Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > DIRIGISMO CULTURAL

Arnaldo Bloch

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

DIRIGISMO CULTURAL

“Ecos de Cacá”, copyright O Globo, 5/05/03

“Nem Nelson Freire, nem Carandiru: na classe artística e nos meios da política cultural o assunto é a entrevista do cineasta Cacá Diegues ao GLOBO, sábado, acusando a nova política de concessão de patrocínios pelas estatais de dirigista e destrutiva da retomada do cinema. A Secretaria de Comunicação do Governo, do secretário Luís Gushiken, reagiu ontem com nota oficial. Setores do PT manifestaram preocupação. Gilberto Gil não se manifestou, mas mandou dizer que Lula pediu paciência e confiança. Chico Buarque, que apoiou a candidatura de Lula na fase decisiva da campanha, ligou para o cineasta para apoiar seu ponto de vista. Caetano disse esperar que a mensagem chegue a Lula como uma séria reivindicação da classe. E a classe, por sua vez, prepara-se para oficializar, terça-feira, uma posição de todos os setores sobre a política cultural. Entre os nomes anunciados para o ato público estão os de Ferreira Gullar, Fernanda Montenegro, Edino Kriegger, Luís Áquila, Caetano Veloso, Miguel Falabella e Marieta Severo.

– A democracia está em xeque, e temos que alertar todos os setores para a gravidade da situação – disse o produtor Luiz Carlos Barreto, um dos organizadores do ato.

– Mais uma vez eu vejo o Cacá como meu porta-voz. Ele tem a rara capacidade de organizar os pensamentos, já tinha feito isso com as patrulhas ideológicas. Ele é lúcido, corajoso, honesto. Estou preocupada. – manifestou-se a escritora Ana Maria Machado, recém-eleita para a ABL.

Preparando-se para montar a tragédia grega Medéia, Renata Sorrah está temerosa com a captação junto à Eletrobrás, tradicional patrocinadora de peças teatrais e que divulgou as novas diretrizes para patrocínio que motivaram a entrevista de Cacá :

– Não entendo como o governo pode pedir uma contrapartida social. Fazer cultura é isso. Fazer Medéia é pensar na realidade brasileira.

Marieta Severo aplaude:

– Fecho com cada coisa que o Cacá disse. Ele foi porta-voz de uma insatisfação que já estava rolando há algum tempo. Há uma desinformação muito grande dessas pessoas sobre o que é arte e cultura. E assim eles estão indo contra o pensamento do Lula.

Secretário executivo do Ministério da Cultura de Gil, alijado da definição das regras, Juca Ferreira solidarizou-se com Cacá:

– A relação do Estado com a cultura tem de ser cuidadosa. O Estado deve garantir desenvolvimento cultural sem dirigismo. Essa deve ser a preocupação permanente.

Vozes dissonantes levantaram-se, como a do cineasta pernambucano Cláudio Assis, do premiado longa Amarelo manga:

– Cacá sempre foi beneficiado por governos anteriores. Natural se queixar. Não vejo problema em apresentar projeto com contrapartida social. O que se está fazendo é dar caráter mais social. Os burgueses sempre fizerem o cinema, não podemos ficar nas mãos desses caras. Eu não quero fazer um filme pra tirar férias ou comprar apartamento na Vieira Souto.

Do entusiasmo à frustração

A entrevista que o cineasta Cacá Diegues concedeu ao Segundo Caderno no sábado – com o título A cultura está sob intervenção – pôs fim, definitivamente, à lua-de-mel da classe artística com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O atual clima de revolta em nada lembra o namoro entusiasmado da campanha eleitoral, cujo ponto alto foi o encontro do então candidato com artistas e intelectuais na churrascaria Porcão Rios, no fim de agosto do ano passado. Eram tantas as estrelas a ovacionar o candidato do PT que ficaram conhecidas como a constelação de Lula. Entre os grandes nomes do evento, destacavam-se Chico Buarque e Gilberto Gil, cuja indicação para o Ministério da Cultura provocou, no início deste ano, uma primeira onda de revolta entre os artistas.

