Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA NA MÍDIA

Arthur Xexéo

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"O que pode e o que não pode depois do ataque", copyright O Globo, 26/09/01

"Desde os atentados de 11 de setembro, o show business americano só pensa numa coisa: quanto tempo será necessário esperar para voltar a funcionar. Os teatros da Broadway reabriram três dias depois para descobrir que foram precipitados. As platéias ficaram vazias. O cinema não pára de cancelar estréias aguardando o momento certo para levar às telas cenas ambientadas em aviões, efeitos especiais de explosões ou qualquer trama que lembre, mesmo de longe, uma ação terrorista. A televisão… bem, a televisão até há pouco tinha transformado sua programação num imenso telejornal com uma só notícia que ficava 24 horas no ar. Na sexta-feira passada, voltou ao normal.

A normalidade foi comemorada com o show especial ?America: A tribute to heroes?, uma maratona de duas horas de duração que tinha o objetivo de arrecadar fundos para a re construção de Nova York. Na verdade, não era esse o objetivo, mas estou cometendo o engano para falar de outra coisa. O programa foi transmitido por todas as emissoras de TV dos Estados Unidos e, surpeendentemente, teve exibição ao vivo também pela nossa Rede TV. Brasileiros, portanto, também poderiam contribuir com doações para a reconstrução de Nova York. Não sei qual foi a participação tupiniquim nos US$ 100 milhões arrecadados, mas, vem cá, por que ninguém pensou em fazer um programa de TV para ajudar na reconstrução do Rio de Janeiro? Tudo bem, ninguém estava reconstruindo nada. O verdadeiro objetivo era conseguir dinheiro para os parentes das vítimas do ataque ao World Trade Center. Mesmo assim, não é esquisito que a campanha americana chegue num país que está indo, mais uma vez, pedir dinheiro ao FMI? Deixa eu ver se entendi: o governo pede uma graninha ao FMI para sair do sufoco e os espectadores brasileiros dão uma graninha pra Nova York sair do sufoco? Não, não entendi. Deixa pra lá.

Além de levantar recursos, ?America: A tribute to heroes? pretendia levantar o astral do país. Juntou os maiores atores de Hollywood… ah, eu sei que Goldie Hawn, Kurt Russel e Sally Field não estão com essa bola toda, mas Brad Pitt, Julia Roberts e Jack Nicholson também estavam lá. Então, os maiores atores e os mais famosos cantores do país se juntaram para exorcizar os demônios. Exorcizaram? Não. A tal festa foi uma deprê só.

O cenário tinha velas ao fundo. Velas? Os atores faziam depoimentos, reproduzindo histórias de heroísmo durante os atentados, de fazer chorar o mais empedernido dos espectadores. E o repertório… Um Prozac, pelamordedeus, um Prozac! Se bem que nem Prozac dá jeito quando a tela mostra Willie Nelson cantando ?America the beautiful?.

Além de arrecadar os tais US$ 100 milhões, o programa só teve mais um mérito: denunciar a estupidez daquela rede de estações de rádio americanas que elaborou uma lista de 150 canções que não deveriam ser executadas neste período de luto. Havia de tudo na tal lista. ?Bridge over troubled water?, por exemplo. Justamente a que Paul Simon escolheu para cantar. ?Imagine? também estava no index. Mas Neil Young não deu bola. E fora dali, na retomada da temporada de futebol americano em Nova York, Liza Minnelli cantava ?New York, New York?, outra das músicas ?proibidas?. Eu, se fosse da rádio, tentava incluir ?God bless America? na lista. Não que ela lembre qualquer coisa referente ao atentado. É só para evitar a superexposição. Mas acho que não iria emplacar.

