Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES >   CALHAUS & JORNALISMO

Antônio Brasil

Por lgarcia em 15/07/2003 na edição 233


MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE

“Documentário proibido completa 10 anos”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 11/7/03

“?Muito além do cidadão Kane?, o documentário de Simon Hartog sobre a Rede Globo para a TV britânica está completando 10 anos. Por mais incrível que pareça, continua proibido para aqueles que seriam os principais interessados: os telespectadores brasileiros. Apesar de todas as mudanças em nosso país, o último trabalho de um grande documentarista permanece refém de artifícios jurídicos. Simon Hartog cometeu a ousadia de dirigir seu olhar sobre a nossa televisão e, no Brasil, é muito perigoso mexer com os interesses dos poderosos. A justiça se tornou desculpa para ?censura?. Em contrapartida, criou-se uma grande rede de vídeos piratas, que se encarrega de divulgar de todas as maneiras possíveis o documentário mais proibido do Brasil. Mais uma forma de resistência da guerrilha tecnológica pela Internet. O vídeo costumava ser acessado no site de militantes como o Antenor Camargo Neto, mas, infelizmente, o provedor está temporariamente ?fora do ar?. Mistérios da Internet.

Na época, tive o privilégio de conhecer o Simon Hartog no Brasil. Ela já era considerado um dos mais polêmicos diretores da velha escola britânica de documentários. Pude participar, muito discretamente, da produção e, sinceramente, já previa os problemas. Simon Hartog fazia parte de um grupo de cineastas europeus de avantgarde e de esquerda, que se reuniam na London Coop. Todos estavam envolvidos com a produção de filmes considerados ?sensíveis?. Anos antes de produzir Beyond Citizen Kane, ele já tinha visitado nosso país e realizado ?Brazil: Cinema, Sex and the Generals?, sobre a produção de ?pornochanchadas? durante o período da ditadura.

Sua própria imagem ainda guardava os resquícios de uma cirurgia seriíssima no cérebro. Era impossível desviar o olhar de uma enorme cicatriz. Parecia envelhecido, cansado ou doente, mas determinado a concluir, de qualquer maneira, o que viria a ser seu último filme. Era um homem com uma missão. Ele me impressionou muito pela seriedade e profissionalismo com que se dedicava a um projeto tão complexo e polêmico. Apesar de acreditar no documentário, tinha sérias dúvidas se conseguiria realizá-lo sem as imprescindíveis autorizações globais. Sou testemunha de que ele bem que tentou obtê-las. Solicitou por escrito todas as imagens e as entrevistas necessárias para a produção do documentário e, obviamente, tudo lhe foi negado pela direção da Globo. Sempre digo que fazer jornalismo investigativo ou usar câmeras ocultas no Brasil é bom para os outros ou para os nossos inimigos!

Em conversas pessoais durante os intervalos das gravações, ele sempre demonstrou muita surpresa por nós brasileiros não termos jamais produzido um documentário sobre o poder da Globo. E eu pensava com os meus botões: ?quanta ingenuidade!. Deve ser produto de democracia madura em país com TV pública forte e independente!?. Hoje, no caso da guerra do Iraque, o governo Blair bem sabe o que significa enfrentar o poder do jornalismo de uma TV pública ou independente como a BBC.

Mas o futuro e a Globo garantiriam muitas dores de cabeça e outras ?cicatrizes? para o velho Hartog. Os advogados da empresa tentaram durante longos meses impedir a exibição do documentário na Inglaterra e em qualquer país do mundo. Mas Hartog era um homem com uma missão e não se intimidou com as negativas da Globo. Muito pelo contrário. Ele buscou e encontrou as soluções consideradas ?alternativas? para ilustrar o seu documentário. De qualquer maneira, os advogados da empresa fracassaram e o documentário foi exibido pela primeira vez, com muito sucesso em 10 de março de 1993.

Mas aqui no Brasil, tudo seria diferente. A Globo venceu na justiça e o público brasileiro perdeu. Apesar de algumas tentativas esporádicas, continuamos reféns de sutilezas legais que nos impedem de ver o único documentário produzido sobre o poder da Rede Globo. Estamos impedidos de assistir a depoimentos brilhantes de personalidades como Chico Buarque, Leonel Brizola e Washington Olivetto, e tantos outros que conheceram na pele o poder da Globo.