No encontro da Porcão, Lula afirmou que iria promover uma revolução cultural no Brasil. No entanto, frustrou quem esperava conhecer suas propostas para o setor. Em vez de apresentar novas idéias, criticou o governo Fernando Henrique que, na opinião dele, tinha uma visão centrada no mercado e só incentivava atividades culturais para quem pode pagar.”

 

“Dirigismo temático e estilístico insuportável”, copyright O Globo, 5/05/03

“Concordo com Cacá. A questão é a interrupção do fluxo de produção de filmes no Brasil. Mudar as regras de financiamento quando o cinema vive um momento de crescimento exuberante é algo mais do que arriscado: beira a irresponsabilidade. Claro que Cacá sabe que uma estatal tem que ter seus critérios para escolha de projetos. Mas as exigências que aparecem no site da Eletrobrás sugerem um dirigismo temático e estilístico insuportável.

Em 1964, logo depois do golpe, os filmes escolhidos para representar o Brasil no Festival de Cannes foram Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas secas e Ganga Zumba: o oposto ideológico do governo militar. Um governo bom não deve sequer parecer que acena com menor liberdade para os criadores. As palavras enfáticas de Cacá representam a necessidade de defesa do cinema e da criação cultural, não uma oposição política ao governo do PT.

Vi ali um pedido ao ministro da Cultura escolhido pelo presidente da República. E espero que, apesar dos tolos de sempre que querem posar de radicais, a mensagem chegue a Lula como uma séria reivindicação da classe artística.”

“PT intervém na briga de cineastas com governo”, copyright O Estado de S. Paulo, 5/05/03

“O comando do PT vai intervir na polêmica que opõe o governo federal a representantes da classe artística inconformados com os novos critérios para concessão de patrocínio cultural pelas empresas estatais, elaborados pela Secretaria de Comunicação de Governo, que consideram dirigistas e centralizadores. O presidente nacional do partido, José Genoino, se comprometeu com uma comissão de cineastas que o secretário de Comunicação, Luiz Gushiken, vai recebê-los para discutir o tema, o que deve ocorrer esta semana. Procurado por cineastas, Genoino disse ser contra dirigismo cultural.

?O presidente do PT ficou escandalizado com as normas para patrocínio?, disse ao Estado o cineasta Zelito Viana, que participou da reunião, em Brasília, com Luiz Carlos Barreto, Toni Venturi e Mariza Leão, entre outros representantes de associações de diretores e produtores do Rio e de São Paulo. ?A Secom, além de centralizar toda a publicidade oficial, quer centralizar todo o patrocínio das estatais. Isso nem a ditadura fez.?

Representantes do cinema, teatro, música, literatura e artes plásticas se reúnem hoje no Rio em ato contra o que chamam de ?dirigismo cultural? supostamente imposto pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva.

A manifestação reunirá, entre outros, o cantor Caetano Veloso, os atores Fernanda Montenegro, José Wilker, Marieta Severo e Miguel Falabella, o cineasta Cacá Diegues e o escritor Alcione Araújo. Eles vão preparar nova reunião, que deverá se realizar durante a semana em um teatro do Rio e poderá ser aberta ao público.

Dois editais lançados respectivamente pela Eletrobrás e por Furnas Centrais Elétricas, informando os novos critérios para concessão do patrocínio cultural, detonaram a crise. Eles estabelecem, entre as diretrizes para patrocinar a produção cultural, contrapartidas sociais, como acesso gratuito a jovens, deficientes físicos e moradores de comunidades carentes, e geração de emprego e renda para pobres. A Eletrobrás estabelece ainda um acompanhamento rígido sobre o desembolso e a aplicação do dinheiro: os recursos de uma nova parcela só serão liberados após prestação de contas da anterior. No sábado, Cacá Diegues também protestou, em entrevista ao jornal O Globo.

