não bastaria para um ano só?

***

Entro em férias. A coluna volta em 8 de fevereiro. Nesse período, a secretária Rosângela Pimentel, do departamento do ombudsman, receberá e encaminhará as mensagens dos leitores. Quando necessário, casos serão tratados no meu retorno. Até lá.”

***

“Vendendo o peixe (réplica)”, copyright Folha de S. Paulo, 28/12/03

“Reproduzo a seguir, com autorização do autor, e-mail que me foi enviado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, do Conselho Editorial da Folha, a partir do texto ?Vendendo o peixe?, de domingo passado, no qual abordei criticamente o uso, por parte de colunistas, de seu espaço regular no jornal para divulgar projetos, ações ou empreendimentos que realizam paralelamente à sua atividade na Folha:

?Sem o interesse de polemizar, nem de ver esta carta publicada, mas apenas o de colaborar com a instigante e fértil reflexão de sua coluna, de domingo passado, gostaria, uma vez que fui citado sem ser ouvido, de expor-lhe algumas considerações:

A Cidade Escola Aprendiz, da qual fui fundador, é um laboratório de pesquisas, sem fins lucrativos, em que dezenas de educadores testam programas para melhorar, pelo fortalecimento comunitário, a educação pública. Alguns desses programas foram reconhecidos como modelos mundiais de educação pela Unesco.

Um dos projetos que o Aprendiz ajudou a construir ganhou uma das mais importantes condecorações internacionais destinada a apontar inovações comunitárias, entregue pelo Social Accountability Internacional, em que participam candidatos de todo o mundo.

Neste mês de dezembro, a Cidade Escola foi homenageada como referência nacional no Prêmio Itaú-Unicef, mais importante concurso nacional de programas complementares à educação.

O Aprendiz foi indicado pelo Banco Mundial como uma referência brasileira de inclusão social e consta em estudo de caso feito pelo PNDU, órgão voltado ao desenvolvimento das Nações Unidas.

Sei que, no seu comentário, você não quis entrar em méritos. Sinto-me, porém, obrigado a listar alguns dos prêmios para lhe mostrar uma visão alternativa às suas considerações.
Na sua coluna, você considera inadequado que eu tenha citado o Aprendiz em algum dos meus artigos. A Cidade Escola Aprendiz é um laboratório de experimentações, sem qualquer outro propósito do que o de disseminar tecnologia social. Por que, então, seria inadequado compartilhar, desde que, óbvio, criteriosa e ocasionalmente, eventuais achados desses educadores?

Afinal, tenho procurado relatar em meus artigos experiências, dentro e fora do Brasil, de fortalecimento comunitário. Tamb&eacuteacute;m escrevi sobre projetos que conheci na Universidade de Columbia, em Nova York, onde era acadêmico-visitante e depois do board do programa de educação em direitos humanos.

Em Nova York, fui consultor (não remunerado, assim como no Aprendiz) do Unicef, o que me fez tomar contato com excepcionais programas na África e Ásia. Deveria me omitir de falar dessas descobertas? Minha maior satisfação e sensação de missão jornalística cumprida é ver que muitas dessas informações influenciaram políticas públicas.

A legitimidade da minha coluna ao abordar questões sociais se deve ao fato de que, além de ver, ouvir, ler, participo de experimentações.

Mas admito, como você aponta, que sempre haverá uma linha fina entre promoção e compartilhamento de conhecimento, o que é parte do crônico debate jornalístico sobre os limites da objetividade.

Também admito que sempre haverá a necessidade de atenção especial para quem, como eu, vê a informação, na ótica do jornalismo comunitário, como elemento de educação e se envolve em atividades sociais, colocando a mão na massa, o que encaro como um dever dos cidadãos.

A diversidade e a riqueza dos colunistas não estão apenas na diversidade de opiniões, acadêmicas, mas em suas vivências criativas, feitas de erros e acertos -e minha vivência é a mistura de educação com comunicação, na busca de uma linguagem diferente.

Se tivesse de fazer promoção, bastaria apenas ter divulgado, como estou fazendo agora forçado pelas circunstâncias, os numerosos prêmios que o Aprendiz tem obtido por seus programas. Poderia até ter sugerido que a Folha, como faz com outros prêmios de jornalistas da casa ou que tenham relevância pública, os divulgassem.

Mas isso não aconteceu porque o importante é disseminar conhecimento num país, metido nesse buraco de violência, desesperadamente carente da disseminação de tecnologia social. Esse é o peixe que tento vender para ajudar a ensinar a pescar.?”

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