Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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Arlindo Machado

Por lgarcia em 08/05/2002 na edição 171

REALITY SHOWS

"As origens do ?Big Brother?", copyright Trópico (www.uol.com.br/tropico), 2/5/02

"Difícil saber exatamente de onde surgiram esses programas no estilo ?Big Brother?, baseados na idéia da submissão de um grupo de pessoas a uma permanente vigilância pelas câmeras da televisão. Já na aurora da televisão, nos anos 1940, Allen Funt fez furor com seu programa ?Candid Camera?, em que câmeras escondidas na paisagem flagravam situações cômicas ou vexatórias, sem que os seus protagonistas soubessem que estavam sendo filmados.

Em geral, a produção fazia desencadear acontecimentos, para observar a reação dos protagonistas involuntários. Colocado em situação de voyeurismo explícito, o público americano se divertiu durante várias décadas com o vexame alheio. Essa é também a origem das ?pegadinhas? do Sílvio Santos e do Sérgio Malandro. Mas, na verdade, esse ?gênero? televisual, se é que o podemos chamar assim, nasceu já na era do rádio, a partir do programa radiofônico ?Candid Microphone?, do mesmo Allen Funt. Nada de muito novo, portanto. Tudo já existia antes mesmo que George Orwell concebesse o Big Brother em seu ?1984?.

Possivelmente, a primeira experiência explícita de vigilância autoconsentida foi o programa ?An American Family?, exibido na televisão norte-americana em 1972, dando nascimento àquilo que Jean Baudrillard chamou de ?télévision-vérité?: a vida cotidiana de uma família americana (uma família de verdade; nada de atores, nem de ficção) observada minuciosamente em sua privacidade, por inúmeras câmeras de televisão durante sete meses seguidos.

O polêmico ?seriado? produzido pela rede PBS mostrou não exatamente o que é, de um ponto de vista documental, uma típica família americana, mas sim o que acontece quando um grupo de pessoas é submetido sistematicamente, ininterruptamente, até mesmo na sua intimidade mais secreta, ao olhar voyeurista das câmeras que o colocam em conexão com vinte milhões de ?peeping toms? espalhados por todo um país. De fato, a família Loud, de Santa Bárbara (Califórnia), foi destroçada pelas câmeras de televisão. O casal Bill e Pat Loud se divorciou durante as filmagens. O personagem mais sacrificado foi o filho Lance Loud, flagrado pelas câmeras numa relação homossexual e transformado em alvo de chacotas em todo o país.

Hoje os programas de vigilância autoconsentida não são tão destrutivos como ?An American Family? porque, na verdade, são ficções disfarçadas, interpretadas por atores, depois de meses de ensaios e leituras dos ?scripts?. Terminam sempre com um ?happy end?, como em qualquer telenovela. São apenas simulacros de ?An American Family?. Mas há um outro ?gênero? televisual, aparentemente inocente e inofensivo, que retoma, num sentido completamente diferente, a idéia da autovigilância. Aqui no Brasil ele costuma ser chamado de ?vídeo-cassetadas? (nome popularizado no programa do Faustão), mas a sua matriz é o ?America?s Funniest Home Videos?, série da ABC norte-americana iniciada em 1990 e que segue sendo exibida até hoje.

A idéia desse programa é simples: hoje as câmeras de vídeo estão em todos os lugares e, portanto, qualquer coisa que aconteça, da mais banal à mais insólita, está provavelmente sendo registrada, seja por um profisisonal, seja, mais provavelmente, por um amador. Em outras palavras, tudo o que acontece está potencialmente apto a aparecer numa tela de televisão. No limite, todos nós hoje fazemos parte desse ?Big Brother? permanente e universal e a nossa vida privada pode, a qualquer momento, estar sendo revelada em público, através da televisão, sobretudo se contiver algum componente particularmente favorável a uma exploração espetacular.

Nossa sociedade, como já observou Michel Foucault, é menos a dos espetáculos do que a da vigilância. Mas a sua esperteza está em transformar a própria vigilância em espetáculo. A maioria das operadoras de cabo oferecem hoje um serviço extra aos edifícios que subscrevem os seus serviços: elas destinam um ou mais canais de televisão para a visualização das câmeras de vigilância do próprio prédio. Assim, ao lado do ?Big Brother? ou da ?Casa dos Artistas?, o espectador pode espiar também – e na mesma televisão – os seus filhos brincando no parquinho, as pessoas que entram e saem do prédio, os vizinhos tomando banho na piscina ou o que acontece na garagem, ao vivo e vinte e quatro horas por dia.

A audiência desses canais nunca foi aferida pelo Ibope, mas tudo indica que ela não deve ser muito pequena. Afinal, a televisão conseguiu fazer da vigilância uma forma de atração e de prazer escópico, de modo a generalizar a idéia de Jeremy Bentham a respeito de uma sociedade autovigiada, o Panóptico."

