Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA NA COPA

Anunciantes de cabelo em pé e jornalismo de pé atrás

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

MÍDIA NA COPA

A Fifa divulgou na segunda-feira, 24/6, um balanço ufanista
da Copa da Ásia, distribuído em Seul pela KirchSport
AG. Essa empresa detém os direitos de transmissão
dos jogos, de marketing e de vendas deste evento e do de 2006. Para
quem não ligou o nome à pessoa, é subsidiária
da KirchMedia, aquele grupo alemão que faliu dois meses antes
do Mundial. Essa informação não consta do release,
que só fala de coisas lindas e boas. Mas levanta algumas
lebres que devem estar deixando os anunciantes de cabelo em pé
e as empresas jornalísticas muito, muito preocupadas.

A lebre mais cabeluda é que a Copa na Ásia mudou os padrões de acompanhamento dos jogos: "O povo assistiu às partidas fora de casa em números recordes", anuncia. Na Inglaterra, no jogo contra a Argentina, por exemplo, 43% dos telespectadores estavam fora de casa, embora cálculos mais conservadores avaliem este índice em 25%. A audiência em telões reuniu 2,8 milhões de pessoas em 223 diferentes locais na Coréia, na partida com Portugal, e 4,2 milhões, com a Itália. A audiência nos locais de trabalho, particularmente na Europa, chegou a 10% da audiência total.

O fenômeno se repetiu em todo o mundo, e tende a crescer. O que pensarão disso os anunciantes, que pagam muito dinheiro para que seus comerciais sejam vistos calmamente durante os jogos? Quem presta atenção em comercial se está vendo o jogo em plena farra dos bares e dos telões de rua? E para o jornalismo, quais as conseqüências? Quem quer reportagens ou análises em meio à balbúrdia das torcidas?

O texto não trata desses eventuais futuros desastres, é claro. "À medida que a Copa do Mundo caminha para seu clímax", diz o release, "transforma-se num fenômeno mundial de audiência 24 horas por dia, sete dias por semana". É o caso de se perguntar: por estarem baseados em Seul os assessores de imprensa da Fifa não perceberam que no Japão, por exemplo, a Copa não pegou? Pelo menos é o que dizem jornais de vários países. Segundo a KirchSport, a experiência inovadora de promover a Copa na Ásia proporcionou uma resposta inédita dos telespectadores em todos os continentes. "Muitos recordes de audiência foram quebrados, embora os jogos na Europa e nas Américas tenham ocorrido fora do horário nobre.". Há que se reconhecer: "fora do horário nobre" é um belo eufemismo para manhã cedo e madrugada.

Na Europa, o jogo Itália x Coréia teve audiência de 42% (23,6 milhões de pessoas), com 89% de share (o número de aparelhos sintonizados no mesmo evento, no mesmo horário). O jogo Espanha x Irlanda teve índice de audiência de 26,6%, com 10,5 milhões de telespectadores, e share de 81%. Alemanha x Paraguai, 18,1 milhões de telespectadores, ou 25,4% de audiência e share de 88%. A audiência dos jogos da Inglaterra superou todas as transmissões esportivas inglesas de 2001. A vitória sobre a Argentina atraiu 11,9 milhões de pessoas, e teve pico de share de 86%, enquanto até 24 milhões de pessoas viram o jogo em pubs e escritórios. Inglaterra x Brasil reuniu 13,1 milhões de telespectadores para a transmissão da BBC ? sem contar a audiência fora de casa. O jogo contra a Dinamarca, porém, teve mais público: 15,6 milhões de pessoas.

Pior, só Atlanta

Os números da audiência no Brasil, os últimos no release da KirchSport (atrás até dos da Ásia), são: no jogo contra a Bélgica, 50 milhões de telespectadores, share de 91%. Brasil x China, 52,4 milhões, share de 92,8% (Fonte: Fifa Marketing/Sponsorship Intelligence).

Na China, o jogo contra o Brasil teria reunido mais da metade da população urbana acima de 4 anos, ou seja, 108 milhões de pessoas. Somando a audiência de canais regionais, 330 milhões de chineses. Para alívio da Fifa. Quem sabe virá mesmo da Ásia o dinheiro para compensar o rombo em torno de 110 milhões de dólares nos cofres da entidade?

Se a Copa não pegou nas ruas, pelo menos na TV o Japão correspondeu: 62,3% viram os jogo com a Rússia ? a maior audiência de evento esportivo no país nas últimas três décadas; e 33 milhões viram a Turquia eliminar a seleção japonesa, com share de 82,2%.

Mais de 30 milhões viram o jogo em que a Coréia eliminou a Itália. "Se faltava uma prova do apelo do futebol em ambos os sexos, a Coréia é esta prova: na audiência adulta de Portugal x Coréia e Coréia x Itália, 55% eram mulheres." A fonte é a mesma Fifa Marketing/Sponsorship Intelligence. Agora, como se pôde tirar esta conclusão é um mistério.

A vitória dos EUA sobre Portugal, na ESPN2, "teve a maior audiência de futebol de todos os tempos no país, embora o jogo tenha sido exibido às 5 da manhã", diz o release. Os números? Ah, leitor, isso a KirchSport não informa. Teriam sido uns 5 mil gatos pingados? México x EUA, exibido por Univision e Telefutura para o público hispânico nos EUA às 2h15 (horário da Costa Leste), conseguiu o feito de atrair 4,16 milhões de pessoas!

O release se supera no final: "A atmosfera de celebração, a audiência compartilhada, a soberba organização (sic), a extraordinariamente calorosa acolhida aos torcedores são marcos de uma Copa do Mundo diferente de qualquer outra, confirmando a decisão da Fifa de quebrar a tradição e dar à Ásia a oportunidade de sediar o evento". Opinião geral: poucas vezes se viu uma Copa tão desorganizada como esta, só comparável à bagunça dos Jogos Olímpicos de Atlanta. (Marinilda Carvalho)

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