Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES >   RÚSSIA

Araújo Neto

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

ITÁLIA

“Ciranda de protesto de um diretor”, copyright O Globo, 29/09/02

“Antes mesmo de os italianos consagrarem Giovanni Moretti, mais conhecido como Nanni, como um dos melhores diretores de cinema dos últimos anos, os franceses já o tinham indicado, em 1994, como o novo Fellini. Reconhecimento em grande parte por ?Caro diário?, um dos filmes mais autobiográficos e mais romanos já dirigidos, Palma de Ouro de Cannes.

Desde janeiro, Nanni Moretti, um italiano magro e alto que aparenta menos que seus 49 anos, vem revelando uma nova surpresa a seus compatriotas e à Europa, ao liderar um grande movimento de pressão contra a coalizão partidária de centro-direita que governa a Itália.

Moretti batizou o movimento de ?girotondo? (a versão italiana da ciranda), que surgiu com uma grande ciranda em torno do Palácio de Justiça de Roma, em defesa da independência e da dignidade dos magistrados duramente atacados pelo premier Silvio Berlusconi e seus ministros. Muito contribuiu para a formação desse movimento, que ganhou dimensão de uma poderosa força política, o tímido comportamento da coalizão de centro-esquerda, de oposição.

A importância do movimento se fez maior – segundo Moretti – com a manifestação do dia 31 de julho passado:

– Estávamos na frente do Senado quando, segundo o governo, a lei Cirami (que dá direito aos réus de escolher juízes que devem julgá-los) tornara-se a coisa mais urgente para o país. Pela primeira vez se revezaram no palanque senadores da oposição e representantes dos movimentos. Os parlamentares estavam, enfim, fazendo uma oposição séria e nós, eleitores, lhe dávamos coragem e força.

Pode-se dizer que o interesse de Moretti pela política teve início nos anos 70, quando ela era a terceira paixão do jovem estudante de um liceu clássico romano, depois do cinema e do pólo aquático. Ainda hoje, depois de se transformar no menos ortodoxo e mais ardoroso dos líderes políticos da Itália, Moretti continua a afirmar que nunca lhe passou pela cabeça a idéia de formar um novo partido e de candidatar-se a seu líder.

O mais recente ?girotondo? levou a uma das maiores praças de Roma, a San Giovanni in Laterano, 500 mil pessoas, no dia 14 de setembro. Hoje, não há italiano que não saiba que as alegres rodas estão fazendo uma oposição muito mais eficiente, ganhando um consenso popular crescente.

– Depois das eleições de maio de 2001, eu estava resignado a enfrentar cinco anos de terrível e tranqüilo governo de centro-direita. Mas eles se revelaram mais arrogantes e incapazes do que eu previa. Mais descarados ao defender os interesses pessoais de Berlusconi e amigos. Mas não me resignei a ver pisoteada a Constituição.

Moretti não criou só um novo modo de fazer oposição. Está enterrando o ?politiquês?, a linguagem enrolada e confusa dos políticos profissionais.”

“Berlusconi, um brasileiro”, copyright Veja, 2/09/02

“Quando querem ofender o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, acusam-no de estar transformando a Itália numa republiqueta igual ao Brasil. Tentei traçar um paralelo entre os dois países para ver se a ofensa tem fundamento. Pelo talento histriônico e pela astúcia de camelô, Silvio Berlusconi só poderia ser comparado a Silvio Santos. Vende promessas eleitorais mirabolantes com a mesma desenvoltura com que, na juventude, vendia aspiradores de pó em domicílio. A diferença é que o Silvio deles é muito mais rico e poderoso do que o nosso. É como se Silvio Santos fosse dono, além do SBT, da Globo, Bandeirantes, Record, Editora Abril e Bradesco Seguros. E, um dia, virasse presidente da República. Berlusconi tem mais encrencas na Justiça do que Paulo Maluf ou Jader Barbalho. Para se livrar dessas encrencas, decidiu mudar o Código Penal. Conta com ampla maioria parlamentar, formada por membros de seu partido e fiéis aliados como o ex-fascista Fini e o ex-separatista Bossi, uma espécie de Lula da extrema direita: populista, contraditório, orgulhoso da própria ignorância.

Duas semanas atrás, o cineasta Nanni Moretti reuniu mais de 500.000 pessoas num comício contra Berlusconi. A forma de protesto escolhida pelos manifestantes foi dançar cirandinha, fato devidamente ironizado pelas tropas governistas. Mas há mais gente insatisfeita com Berlusconi. De acordo com um relatório do serviço secreto italiano, a Máfia planeja assassinar dois de seus mais íntimos assessores. A queixa dos mafiosos, sussurrada nos presídios, é de que ?ele só pensa nele?. Ou seja: depois de obter uma vitória eleitoral histórica nos territórios controlados pela Máfia, o ingrato Berlusconi estaria resolvendo apenas seus próprios problemas judiciários, esquecendo os dos outros. É como se Fernandinho Beira-Mar direcionasse os votos das favelas cariocas para os políticos que lhe parecessem mais atentos às suas necessidades.