 

"Os calouros chegam ao século 21", copyright Jornal do Brasil, 30/04/02

"Aparentemente, Fama, da Globo, e Popstars, do SBT, que estrearam no último sábado, tinham pouco em comum fora o apelo de reality show musical – definição aplicada à segunda mão de verniz que a TV aberta vem dando no velho show de calouros. Fama quer ser programa-família, com repertório careta e 12 candidatos a cantores que impressionam pela potência dos agudos na disputa para alcançar a fama – sonho concedido pelo público, que elegerá um deles. Popstars quer ser programa-moderninho, com trilha sonora de videoclipe e 6 mil adolescentes que impressionam pelo potência do estilo que são capazes de criar na disputa pelo sonho de ser popstar – concedido pelos jurados, que escolherão cinco delas. Nem no mesmo horário Fama e Popstars concorreram. Mas, pelo menos no primeiro programa, eles se misturaram no ar, explorando os mesmos elementos para sensibilizar o telespectador: a emoção, quase mexicana, que pode surgir do sacrifício de se perseguir um objetivo ou da decepção de sobrar depois desse sacrifício todo.

Choro – Em alguns momentos, sobrou açúcar na melosa edição dos dois programas. Se bem que, em tempos de reality show em que se comem baratas ou se dizem cobras e lagartos, Fama e Popstars são um alívio para o estômago.

O que não quer dizer, necessariamente, que mudarão os rumos da TV como fenômenos de 2002 ou que lançarão no mercado bons cantores e spice girls realmente melhoradas. Ainda não deu para perceber isso. Na verdade, os reality shows musicais ofereceram pouca música aos telespectadores. Com 20 minutos de duração, Fama mostrou as etapas do processo de seleção que pinçou seus 12 participantes entre os 800 inscritos. Muitos Uhus! de felicidade, muito choro de decepção nos telefonemas para as famílias. E, com algumas exceções, muitas declarações-clichês. ??Você tem que puxar esta energia toda para você.?? Ou ??quando canto sinto que estou me expressando??. Ou ainda, ??música é sentimento??.

Bem produzido, Fama, que tem a maior cara de programa de sábado à noite, mas foi exibido no ingrato horário da novela das 18h, registrou 28 pontos de média de audiência – mesmo número de Coração de estudante. Por sua curta duração, acabou se resumindo a uma simples apresentação dos candidatos. Sobraram os apresentadores Toni Garrido e Angélica – que quase não apareceram. Faltou explicar um pouco as regras e, mais que isso, faltou competição.

Pois o que ficou sem espaço no Fama se estendeu demais no Popstars. Com quase uma hora no ar, das 19h49 às 20h40, o programa do SBT explicou demais tudo, detalhando cada etapa do processo de seleção das 30 mil meninas inscritas. O ibope, assim como no Fama, não cresceu muitas posições: 14 de média, apenas dois pontinhos a mais do que a novela mexicana registrava no horário.

Popstars mostrou o empenho das meninas, que saíram de várias cidades do Brasil, para custear a ida à primeira seleção do programa, realizada no Sambódromo de São Paulo. Muitas economizaram, outras contaram com a vaquinha de amigos. O que não faltou foi história. Tinha menina grávida que dormiu na fila, atrasada que fez de tudo para entrar, perdedora que chorou porque não entrou.

Co-produção entre SBT e a produtora RGB – que fez a versão argentina do Popstars -, o programa teve mais cara de MTV e Globo que propriamente de SBT. Edição ágil, imagens sobrepostas, referências a edições internacionais do mesmo formato, depoimentos dos jurados que entrevistaram as candidatas. Mas a embalagem fashion sofreu dois escorregões feios.

Primeiro na narração em off, dramática demais para o clima descontraído do programa pop. Segundo, pela escolha do KLB como grupo que fez o show de encerramento da seleção no Sambódromo. Fez parecer que Popstars está menos interessado em descobrir novos talentos do que em seguir o caminho fácil do trio: pequena qualidade e grandes vendagens. Só esperando para ouvir o que vai sair – dos dois programas, aliás."

 

"Ações e boatos: a Globo na berlinda", copyright O Estado de S. Paulo, 05/05/02

"Uma seqüência de comunicados enviados à imprensa e a possibilidade de uma ação na Justiça contra o programa ‘Hipertensão’ colocaram a Globo na berlinda nos últimos dias. Em São Paulo, o Ministério Público Estadual decidiu instaurar um inquérito civil público que visa tirar o game do ar. A alegação é que provas como aquelas, cujos participantes precisam deitar em covas com ratos ou comer insetos vivos, desrespeitam o ser humano.

No Rio, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, consultor da emissora até 2003, deixou de lado a habitual discrição para comentar uma nota assinada pelos irmãos Marinho. No texto, os irmãos João Roberto e Roberto Irineu Marinho, vice-presidentes das Organizações Globo, desmentem rumores de que a atual diretora-geral, Marluce Dias da Silva, estaria deixando a empresa. Não foi o primeiro desmentido. Em março, quando Philippe Reichstul foi nomeado presidente da Globopar, surgiram os primeiros rumores de que Marluce estaria perdendo poder. Desde então, os herdeiros de Roberto Marinho vêm reafirmado a confiança na executiva. Desta vez, porém, citaram Boni, que se achou no direito de responder.

