Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > SAÍDAS PARA A MÍDIA

Antônio Brasil

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

OBITUÁRIOS NA IMPRENSA

"Os obituários na TV", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 8/08/03

"A imprensa brasileira está de luto. As manchetes destacam a morte ?anunciada? do empresário Roberto Marinho, o nosso ?muito além do cidadão Kane?. Apesar de sempre previsível, a morte insiste em nos surpreender. Mas alguns jornalistas e profissionais de informação, arquivistas ou bibliotecários, têm como uma de suas principais tarefas manter atualizados os obituários das celebridades. Parece um trabalho meio macabro, mas alguém tem quem se encarregar de suprir as nossas redações jornalísticas com o material de apoio necessário para que possamos homenagear os nossos mortos famosos.

Numa longa série de ?encontros e desencontros? pessoais no jornalismo de TV, tive a oportunidade de conviver com as dificuldades e constrangimentos desse tipo de trabalho.

Eram os anos de chumbo. Primeiro emprego, logo na Globo, com apenas 19 anos, para mim, tudo era festa. Anos de pioneirismos e desafios, o JN não tinha sequer completado 5 anos. A improvisação e a falta de um ?padrão de qualidade? permitia algumas ousadias e a oportunidade de fazer um pouco de tudo. Para um jovem que gostava de TV e cinema, todo dia era uma surpresa ainda maior. Nem todas boas, é claro. As pautas estavam cada vez mais censuradas e a lista de personalidades cassadas pelo regime ou consideradas ?vetadas? pelos donos da empresa aumentava de forma assustadora. Fazer jornalismo diário na TV era um desafio enorme!

Chego na redação e o chefe de reportagem vai logo dizendo: ?Brasil pega a câmera sonora e vai ?sozinho? gravar o ex-presidente Juscelino Kubistcheck na cidade?. Não resisto à tentação ou o risco de contrariar a chefia e pergunto: ?Mas o Juscelino não é cassado??. A resposta vem de imediato, com a frieza e indiferença dos velhos chefes de reportagem: ?Não enche o saco, Brasil. É para o obituário do homem. Mas não diz nada. Vai lá e grava tudo que ele disser para os outros jornalistas que estarão presentes na coletiva?.

Lá fui eu, sem lenço, repórter ou documento, carregando uma tralha enorme, precursor contrariado do que um dia seria considerado uma técnica polêmica de fazer TV: o videojornalismo solitário.

Mal chego no escritório do ex-presidente, que na época de ostracismo ou exílio interno dirigia uma grande empresa financeira, e sou indicado a seguir em frente. Para minha surpresa, o próprio Juscelino, muito simpático, abre a porta e, com enorme sorriso, pergunta ao jovem jornalista: ?De onde você é??. Respondo: ?Da Globo, senhor presidente?. Sem perder a simpatia, o velho político comenta: ?Mas meu filho, você não sabe que eu sou cassado? Não posso aparecer na TV?.

Ainda mais constrangido e sem graça, esboço um leve sorriso e fico completamente mudo. Não tenho coragem de anunciar a verdadeira razão da minha presença. Segue-se um longo silêncio que durou alguns segundos, para mim uma eternidade, e o comentário inevitável, mas ao mesmo tempo surpreendente. Juscelino sabia tudo de comunicação: ?Já sei meu filho, você veio até aqui para fazer o meu… obituário!?.

Meu mal-estar, constrangimento e sorriso amarelo dispensavam maiores comentários. Não sabia o que dizer. Ele me deu um grande abraço, me ajudou a carregar o equipamento, disse que não tinha qualquer problema e que eu me sentisse à vontade. Considerei impossível, mas também pensei que era o meu trabalho. Alguém tinha que garantir as imagens de uma celebridade que, assim como todos nós, também poderia morrer a qualquer momento.

Para minha surpresa, tive uma das melhores tardes de toda a minha vida. Coloquei a câmera no tripé, microfone na mesa, sentei com os demais ?jornalistas? e conversamos sobre quase tudo. Político das antigas, Juscelino sabia como ninguém contar boas histórias e entreter os profissionais da imprensa. Adorei cada segundo. Jamais esqueci aquele dia.

Alguns meses mais tarde, em condições até hoje consideradas no mínimo suspeitas, morria o ex-presidente Juscelino Kubistcheck, em acidente automobilístico. Jamais tive acesso àquelas imagens e nunca soube sequer se utilizaram a entrevista no obituário do velho presidente. Continuo sempre pensando nos jornalistas e profissionais de informação encarregados de manter atualizados os obituários das nossas celebridades. É um trabalho difícil, mas necessário. A morte insiste em nos surpreender, mas é sempre um grande assunto para a TV."

 

SAÍDAS PARA A MÍDIA

"Um futuro para a imprensa", copyright Folha de S. Paulo, 8/08/03

"Quando ?O Globo? foi lançado, em 1925, o Rio, então capital da República, tinha 27 jornais diários. Dois já se destacavam e assim permaneceriam nas décadas seguintes: o ?Jornal do Brasil?, fundado em 1891 já em bases empresariais e que dominava o mercado de classificados, e o ?Correio da Manhã?, fundado em 1901 e principal trincheira de resistência ao longo de vários regimes autoritários.

Em São Paulo, onde a liderança era de ?O Estado de S. Paulo? (nascido ?A Província de S. Paulo? em 1875), foi lançado, naquele mesmo 1925, a ?Folha da Manhã?, mais tarde Folha de S.Paulo.

Estava, assim, desenhado, na década de 20, o esboço do que mais tarde, a partir da década de 70, se convencionou chamar de grande imprensa: ?JB? e ?O Globo?, no Rio; ?Estado? e Folha, em São Paulo.

Nestes quase 80 anos, a imprensa se modernizou e viveu, como outros setores da economia, o fenômeno da concentração. Vários impérios e diversos títulos de prestígio se desmancharam no ar. Marinho assistiu ao ocaso de grandes grupos concorrentes, como os Associados, de Assis Chateaubriand, a Manchete, de Adolfo Bloch, o ?Correio da Manhã? e o ?Jornal do Brasil?.

Sua morte ocorre num momento difícil para as Organizações Globo e para toda a indústria jornalística, que sofre com as quedas de leitura e audiência e está perigosamente endividada. A crise financeira sem precedentes provocou um furacão nas Redações, com demissões e cortes de investimentos que afetam a qualidade dos produtos.

A grande questão é saber se é uma crise conjuntural e, portanto, passageira, ou se é estrutural, ou seja, mais profunda do que podemos divisar e pode afetar a essência do jornalismo, a credibilidade."

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