***

O que mais se faz atualmente nas produtoras de televisão dos Estados Unidos é reescrever ou regravar episódios de seriados. Qualquer cena ambientada em Nova York que mostre, mesmo de relance, as torres gêmeas está sendo cortada até de episódios que já foram ao ar, mas estão agendados para serem reprisados. Uma exceção é a série ?The West Wing?, que tem como protagonista um fictício presidente americano e como cenário a Casa Branca. Pois a produção do programa resolveu escrever de última hora um episódio em que seus personagens têm que reagir a um ataque terrorista. Se der certo, aposto que sairá de cena essa fúria toda em eliminar qualquer referência que possa fazer lembrar os atentados de 11 de setembro.

***

Os atos terroristas tiveram conseqüências imprevisíveis. Uma das vítimas inesperadas foi o festival internacional de cinema que começa amanhã no Rio. A lista de convidados estrangeiros quase desapareceu. Ninguém mais quer viajar de avião. E já que a gente não pode falar dos astros internacionais, deixa eu fazer uma outra perguntinha aos organizadores da mostra: o que significa aquela máscara de carnaval que, aparentemente, é o símbolo do festival?

***

Só descubro que alguém lê esta coluna quando escrevo bobagens. Na verdade, eu sempre escrevo bobagens. Mas quando escrevo bobagens com erros de português, aí aparecem leitores impensáveis. No domingo, perpetrei um intenção com S. Ajoelhado no milho, durante uma seção de autoflagelação com 20 chibatadas e antes que me afogue em e-mails reclamando, peço desculpas pelo mau jeito."

 

"Terror fortalece a direita", copyright Jornal do Brasil, 30/09/01

"Ressalvadas as diferenças, que são muitas, há pontos de semelhança entre o atentado terrorista do dia 11 de setembro em Nova York e o seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Elbrik, em 1969.

Embora estarrecidos com o número e o padecimento das vítimas, muitos festejaram a descoberta pelos autores desse atentado suicida em Nova York – sejam eles quem forem – de um novo e poderoso meio de atingir o superpotente e arrogante imperialismo norte-americano. Também de regozijo foi a reação quase unânime entre as diversas correntes de esquerda que combatiam a ditadura militar no Brasil, por ocasião do seqüestro do embaixador Elbrik. Mesmo aqueles que se opunham ao terrorismo como forma de luta adequada às circunstâncias em que vivíamos ficaram empolgados. Era difícil deixar de aplaudir aquela demonstração da inventividade brasileira, que inaugurava no mundo uma forma de golpe político e, ainda que simbolicamente apenas, aplicava uma bofetada certeira no governo dos Estados Unidos, principal inspirador e suporte do golpe de Estado de l964 no Brasil.

Houve exceções, é preciso dizer. Gregório Bezerra foi a mais notável. Com sua singela intuição de guerreiro proletário, e embora pessoalmente beneficiado pelo seqüestro, pois foi incluído entre os presos políticos libertados em troca do embaixador, ele não hesitou em condenar aquela bravata e advertir para os perigos que dela decorriam, tão logo pisou em solo mexicano e pôde falar à imprensa. Mas foram poucos os que mantiveram essa lucidez. A grande maioria soltou foguetes, mesmo que só na imaginação.

É verdade que naquele atentado era mais fácil ficar feliz, pois não houve vítimas na hora. Em Nova York, houve milhares de mortos, feridos e famílias inocentes sofrendo. Mas esses ?feitos? têm dois pontos em comum que não se prestam a festejo: 1) em ambos os casos, atingiu-se apenas a imagem do adversário, não a força real dele, e quem o atingiu não tem, por esse caminho, a menor possibilidade de derrotá-lo; e, 2) em ambos os casos, o que vem a seguir é chumbo grosso.

Aquele seqüestro, e os demais que vieram no rastro de seu êxito aparente, produziram no Brasil uma passividade na opinião pública diante da campanha de terror que a ditadura desencadeou logo em seguida contra a oposição, massificando o recurso à tortura e ao assassinato de oponentes. E isto não excluiu aqueles, como os comunistas, que publicamente se contrapunham a seqüestros e luta armada e defendiam, ao contrário, a expansão do movimento democrático nos marcos da legalidade admitida pelos governos militares.