A economia italiana está estagnada, o maior sindicato promulgou uma greve geral para outubro e, com uma certa regularidade, aparecem cadáveres de imigrantes clandestinos boiando nas praias do sul do país. Apesar disso tudo, porém, a popularidade de Berlusconi continua surpreendentemente alta. Como disse a miss Itália, Berlusconi agrada porque é mais do que um primeiro-ministro: é o chefe de uma dinastia. A matriarca é sua segunda mulher, ex-atriz de filmes ?trash? e chanchadas picantes. É como se, no lugar de Ruth Cardoso, houvesse Aldine Muller. E os filhos de Berlusconi fornecem tanto material para as revistas de fofocas quanto Paulo Henrique Cardoso. Como bom chefe dinástico, Berlusconi sempre ostenta seu poder e dinheiro. Expurgou da TV pública os únicos jornalistas que cismavam em incomodá-lo e hospedou em sua casa de veraneio as filhas do presidente russo Putin. Graças a esse feito, um solerte senador de seu partido candidatou-o ao Nobel da Paz, com o argumento de que ele aproximou a Rússia do Ocidente. A política cinematográfica foi entregue a uma apresentadora de TV equivalente a Luciana Gimenez. E os embaixadores italianos receberam a ordem de promover produtos exportáveis como gravatas e salames, em vez de perder tempo divulgando a obra de Manzoni, o Machado de Assis deles.

Eu sempre digo que o Brasil é o país do futuro. A gente não vai melhorar. São os outros que vão piorar.”

 

RÚSSIA

“Stalin ainda faz tremer cartunista russo de 102 anos”, copyright O Estado de S. Paulo / AP, 28/09/02

“Boris Yefimov se recorda das chamadas telefônicas de Josef Stalin como se estivessem ocorrendo hoje – o tom ameaçador da voz do ditador, o acelerar do coração de Yefimov, o mais famoso cartunista da antiga União Soviética. Yefimov ocupou lugar de frente na montanha russa do século 20. Não é à toa que planeja agradecer a Deus quando abrir os olhos neste sábado para comemorar seus 102 anos de vida.

Numa entrevista ontem, ele contou como lutou contra os nazistas na base da ridicularização e disparou ironia nos americanos durante a guerra fria. O cartunista reverenciou a memória do irmão, assassinado a tiros por um esquadrão da morte nos tempos do terror stalinista. E lamentou o que classificou de morte de sua arte, num mundo de crescente caos, onde os inimigos não são aparentes e, desse modo, dificilmente podem ser ridicularizados. Mas deixou claro que com mais de um século de vida, ele ainda se encanta com o que fazia.

Sobre o segredo de sua longevidade, Yefimov disse não ter idéia. Aos 102 anos, o cartunista pôs de lado suas convicções ateístas e destaca que agora crê num poder maior: ?Todos os dias, quando me levanto, agradeço a Deus.?

Judeu e simpatizante de Leon Trotsky, inimigo de Stalin, Yefimov teria o mesmo destino de seu irmão se não fosse o fato de o ditador soviético apreciar sua arte.

Seu primeiro contato com líder soviético ocorreu em 1937 – no auge dos expurgos.

Ontem, ele recordou um telefonema que recebeu altas horas da noite de Lev Mekhlis, então editor do jornal Pravda. ?Ele me disse para ir imediatamente à redação do jornal. Queria me passar uma mensagem ?dele? ?, contou o cartunista. ?Não era preciso dizer quem era o ?ele?. Só havia um ele com ?e? maiúsculo na URSS.?

No encontro, o editor, visivelmente preocupado, transmitiu o recado de Stalin. O ditador criticava a forma de o cartunista retratar samurais japoneses, sempre com grandes dentes saindo da boca. ?Lev ressaltou que Stalin disse que eu não deveria fazer isso porque era um insulto a todos os japoneses, e eu prontamente respondi: ?Não haverá mais dentes?.?

Segundo o cartunista, dez anos mais tarde recebeu outro telefonema – de um alto membro do Comitê Central do Partido Comunista, Andrei Zhdanov. Stalin pedia o que Yefimov classificou de um dos primeiros ?ataques? da guerra fria: uma charge do general americano Dwight Eisenhower desembarcado no Pólo Norte e um soldado perguntando: ?O que significa isso, general? Por que toda essa atividade militar num local tão ermo e pacífico?? Eisenhower responde, com outra pergunta: ?Você não está vendo a latente ameaça russa aqui??

Naquele mesmo dia, à tarde, quando trabalhava na charge, o cartunista disse ter recebido mais um telefonema, este do próprio Stalin, que ordenou: ?Quero que você retrate Eisenhower armado até os dentes.?”

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