Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Apuração com charme e champanhe

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

IMPRENSA FRANCESA

Matéria interessante do dossiê é dedicada à
opinião dos correspondentes internacionais sediados em Paris
sobre os colegas franceses, sob o título "Parece que
estamos na corte de Versalhes". Os anglo-saxões relutaram
em falar, por conta da parcialíssima Fox News e do farsante
Jayson Blair nos Estados Unidos e dos tablóides sensacionalistas
na Inglaterra. "Não estamos em posição
de julgar", alegaram. Mas quando afinal falaram… "doeu",
revela o Observateur. Porque americanos e britânicos
percebem nos franceses uma reverência e um respeito notáveis
pelo poder. Uma entrevista do presidente à TV, no 14 de Julho
(dia nacional da França) ainda o deixa siderados.

Compartilham da opinião dos correspondentes do Guardian
(Londres) e do Washington Post (Washington) colegas do Spiegel
(Hamburgo), do Libre Belgique (Bruxelas), do El Mundo
(Madri): "Incrível, parece Versalhes, tamanha a
complacência".

Os franceses jamais arriscariam fazer 13 vezes a mesma pergunta
a um ministro relutante, como na Grã-Bretanha. Aqui, os franceses
aceitam enviar previamente as perguntas, e apresentar o texto para
revisão depois. "É possível permitir uma
releitura sobre pontos técnicos, mas isso jamais é
sistemático", critica Cristina Frade, correspondente
de El Mundo. "Na França, os jornalistas consideram
os políticos como amigos", disse um americano. "Com
eles, é confidência em off, champanhe e salmão
defumado."

"A concepção da imprensa é muito diferente
na França", afirma John Henley, correspondente do Guardian.
"O sonho de todo jornalista britânico é conseguir
uma informação que derrube um ministro ou o governo."
Para Romain Leich, do Spiegel, se o presidente diz "silêncio"
não se ouve mais uma palavra sobre alguma notícia
escandalosa. "O potencial de indignação cívica
parece um pouco fraco na França."

Também chama atenção a propensão a
comentar tudo, a romancear tudo, a misturar fatos e análise,
a recorrer sistematicamente a sociólogos e psicólogos,
a abusar de adjetivos e advérbios. "Parece que um bom
número de jornalistas franceses é escritor frustrado",
diz Nick Spicer, da americana NPR (National Public Radio). "Além
disso, passam todo o tempo se autoflagelando, reclamando da profissão."

"Em suma, todo o charme dos franceses", ironiza o Observateur.(Marinilda
Carvalho)

1)
Eles são poderosos?

Em comparação aos indivíduos, é evidente.
Mas o poder dos jornalistas incomoda peixes grandes (políticos
e empresários). Mesmo que no fim o balanço de seu
trabalho contra os desvios seja minimizado nos tribunais, a profissão
ganhou em capacidade de intimidação. Isso não
significa que o poder da mídia seja maior do que todos os
outros. Frente a interlocutores determinados ou que nada mais têm
a perder a relação pode se inverter. Na realidade,
os jornalistas pesam mais pela fraqueza dos demais poderes.

2)
Eles escondem o que sabem?

A concorrência entre veículos e a competição
entre jornalistas deixam pouco espaço a uma pseudo omertà.
A autocensura é freqüentemente justificada pelo respeito
à vida privada ? por exemplo, o silêncio sobre Mazarine,
a filha oculta de Mitterrand. Outra mordaça: o respeito à
presunção de inocência. E há ainda os
batalhões de advogados, uma chuva de direitos de resposta
e de processos por difamação, que exigem prudência.
A exigência do respeito ao direito da pessoa é indispensável,
mas igualmente uma arma de intimidação cada vez mais
usada, por vezes antes mesmo da publicação das matérias.

3)
Eles são amigos dos poderosos?

Acontece. A amizade entre jornalistas e homens de poder não
é entretanto considerada uma falta deontológica em
todas as redações. Os problemas ocorrem sobretudo
com os que estão na profissão por uma questão
de carreira, e não de vocação.

4)
Eles estão a serviço dos acionistas de seus veículos?

O conflito entre os grandes interesses financeiros e a mídia
ocorre na França como em nenhum outro lugar, exceto, talvez,
a Itália. É um festival: Dassault (Le Figaro,
L?Express), Pinault (Le Point), Arnault (La Tribune),
Bouygues (TF1), Suez-Lyonnaise des Eaux (M6), Vivendi (Canal+) ou
Lagardère (Match, Télé 7 jours,
JDD, Elle), sem esquecer Jérôme Seydoux
(Libération) e outros que desenham uma paisagem barroca
onde se confundem sem complexos os interesses mais contraditórios.
Deve-se concluir que os jornais dos grupos industriais são
amordaçados? Que a chama da liberdade de imprensa só
existe na TV pública ? paradoxo! ?, no Monde, no Parisien,
em Echos, Capital, Canard Enchaîné,
Marianne, Nouvel Observateur e alguns outros, que
foram o último punhado de jornais financeiramente independentes
da grande indústria? Não. Pois as redações
têm vida própria, uma autonomia ligada a sua cultura,
a sua história, e os proprietários são os primeiros
a descobrir isso.