O resultado é conhecido, mas não custa refrescar a memória: os partidos e movimentos populares de resistência à ditadura foram trucidados. Em conseqüência, a retirada dos militares do governo, quando finalmente se deu, foi sob o comando de políticos conservadores, com custo mínimo para os grupos oligarcas e antinacionais que produziram o golpe de 64, que durante duas décadas se beneficiaram com a ditadura militar e a sustentaram e, depois dela, continuaram no poder.

Esse paralelo com os acontecimentos no Brasil de 32 anos atrás é útil como alerta para o que hoje nos espera. Embora seja impossível prever os acontecimentos nos próximos dias, meses e anos, devemos nos preparar para a possibilidade do mesmo tipo de efeito bumerangue, só que em escala mundial, e de conseqüências muito mais trágicas.

Os que governam os Estados Unidos, com a soberba, a prepotência e a violência que vêm espantando o mundo há mais de uma década, receberam um grande alento. Podem apresentar-se como vítimas e, nessa qualidade, pedir – estão exigindo! – o apoio de todos os países à sua vingança. Esta, no entanto, tende a ser nada mais do que continuidade e a aceleração da política de realizar o que a elite dirigente norte-americana entende como o ?destino manifesto? de seu país, ou seja, dominar o mundo sob todas as formas possíveis, econômica, política, cultural e militar, neste processo que hoje preferem nomear pelo eufemismo de globalização.

O preço dessa expansão imperialista não pode ser outro senão, em primeiro lugar, o sufocamento das liberdades democráticas nos próprios Estados Unidos e a maior pressão para que o povo deste país, à força de um patriotismo exacerbado, apóie a política externa agressiva de seu governo. Paralelamente, vem a coação para que os governos em todo o mundo se submetam ao comando dos Estados Unidos e, por sua vez, submetam seus próprios cidadãos a maiores restrições policiais e privações de direitos.

Por toda parte, e em particular nos países mais dependentes dos Estados Unidos, pessoas e grupos dirigentes que já fechavam os olhos à estridência do patriotismo norte-americano e se dispunham a considerar ?superado? para uso próprio os conceitos de nação e de sentimento nacional, vão pender mais para a escolha do destino de subclasse dominante e súditos do império. Pessoas e grupos de privilegiados, aos quais incomodam o exercício dos direitos democráticos, vão ficar mais à vontade para exigir também em seus países maior repressão aos movimentos sociais e mais controle policial da vida dos cidadãos.

São tendências, não certezas, mas é preciso pôr atenção nelas. Está no ar uma ofensiva mundial de direita, sob comando norte-americano. E quem achou exagero o presidente Bush dizer ?quem não está conosco está com os terroristas? deve ler no Jornal do Brasil deste domingo, 23 de setembro, a entrevista do general alemão da OTAN, Klaus Naumann, na qual ele depositou essa pérola: ?A neutralidade é um conceito do século XIX. O século XIX acabou.?

Na verdade, estão em curso fluxos mundiais de alta complexidade, cuja compreensão só virá a posteriori, ninguém sabe quando. Há poucas semanas, um empresa privada de informação nos Estados Unidos, Stratfor, alinhava evidências de que o governo de seu país, nos últimos dez anos, executa de modo consistente uma estratégia de expansão militar, passo a passo, sobre os territórios que no passado formaram o Império Otomano. Iraque, Arábia Saudita, Palestina, Kosovo e hoje o Afeganistão apenas seriam peças desse tabuleiro pertinazmente reconstituído, agora sob a bandeira das listras e estrelas. Outros, como José Luiz Fiori, em seu artigo fundamental no mesmo JB de domingo último, apontam nessa nova investida para o Oriente a busca de saídas para a crise em que submergiu o dito ?capitalismo global? do Ocidente, na passagem do milênio.

