Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Armando Antenore

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99

"A metamorfose", copyright Folha de S. Paulo, 01/10/00

"Pouco antes de seguir para a Olimpíada de Sydney, Galvão Bueno contou uma história curiosa no ‘Programa do Jô’. Há mais de 25 anos, ainda em início de carreira, precisou narrar uma partida de futebol entre duas seleções irrelevantes. Confesso que esqueci o nome das equipes. Imaginemos que se tratasse de Suíça e Andorra. Era, pelo menos, o que anunciavam as fichas de Galvão.

Ele, animadíssimo, apresentou os oponentes – um atleta de cada vez – e começou a transmissão. Às tantas, tiro de meta contra a Suíça. Enquanto o goleiro de Andorra se preparava para bater, as câmeras focalizaram o placar do estádio, que atestava: Alemanha Oriental 0 x 0 Austrália. Galvão estava conduzindo outro jogo (seus papéis traziam informações erradas).

O locutor não hesitou. Mal viu o goleiro chutar a bola, emendou: ‘Lá vai a Austrália. Avança pela direita, corre para o meio e esbaaarra na Alemanha’. Sem dar nenhum esclarecimento, Galvão corrigiu o nome das seleções e, malandramente, prosseguiu a narração.

Conhecido por muitos jornalistas que cobrem esporte, o episódio denuncia de modo hiperbólico uma das características mais peculiares do principal ‘speaker’ brasileiro: o dom de se transfigurar nas partidas – qualquer uma, não só as de futebol. Galvão é capaz de metamorfoses impressionantes. Transforma-se de água em vinho com a ligeireza dos prestidigitadores.

Pode agir mesmo como um mágico, o grande Houdini da Rede Globo. Em vez de mãos e dedos leves, usa a voz desvairada para iludir. Na história do jogo que não existia, fez o inverso: alterou o que narrava porque desejava adequar o fato à versão do fato. Mas, em inúmeras outras ocorrências, as transfigurações do locutor costumam servir somente à confusão. Modificando-se, Galvão também muda a realidade que teria de retratar. Subverte-a, adapta sons e imagens às vicissitudes dos truques.

O estranho fenômeno se deu, por exemplo, na madrugada da última terça-feira, em Bondi Beach, Sydney. Brasil e Estados Unidos disputavam a medalha de ouro no vôlei de praia. De um lado, o paraibano Zé Marco e o baiano Ricardo. Do lado oposto, o negro Blanton e o branco Fonoimoana. Levaria o prêmio máximo quem faturasse dois dos três sets possíveis (cada set terminaria assim que um dos adversários atingisse 12 pontos).

Galvão abriu os trabalhos com o ufanismo habitual. ‘É a Paraíba nas areias de Bondi Beach. É a Bahia…’ A dupla nordestina, campeã mundial, enfrentara o duo norte-americano em quatro ocasiões e vencera todas. Despontava, portanto, como favorita – prognóstico que o locutor não cansava de repetir.

Logo nos instantes iniciais da partida, Galvão revelou para o comentarista Renan, ex-atleta olímpico e medalha de prata em Los Angeles com a equipe de vôlei de quadra: ‘Hoje é o dia. Estou sentindo’. Sentir. Eis outra marca do narrador. Ele sente, adivinha, profetiza, pressente. Crê no sensorial, na natureza, a mesma que concebeu Zé Marco e Ricardo à semelhança dos heróis. O relógio não marcava nem cinco minutos de jogo, e Galvão já avisava: o dueto do Brasil alcançaria a vitória por ser naturalmente superior. Nada de treino, tática, técnica, garra. A natureza, sobretudo a natureza, iria se encarregar de erigir o baiano e o paraibano à glória.

Chovia. A bola escorregava, e a areia molhada dificultava o deslocamento dos competidores. Para apaziguar a audiência, o locutor lançou a tese: os Estados Unidos têm mais força; o Brasil tem mais jeito. Em condições adversas, o jeito sempre aniquila a força.

De fato, a dupla nordestina permaneceu quase todo o primeiro set na frente. Empolgado, Galvão menosprezava ‘os gringos’ – em especial, Blanton. Chamava-o de inapto, de desonesto. ‘O Blanton gosta de perturbar. Reclama, catimba. Se vai à rede, chuta por baixo, pisa no pé.’ Renan assentia. Concordava, aliás, com qualquer frase do narrador. Galvão avistava o mar: ‘Deve estar fria a água’. E Renan: ‘Ô’.

Acontece que, quando o Brasil dependia de apenas um ponto para fechar o set, as coisas inverteram, e os norte-americanos tiraram a diferença: 12 a 11. Daí em diante, o caldo desandou de vez. Os Estados Unidos lideraram o resto do jogo e abocanharam o ouro.

À medida que o fracasso se desenhava, o caráter camaleônico de Galvão ganhava corpo. O locutor se impacientava com os brasileiros. Não mencionava mais as teses anteriores. Lamentava que Zé Marco e Ricardo se mostrassem tão amedrontados, que não respondessem às provocações dos inimigos. ‘Só porque vestem a camisa dos Estados Unidos? Para cima deles, gente! Mete a mão na bola, e vamos para cima deles!’ A metamorfose de Galvão ia convertendo os heróis canarinhos em vira-latas complexados – ainda que continuassem jogando de maneira parecida com a do primeiro set. ‘É o tal negócio, Renan. Falta tranquilidade. Falta controle emocional. Falta aquela atitude vencedora.’ E Renan: ‘É, falta’.