Padrão arranhado – Na carta-resposta, que teria sido enviada somente a amigos, mas foi divulgada na Internet por um site, Boni, que foi vice-presidente da emissora até 1997, é taxativo: ?É inteiramente impertinente a abordagem sobre o meu eventual retorno à Rede Globo, uma vez que tenho exaustivamente descartado tal especulação. Declarei sempre que nunca recebi convite nesse sentido e que jamais o aceitaria?, escreveu. O consultor lamentou ainda a extinção do padrão Globo de qualidade. ?Sem reproduzir programas estrangeiros, punindo deslizes e incorporando importantes contribuições culturais e artísticas brasileiras, criamos um Padrão de Qualidade hoje em fase explícita de extinção. O que é lamentável?.

Segundo a Central Globo de Comunicação, a carta de Boni não foi considerada pela emissora como uma resposta e por isso não será emitida nota oficial sobre ela. Já em relação à ação que o advogado Leonardo Fogaça Pantaleão prometeu impetrar ainda esta semana, a Globo alegou não ter nenhuma informação oficial. ?Antes disso, não nos manifestamos. É muito comum advogados e promotores afirmarem que vão entrar com ações contra a emissora?, disse Luiz Erlanger, diretor da CGCOM.

Mesmo que vingue, a ação do Ministério Público de São Paulo será uma dor de cabeça menor diante do imbróglio com o desembargador José Soares de Alburquerque. Principal acusado num esquema de venda de decisões judiciais no Tribunal de Justiça do Piauí, denunciado no ‘Jornal Nacional’ de 23 de março de 2001, o desembargador entrou com uma ação de indenização por danos morais contra a Globo e o repórter Roberto Cabrini em janeiro. Pediu ainda a tutela antecipada da indenização, concedida pelo juiz de primeira instância José Francisco do Nascimento. As contas da Globo foram bloqueadas até o valor de R$ 3,5 milhões. Desse total, Albuquerque conseguiu sacar R$ 100 mil.

A Globo entrou com recurso no Tribunal de Justiça, mas esbarrou no corporativismo. Dos desembargadores que poderiam deliberar, quatro se declararam suspeitos por motivo de foro íntimo. Um quinto desembargador, João Batista Machado, deu um prazo de dez dias para que José Soares de Albuquerque expusesse os seus motivos. No dia 26 de abril, a Globo depositou em juízo os R$ 3,4 milhões restantes, que não podem ser movimentados. Em nota oficial, a emissora avisou que tomaria as ações necessárias para que o mesmo acontecesse com os R$ 100 mil reais já sacados.

Outro episódio ruidoso envolveu um funcionário da emissora e a revista ‘Quem’, pertencente às Organizações Globo. Na manhã seguinte ao seu casamento, realizado no Jóquei Clube de São Paulo no último dia 12, o ator Fábio Assunção divulgou uma nota de repúdio e manifestou a intenção de processar a Editora Globo caso fossem publicadas fotos tiradas sem sua autorização durante a cerimônia.

As fotos não só saíram como três delas foram estampadas na capa da revista.

Se mantiver a decisão de ir à Justiça, Fábio, atualmente no ar como o professor Eduardo na novela ‘Coração de Estudante’, estará seguindo um precedente aberto pela colega Malu Mader.

Estrela de primeira grandeza da emissora, Malu processou o jornal carioca ‘Extra’, também dos Marinho, por reproduzir uma cena da minissérie ‘Labirinto’ em que ela aparecia nua. Na época, a atriz avisou à emissora de que pediria indenização por ter se sentido desrespeitada. Ganhou. E não perdeu o prestígio junto aos patrões.

Humor nigérrimo – Notícias desse tipo, envolvendo a Globo, sempre despertam interesse. Nem todas, porém, merecem crédito. Entre elas está a absurda história que vem circulando na Internet, segundo a qual Roberto Marinho, 94 anos, estaria morto desde outubro do ano passado.

O texto diz que, segundo um ex-diretor da emissora, o empresário sofreu um enfarte, foi levado a uma clínica na zona sul do Rio, não resistiu e foi enterrado no cemitério São João Batista em cerimônia secreta acompanhada apenas da mulher, Lili Marinho, e dos filhos.

O corpo estaria sepultado no mausoléu dos imortais sob o nome de Ricardo de Oliveira Malta, podendo ser identificado pelas iniciais do primeiro e do último nomes. Prossegue dizendo que os herdeiros pretendem corrigir a inscrição do túmulo tão logo seja conveniente aos interesses empresariais da família. E afirma que imagens mostradas no ‘Jornal Nacional’ do dia 17 de março, que mostram o jornalista num jantar patrocinado pela Fundação Roberto Marinho, na verdade foram feitas em 1998. A Globo, por sua vez, afirma que nem sequer vai se dar ao trabalho de comentar o caso oficialmente. Para quem gosta de humor negro, chega a ser engraçado."

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