Seja como for, os que se preocupam com a democracia e o interesse nacional, também no nosso país, têm muito com que se preocupar. Não precisam se desesperançar, porém. Os perigos são imensos, mas as razões de otimismo também são grandes.

Nos próprios Estados Unidos já é importante e pode crescer a resistência à política de maior agressividade imperialista. Embora sempre manifestando horror e ódio pelos terroristas que agrediram seu país, intelectuais, jornalistas, parlamentares e até membros do Executivo expressam em número crescente opiniões diferenciadas e críticas em relação ao histerismo e ao belicismo oficiais, pedindo mais reflexão e mais respeito pelos direitos dos povos, e do povo norte-americano em primeiro lugar.

Para citar apenas alguns expoentes, os artigos de Noam Chomsky, Gore Vidal e Susan Sontag, publicados pela Folha de S.Paulo, são nesse sentido exemplares e honram a tradição humanista da intelectualidade norte-americana. Assim como foi exemplar a entrevista de Walter Cronkite no programa Late to Night, quando o mais conceituado âncora de TV daquele país, com moderação e coragem, lembrou o exemplo da conivência do povo alemão com o nazismo, e a culpa eterna que nele ficou por isto, para apelar a seu próprio povo que não consinta hoje com a mutilação de seu direito a uma informação verdadeira e honesta sobre o fatos.

As correntes democráticas são profundamente enraizadas e influentes nos Estados Unidos. Podem ser decisivas no êxito da resistência à direita em escala mundial. Mas precisam de apoio externo para isto.

Esse apoio, entretanto, já aparece. Embora o repúdio aos atos de terrorismo seja praticamente unânime em todo o mundo, pesquisas idôneas também já mostraram quase unanimidade de opinião púbica, no mundo inteiro, em favor da paz e da temperança na perseguição aos terroristas. Em todos os países, mesmo os mais próximos dos Estados Unidos, jornalistas, congressistas e até governantes se manifestam no mesmo sentido.

O Brasil tem um papel a desempenhar nisto, que pode ser relevante, dada a importância regional do país e sua tradição diplomática de defesa da paz. Muito vai depender de que os diferentes setores de opinião nacional sejam capazes de se expressar. Especialmente, dependem disso as pessoas que, no governo, se esforçam por colocar o país numa posição de respeito à identidade e à soberania nacionais. Mesmo num governo até agora tão pressuroso em atender a vontade dos Estados Unidos, essas pessoas existem e, por estranho que possa parecer, são hoje mais numerosas do que antes desses terríveis acontecimentos.

Quem sabe não resultará disso tudo, afinal, um mundo melhor para se viver, mais justo, mais equânime? Quem sabe os próprios Estados Unidos não conseguirão extrair dessa desgraça, que os privou da auto-imagem de onipotência e invulnerabilidade, os ensinamentos necessários para uma convivência melhor com os demais países?

São novos fatos, novas situações, não há fórmulas prontas para resolvê-las. Muitos fatores imprevisíveis vão atuar. Mas é bom prestar atenção nos jovens. Já víamos centenas de milhares deles no mundo inteiro, a começar pelos próprios Estados Unidos, despertando para a vida pública e inventando, também eles, formas novas de ação política. A estes se somarão milhões de outros jovens que estavam entorpecidos pelo vício da violência como espetáculo na TV e que agora, alarmados com esta explosão terrível de violência real que também os atingiu, passam a procurar respostas capazes de ajudá-los a entender e mudar o mundo. Juntos, vão procurar os meios e modos de se articular e se expressar, por cima das fronteiras nacionais, com a agilidade e a universalidade que as novas tecnologias facultam, para defender com êxito seu direito a um destino de justiça, dignidade e liberdade. (Renato Guimarães é editor foi membro do Comitê Central do antigo PCB )"

    
    
                     
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