Em tempos de promessas de mudanças, com a Globo apoiando as reformas do governo Lula e precisando muito da boa vontade do governo e de muito dinheiro público para evitar a falência, também seria bom lembrar ao dirigentes do partido no poder, uma pequena notícia publicada no jornal O Estado de S.Paulo de 09/06/1993. Recordar é viver:

?PT mostra na Câmara documentário da TV inglesa sobre a Globo

(Brasília, 9/6/93). A fita de vídeo ?Brasil: Além do Cidadão Kane?, documentário produzido pela televisão inglesa ?Channel Four? sobre a Rede Globo, foi exibida hoje no espaço cultural da Câmara dos Deputados para uma platéia formada por políticos e jornalistas. A sessão foi promovida pelo PT e o deputado Luiz Gushiken (PT-SP), que conseguiu a fita na Inglaterra e encaminhou hoje uma cópia do programa para a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara.

Com base no documentário, que denuncia as ligações da Globo com os militares, Gushiken vai encaminhar uma representação à Procuradoria-Geral da República para que a emissora do empresário Roberto Marinho seja enquadrada no artigo 220 da Constituição, por formação de monopólio e oligopólio…?

É, o mundo dá mesmo muitas voltas! Quem diria, hein? Os partidos e os políticos mudam, mas a verdade é que o vídeo de Simon Hartog continua ?censurado?. Trata-se de um documento fundamental para entendermos o Brasil e a nossa TV. Uma referência importante para a formação das novas gerações de brasileiros e de jornalistas que não têm a menor idéia do passado do nosso principal meio de comunicação.

O documentário envelheceu, mas ainda contém uma coletânea de informações preciosas sobre a História da TV brasileira. É uma visão de um cineasta estrangeiro de um Brazil com Z. Mas a vantagem é que o Simon Hartog não tinha sido ?hipnotizado? ou se intimidado pelo poderio das imagens da nossa televisão. Hartog, certamente, estava ?muito além do nosso cidadão Kane?. Como era de se esperar, ele morreu alguns meses após a exibição do seu polêmico documentário. Para nós brasileiros, espero que tenha valido a pena.”

 

JORNAL DA IMPRENÇA

“Conheçam O Progresso!”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 10/7/03

“Nosso considerado Carlos Marchi ficou tão espantado com o jornalismo do chamado ?Fundão do Brasil? que nos enviou a seguinte mensagem:

?Estava num hotel em Campo Grande (MS) e lia O Progresso, de Dourados (MS), da quinta-feira, 3 de julho, quando bati de frente na notícia.

Na capa, uma chamada grande noticiava a morte do ex-vereador de Dourados e ex-prefeito de Douradina, Antônio Prechitko. A matéria interna tinha uma foto grande do velório, na qual foi inserida uma ?janelinha? com a foto do ex-vereador sorridente.

A legenda da foto era:

?O filho do prefeito Prechitko no velório do pai. Na foto pequena, o prefeito quando vivo?. É mole??.

Danou-se, Marchi!!! Né mole, não!!!

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Mais longe que Bangu

No Correio Braziliense de 8 de julho, sob o título Olimpíadas 2012, a implacável caneta vermelha de nosso diretor Roldão Simas Filho assinalou, indelevelmente:

?(…)Da mesma forma, Nova York fica com a candidatura fragilizada, pois a cidade está relativamente próxima a Vancouver?.

Roldão, viageiro compulsivo que conhece o mundo inteiro e também sabe com quantos quilômetros se conta a maratona, enviou carta ao jornal: ?Nova York fica na costa leste dos EUA. Vancouver fica na costa oeste do Canadá. Ficam em países diferentes e estão separadas por mais de 4.000 km. Mas, como disse Einstein, tudo é relativo.?

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Tamos na Segundona

A propósito daquele estudo mundial que comparou a competência de 41 países na área da educação, estudo promovido pela Unesco e a OCDE, escreveu a Indispensável: ?O levantamento comparou estudantes em três habilidades básicas, leitura, matemática e ciências. Os organizadores selecionaram um grupo de alunos de escolas públicas e privadas de cada país, todos na faixa dos 15 anos(…) Para desolação dos condutores da educação nacional, o Brasil apresentou um desempenho lamentável. Na prova de leitura, os brasileiros ficaram em 37? lugar, à frente apenas da Macedônia, da Indonésia, da Albânia e do Peru?.

