Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA NO AFEGANISTÃO

Apuração de menos, mitos a rodo

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

MÍDIA NO AFEGANISTÃO

Deus é inocente, de Carlos Dorneles, Editora Globo, São Paulo, 2002, pp. 276. Preço: 32

Livro de estréia do repórter Carlos Dorneles, da TV Globo, Deus é inocente não absolve a imprensa. O jornalista analisou durante um ano a cobertura da Guerra do Afeganistão nos principais jornais (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Jornal do Brasil) e revistas (Época, IstoÉ e Veja) do país, e também em veículos e agências de notícias internacionais. A conclusão de Dorneles é que a imprensa pouco apurou os fatos e repassou acriticamente ao leitor as verdades impostas por Washington.

“O livro procura desconstruir uma série de mitos criados pela mídia ocidental, sob pressão do governo americano, como o que diz que os Estados Unidos declararam guerra ao Afeganistão após o atentado ao World Trade Center, provocado por fanáticos islâmicos que invejam a prosperidade do Ocidente”, diz Dorneles.

Segundo ele, “o que se nota é uma total falta de apuração por parte da imprensa, algo que contradiz seu papel e seus propósitos”. Para Dorneles, “o massacre e o monopólio ideológicos da mídia ocidental sempre ocorreram de forma sutil mas, a partir de 11 de setembro, tornaram-se gritantes”.

Para a opinião pública

Como exemplo ele cita o caso do antraz: “A chamada guerra biológica ganhou as manchetes de jornais e revistas, sempre remetendo à idéia de que os Estados Unidos estavam sendo novamente aterrorizados pelo mundo islâmico.” Quando as pesquisas mostraram que o perigo estaria dentro dos Estados Unidos, “o assunto simplesmente desapareceu da mídia”, lembra. Para Dorneles, esse caso ilustra bem o apoio da imprensa à hegemonia política americana.

“A imprensa é facilmente manipulada pelo poder”, diz Dorneles. Apura cada vez menos as informações, em especial dos fatos internacionais. Segundo ele, as verdades transformam-se com o tempo. “Como há uma grande falta de memória de quem lê jornais, isso acaba passando despercebido.” Para o autor, a imprensa vende ideologias, modifica a imagem de pessoas segundo interesses políticos, publica fatos não comprovados, transforma religiões e povos em ameaça a toda a civilização. Um capítulo é dedicado à cobertura do Washington Post e do New York Times. “Esses jornais assumiram sempre uma postura extremamente preconceituosa: conseguiram transformar Bush num verdadeiro estadista e bin Laden no maior rival da América.”

Gaúcho de Cachoeira do Sul, Carlos Dorneles nasceu em 2 de janeiro de 1954. Formou-se em jornalismo pela PUC-RS, e iniciou a carreira em Porto Alegre, no jornal Folha da Manhã, trabalhando depois no jornal Zero Hora e na RBS TV. Começou na Globo em 1983 como repórter, depois foi correspondente em Londres (1988-1990) e Nova Iorque (1991-1992). Hoje é repórter especial em São Paulo. Recebeu três vezes o Prêmio Wladimir Herzog: em 94, com a matéria “Por que morrem os jovens em São Paulo”, sobre crimes impunes na periferia; em 95, com “A mortandade de jovens no trânsito de São Paulo”; e em 97, com “As fraudes da adoção no Brasil”.

Dorneles esclarece que Deus é inocente não é um livro para jornalistas, e sim para a opinião pública, e que não tem a pretensão de mudar a postura da mídia. “Só gostaria que as pessoas se lembrassem das histórias quando estivessem assistindo ou lendo uma matéria e assumissem um papel crítico em relação à imprensa, que é hoje considerada um poder quase inexpugnável”, diz ele. “Diante do papel importante que exerce na sociedade, a imprensa deve aprender a discutir a si própria e se conscientizar de que precisa ser criticada, o que nada tem a ver com ameaça à liberdade de expressão.”

Informações

Sítio da Editora Globo: <www.globolivros.com.br>

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