Albânia – ?Parecem normas da Albânia, antes da queda do Muro de Berlim?, contesta Viana. ?A contrapartida social da obra de arte é a obra de arte. Querem que se exibam filmes para todos? Ótimo. Querem que sejamos nós? Mas não sei fazer isso.? Outro cineasta, Paulo Thiago, disse que a política para patrocínio cultural foi discutida na Secom, há três semanas, com representantes da sociedade civil. ?Foi uma reunião muito positiva?, disse ele, destacando que os editais da Eletrobrás e de Furnas, posteriores ao encontro, são ?mais radicais do que as diretrizes? discutidas nele. Ele afirmou, porém, que os critérios ainda não formam uma política cultural e que há, entre eles, pontos positivos, como a descentralização, abertura para novos talentos e difusão para os mais pobres.

?A questão da contrapartida social está mal colocada?, afirmou. ?O produtor cultural não é um difusor cultural.? Ele acha que alguns itens, mal formulados, podem ser mal interpretados e levar a impulsos dirigistas por parte do patrocinadores. ?Participei de várias campanhas do PT e não acho que seja possível imaginar dirigismo cultural num governo petista.?

Para Barreto, o ?dirigismo? é perigoso e frustrante. ?É muito grave a tentativa de formular uma temática. Isso vai resultar numa grande picaretagem cultural: um monte de gente vai começar a fazer projetos sobre reforma agrária e o Fome Zero para conseguir patrocínio.? Ele lembrou que, na antiga União Soviética, prática semelhante de governo levou à morte do cinema e do teatro daquele país. ?Sempre fui uma pessoa de esquerda, sou socialista. Nunca precisei de lei para produzir filmes como Vidas Secas, Memórias do Cárcere, O Que é Isso, Companheiro? e Bye Bye, Brasil. Fiz porque minha consciência mandou?, afirmou Barreto.

Em Brasília, a Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República (Secom) informou ontem, por meio de uma nota oficial, que estão em discussão novos critérios para a política de patrocínios do governo federal, mas que em nenhum momento as estatais patrocinadoras serão orientadas a interferir no conteúdo das ações culturais ou nas modalidades esportivas que requisitarem apoio financeiro oficial.

A nota da Secom foi divulgada um dia após a publicação de entrevista na qual o cineasta Cacá Diegues afirmou que as novas regras são dirigistas e poderão comprometer a retomada do cinema. ?Os novos critérios representam uma intervenção política e ideológica na criação artística?, disse Diegues ao jornal O Globo.

Na nota divulgada ontem, a Secom sustenta que ?o governo federal reconhece o papel altamente relevante do cinema nacional, e de todos aqueles empenhados na sua realização e crescimento, para a cultura brasileira, como tem sido realçado sempre pelo presidente da República.?

A secretaria disse que novos critérios estão em debate, mas ?em momento algum a Secom está ou estará orientando as empresas estatais patrocinadoras a interferirem no conteúdo das ações culturais ou nas modalidades esportivas que pleiteiam apoio financeiro do governo federal?.

Para a Secom, ?não corresponde à tradição democrática do governo esse tipo de procedimento, condenável em todos os sentidos?. A secretaria garante que o governo, por convicção e pela história de seus integrantes, é contra qualquer tipo de dirigismo ou interferência na produção cultural.

Segundo a Secom, as decisões sobre patrocínios por estatais seguem, antes de tudo, critérios mercadológicos de fortalecimento das empresas e de bom uso dos recursos públicos. ?Neste último caso, está em debate a adoção de critérios que estimulem o reforço do interesse público naquelas ações patrocinadas?, disse o órgão.

A Secom afirma que também é objetivo do governo democratizar e descentralizar a distribuição dos recursos de patrocínio. ?Num sentido complementar, busca-se ampliar o acesso da população mais carente aos produtos culturais e esportivos que são viabilizados por meio de recursos públicos?, garantiu o órgão. (Colaborou Mariângela Gallucci)”

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