Mais desolado que os ?condutores da educação nacional?, Janistraquis suspirou: ?Considerado, o pior de tudo é que ainda ?conquistamos? o quadragésimo lugar em matemática e ciências; e se perguntassem à rapaziada onde ficam Macedônia, Indonésia, Albânia e Peru, teríamos amargado um dos últimos lugares também em Geografia. Uma verdade precisa ser dita: o Brasil já está à beira da Segundona?. É verdade; afinal, das quatro seleções acima, com certeza nenhuma chegará à Copa de 2006.

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A morte de Bin Laden

Nosso leitor Marco Antonio F. Schuster enviou recorte de O Sul, jovem e, certamente por essa razão, atrevido e açodado jornal de Porto Alegre, criado há dois anos. Pois num desses sábados, quando não se tem muito o que fazer, O Sul publicou sensacional titulaço: Bin Laden morreu em dezembro de 2001. No meio da página, foto do homem mais procurado do mundo, mais até do que Sadam Hussein. Seria um furo internacional já que ninguém ainda tivera peito de noticiar a morte dele. Entusiasmado com o banho jornalístico, Marco Antonio foi verificar e juntou a decepção ao churrasco familiar: o jornal simplesmente assumia como verdade definitiva a opinião de uma historiadora francesa em entrevista ao Le Figaro.

Janistraquis adorou:

– Considerado, não tenha dúvida de que o Bush vai assinar o jornal.

– Qual? O Sul?

– Nããããããão… Le Figaro!

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Até sangrar

O diretor de nossa sucursal paulistana, Daniel Sottomaior, cujo texto passei a respeitar mais ainda depois da monstruosa besteira que cometi na coluna da semana passada, despachou a seguinte nota:

Sob o título Reforma da British Airways pode ser exemplo para reduzir custos na aviação, lia-se no Wall Street Journal Americas, reimpresso pelo Estadão, que a empresa ?teve de replicar o gerenciamento de bagagens e outras caras operações em vários pontos do aeroporto?. Essa foi uma tradução literal e errada de ?replicate?, pois o significado ?repetir-se? em português só acontece com a transitividade reflexiva. Além disso, existem saídas muito mais naturais como ?repetir?. Só no filme Blade Runner essa tradução funcionou porque dava a impressão dupla de reproduzir e de implicar, ou contestar, ao mesmo tempo.

Pouco adiante o jornal escreve que a recessão ?feriu? as companhias aéreas. Coitadas, será que elas sangraram? Ficaram magoadas? Foi uma óbvia tradução de ?hurt?, que em inglês se aplica a qualquer nome, mas não em português. Em nossa língua só se ferem princípios, pessoas, etc. Companhias são prejudicadas mesmo.?

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Bola fora

Ao noticiar quão indigesto fora o jantar dos políticos, após a sessão secreta que manteve o mandato do deputado Sérgio Benevides, do PMDB, escreveu o Diário do Nordeste, de Fortaleza: ?(…)Jaziel Pereira foi o único, além de Carlomano Marques e Pedro Uchoa que defenderam a não cassação de Benevides?. Celso Netto, diretor de nossa sucursal cearense, que estreou na semana passada com uma nota do mesmo jornal, garante que não anda a perseguir o Diário: ?Acontece que o pessoal da Redação perde mais gols do que o craque Clodoaldo, do Fortaleza?, explicou. Janistraquis, torcedor do Ferrim, discorda: ?Considerado Netto, o Clodoaldo perde muito mais gols do que qualquer jornalista do Ceará!!!?. É mesmo muito azar; se não perdia, o craque danou-se a perder; e quando marca, como fez ontem à noite no Mineirão contra o Cruzeiro, o juiz passa-lhe a perna e anula o gol legítimo.

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Mulato inzoneiro

Especialista na tal ?engenharia financeira?, faceta que desconhecíamos até então, Ancelmo Gois escreveu as seguintes notinhas em sua abalizada coluna:

?País da usura I: Um agiota engravatado faz ponto no 10o andar do prédio do Posto de Assistência Médica da 13 de Maio, no Centro do Rio. A cena é patética. O usurário fica numa mesinha no corredor do prédio, oferecendo ?dinheiro barato? aos funcionários. E o pior é que forma fila.