5)
Quem lhes paga?

"Um jornalista só pode aceitar salários ou vantagens
da empresa de imprensa com a qual colabora", proclama o código
da profissão. É o caso da maioria dos 35 mil profissionais.
E seu salário médio de 2.600 euros por mês não
lhes permite fazer parte da elite francesa, como muitos acreditam.
É na verdade uma profissão em vias de pauperização,
tanto se multiplicam os estágios não-remunerados,
o uso sistemático de pigistes [free-lancer fixo, remunerado
por tarefa, situação prevista pela lei na França],
que representam 20% da profissão. A visão é
deformada pela situação dos grandes jornais parisienses
e dos apresentadores de TV. No alto da pirâmide reina um pequeno
número de jornalistas-estrelas, de alta renda.

6)
Eles são manipulados?

A evidência é ensinada em todas as escolas de Jornalismo:
não foram apenas os jornalistas do Washington Post
que derrubaram Nixon, mas também sua "Garganta Profunda".
O jornalista é um cano, não existe sem suas fontes.
E estas raramente são neutras: querem fazer valer um ponto
de vista, destruir um concorrente, paralisar um inimigo, responder
a um ataque, promover-se, vingar-se etc. Daí a importância
do trabalho em equipe: numa redação, cada um tem seus
interlocutores privilegiados. É preciso portanto cruzar as
fontes, confrontar as informações ? coisa que as rivalidades
internas impedem com freqüência. Além disso, em
poucos anos a comunicação passou de uma simples técnica
de influência a uma verdadeira indústria da informação
orientada.

Além disso, os anunciantes sabem jogar com a ameaça
de cancelar os orçamentos, uma vez que a publicidade garante
quase a metade dos custos da imprensa escrita, e mais de 70% de
uma TV como TF1. Todos os veículos já sofreram tal
pressa. Alguns resistem ? como o Observateur ? outros não.

7)
Eles são competentes?

Muitos os vêem como um bando de impostores e ignorantes.
Irritam-se com as aproximações, os números
errados, os erros de data e de nome. Mas nunca se cometeram tão
poucos erros, porque a categoria nunca foi tão bem formada.

8)
Eles têm meios para se informar?

O próprio surgimento da expressão "jornalismo
de investigação", que é um pleonasmo absoluto,
revela bem as fraquezas atuais da apuração. A queixa
"faltam recursos para apurar direito" nunca foi tão
forte entre os jornalistas. As redações, submetidas
a exigências crescentes de rentabilidade, trabalham com prazos
cada vez mais curtos. Quantas podem hoje deixar um jornalista apurar
várias semanas uma pauta, sem garantia de resultado? Falta
de meios também é desculpa da preguiça: poucos
querem ir à cozinha, onde está a informação.
Resistir às pressões, investigar sem nada encontrar
semanas a fio, encarar a inveja e a incompreensão dos colegas,
o constrangimento ou a censura dos chefes: a investigação
exige determinação e energia consideráveis.

9)
Eles são como repetitivos como carneiros?

O mundo da mídia dá por vezes a impressão
de ser uma vasta indústria de reciclagem, como se sofresse
desesperadamente com a falta de imaginação. o peso
da publicidade e do marketing sobre uma imprensa de baixa rentabilidade
reforça o conformismo. De olhos na circulação,
surgem cadernos e suplementos para buscar anunciantes, e sempre
sobre temas consensuais, para atrair o grande público, e
sempre seguindo os mesmos conselhos: o público é cada
vez mais influenciado pela TV, escreva curto, privilegie o visual,
os temas práticos, o glamour, o divertimento. Como se a realidade
em 2003 devesse ser um produto sedutor e a atualidade, enfim, feliz?

10)
Eles são intocáveis?

É uma queixa freqüente, mas a França dispõe
de um arsenal de leis para proteger o cidadão dos jornalistas,
em matéria de difamação ou de invasão
de privacidade. Nas redações, contudo, as sanções
são raras e quase nunca públicas. Nas derrapadas,
lava-se a roupa suja em família. (Marinilda Carvalho)

Os profissionais

**
Jornalistas: 35.270 (contra 6.836 em 1955)

**
Sexo: 60% de homens, 40% de mulheres

**
Idade média: 42 anos

**
Pigistes: 20% (contra 5% em 1955) .

**
Salários: 35% dos pigistes ganham entre 762
e 1.525 euros (bruto) por mês

**
50% dos assalariados da imprensa nacional ganham entre 2.287
e 3.811 euros (bruto) por mês

**
30% dos assalariados ganham mais de 3.811 euros (bruto) por
mês

**
Taxa de desemprego: 4%, dados de 1999 (muitos desempregados
se declaram pigistes)

A atividade

**
Na imprensa escrita: 72,8% (áreas especializadas:
33%; reportagem local: 20%; cobertura nacional: 8%).

Televisão: 12,4%.

Rádio: 8,5%.

Agências de notícias: 6%.

Fonte: Revista Hermès n? 35: "Os jornalistas
ainda têm poder?"

(Marinilda Carvalho)

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