Depois da partida, entrevistados pelo repórter da Globo, Zé Marco e Ricardo rejeitaram as conjecturas do narrador. Não, não ficaram intranquilos. Não, não se acovardaram. Por que a derrota, então? ‘Porque aqui não existe favoritismo. Qualquer dupla que chega à final pode vencer ou perder. Nós jogamos muito bem, mas eles jogaram um pouquinho melhor.’ Simples assim."

"Em torno dos Jogos Olímpicos", copyright Valor Econômico, edição de fim de semana de 29/09 a 1/10/00

"Os Jogos Olímpicos são tanto um evento esportivo quanto de mídia. Essa natureza das Olimpíadas está mais explícita do que nunca nesta edição australiana, em que licenciamentos, patrocínios e transmissões de TV respondem por pelo menos 50% da receita do Comitê Olímpico Internacional. A cerimônia de abertura teve a presença nada casual de Rupert Murdoch, um dos imperadores da comunicação tradicional – jornal e televisão – e de Bill Gates, emblema da ascensão da nova economia e dos novos impérios de mídia. Pode ser o começo do fim de uma história que tem mais de 60 anos, a do cruzamento entre Olimpíadas e televisão.

A primeira transmissão de TV realizada no mundo foi experimental, durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Eles marcaram a ascensão do nazismo e uma grande revolução na produção de imagens das massas para as massas. Milhares de pessoas assistiram às imagens captadas por três câmeras de televisão e o registro visual daqueles jogos definiu a estética olímpica das décadas seguintes, marcada pela celebração do corpo atlético e a exploração das coreografias de massa.

As muitas variações desses princípios estão catalogadas em ‘Olympia’, filme sobre as Olimpíadas de Berlim realizado por Leni Riefenstahl, a cineasta favorita de Hitler que no mesmo ano produziu ‘O Triunfo da Vontade’, para o Partido Nacional Socialista alemão. Ambos guardam as matrizes estéticas e técnicas do registro televisual das Olimpíadas: closes conferindo monumentalidade aos corpos e engenhocas permitindo a movimentação rápida das câmeras para seguir a ação dos esportistas.

Nesta 27ª edição das Olimpíadas, são poucas as novidades em relação à técnica e à estética criadas na década de 30. Uma delas consiste nas imagens captadas por câmeras que se movem pelo fundo da piscina, seguem os nadadores e mostram em detalhes a anatomia dos seus movimentos e de sua respiração ritmada. Outra, são as câmeras que mostram, em close e com nitidez, o rosto dos atletas correndo a quase 40 km/h. Em seus músculos faciais, que parecem despegar dos ossos, o telespectador vê o esforço sobre- humano do esportista

Não parece ser à toa que as novas imagens dos jogos, cada vez mais mundanos e menos olímpicos, apelem aos planos superfechados e percam a visão dos corpos inteiros. Isso também se dá no plano esportivo, onde os corpos, manipulados e reduzidos a partes superespecializadas, perdem a dimensão humana.

Apesar da estagnação da cobertura de TV, a revolução das novas mídias na cobertura olímpica ainda está por acontecer. A internet não oferece ao público alternativa real à complexidade e ao prazer das imagens televisuais. Ainda assim, Sydney deve passar para a história como marco do declínio da cobertura televisual e ascensão da cobertura pelas novas mídias. Em dezembro, o Comitê Olímpico Internacional promoverá em Lausanne, Suíça, uma conferência sobre esportes e novas mídias para refletir sobre a experiência, em Sydney, da primeira cobertura extensiva de uma Olimpíada por meio da internet. O último evento desse tipo ocorreu há dez anos, e o assunto foi a televisão.

A situação marginal e inferiorizada do Brasil nas Olimpíadas está clara no evento esportivo e no midiático. O número de medalhas conquistadas é pífio, se levarmos em conta a população do país. Por mais lucrativo que tenha sido o negócio, a cobertura pela televisão mostra o descompasso entre a importância dada ao país pelas emissoras internacionais e pelas narrações locais.

Nas provas em que os competidores brasileiros diluem-se entre atletas de várias nacionalidades, os narradores imprimem entusiasmo em imagens que não se vêem, deixando o telespectador à procura de um Brasil que teima em não aparecer. Isso está evidente nas duas grandes redes de TV aberta que se dedicam a essa cobertura.

Na Band, Fernando Vanucci narra uma crônica quase incompreensível dos jogos e, aos tropeços, parece falar de imagens diferentes das apresentadas ao telespectador. Na Globo, o Galvão Bueno, mais fluente no seu ufanismo inabalável, procura salvar a cobertura da sucessão de fracassos esportivos. Ele tenta arrancar do telespectador algum sentimento de rivalidade ao adversário, procura criar suspense diante de resultados definidos, finge acreditar numa reviravolta impossível e, diante do fato consumado, desfia compridas explicações sobre o inexplicável."

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