País da usura II: Netinho continua como garoto-propaganda do Banco Zogbi, que omite altos juros cobrados. Quando o assunto surgiu aqui, em abril, o cantor disse que não pactuava com isso e prometeu tomar providência. Não tomou. Em média, estas financeiras anunciadas por ídolos como Netinho, Faustão e Leonardo cobram juros de 323% ao ano.?

Janistraquis, que nunca aprendeu tabuada, porém passou uma fome de lascar no sertão de Pernambuco, como o Presidente Lula, e mais tarde foi dono de carro a álcool, estranhou o preconceito do colunista: ?Considerado, pra se denunciar o agiota é preciso saber quanto ele cobra de juros, né mesmo? Agora, se a questão envolve apenas moralismo de classe média, muda-se o nome da profissão do homem; em vez de agiota, usurário, essas coisas, vamos chamá-lo de ?onzeneiro?, como antigamente. Assim, onzeneiro se confunde com usineiro e o ?criminoso? de agora será o herói de amanhã!?. Faz sentido.

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Nota dez

O melhor texto da semana é uma obra-prima nascida da saudável intransigência de um torcedor do Botafogo, o colunista Roberto Porto, do Jornal dos Sports:

?Uma vez mais repito que Zizinho foi um extraordinário jogador e que merece todas as homenagens daqueles que são ligados ao futebol. Menos a de emprestar seu nome a um estádio cedido ao Botafogo. A não ser que a praça diante do Estádio da Gávea passe a ser chamada de Doutor Heleno de Freitas.?

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Errei, sim!

?Ó SEBASTIÃO… – Pensamento pescado na coluna de Joelmir Beting: ?Saber perder é burrice. O negócio é saber ganhar (de Sebastião de Pádua Lima – Tim, técnico de futebol)?. Janistraquis comentou: ?Considerado, o Joelmir criou um híbrido nascido das relações entre Sebastião Lazaroni e Elba de Pádua Lima, verdadeiro nome do falecido Tim?. É verdade; Tim chamava-se Elba, assim como a Ramalho.? (fevereiro de 1992)”

 

CALHAUS & JORNALISMO

“O bacalhau e as modelos”, copyright Folha de S.Paulo, 12/07/03

” Houve tempo em que os jornais, sobretudo os pequenos, sem recursos de fotografia e de clicheria, usavam aquele pescador que trazia nas costas um enorme bacalhau, anunciando o óleo de fígado, não do pescador, mas do bacalhau. Era uma panacéia, que fortificava os fracos e tornava os fortes mais fortes.

A publicidade era grátis, servia apenas para compor a diagramação da página, ventilando a pesada massa de texto, geralmente composto com tipos irregulares.

A computação gráfica aposentou o pescador e o bacalhau -acho até que ninguém mais apela para o miraculoso fígado do bacalhau e para o seu tonificante óleo.

Mesmo assim, com todos os recursos da eletrônica, os jornais continuam apelando para um outro tipo de clichê a fim de amenizar a feiúra dos governantes, a aridez dos economistas, a violência das cenas no Oriente Médio e nas ruas de nossas cidades. São as modelos, que aparecem em trajes que o lugar-comum chamaria de íntimos, mas que se tornaram públicos.

Não tenho certeza, mas acho que foram os borracheiros que associaram o corpo das vedetes boazudas, de imensas e rotundas coxas, aos serviços de emergência que prestavam aos motoristas que tinham pneus necessitados de um viagra pneumático.

Colunistas de amenidades, como o Stanislaw Ponte Preta, adotaram o mesmo processo e colocavam ?as dez mais? como vinhetas obrigatórias de suas piadas. Era uma vinheta agradável, própria dos segundos cadernos da vida.

Atualmente, devido à feiura de nosso cotidiano, as primeiras páginas dos cadernos mais nobres trazem a vinheta que substitui, com vantagem, o pescador que carregava nas costas um peixe com seu miraculoso fígado, cujo óleo nos dava uma energia suplementar. Uma modelo será sempre melhor do que um reles bacalhau. Mas, eficiência por eficiência, sou mais pelas vênus dos borracheiros.”

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