Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > **

As mudanças também passam pela mídia

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ECOS DA CAMPANHA

Alberto Dines

Não se pode falar em avanço democrático sem mencionar o desempenho da imprensa.

Não se pode falar em desempenho da imprensa ignorando um dado novo e crucial no panorama institucional brasileiro: ela está sendo observada e sabe disso. Este é um diferencial capaz de tornar nosso processo político menos vulnerável às distorções provocadas pelo sensacionalismo e pelas simplificações.

Clima de mudança, atmosfera de troca, ambiente propício para alterações. Não apenas de pessoas. Se há um processo em marcha, a mídia não pode ficar imune nem alheia.

Algo moveu-se e, graças a isso, muita coisa poderá acontecer.

A grande imprensa do eixo Rio-S.Paulo continua desatenta ao que se passa no resto do país…

** …inclusive ao que é noticiado pela imprensa regional. O editor nacional contemporâneo converteu-se num editor político com outro nome ? e o conceito de "nacional" colou-se a uma percepção autocentrada. A importância nacional continua sendo montada através do binômio grandes lances + grandes nomes. Os resultados eleitorais dos dois turnos mostram que o país federalizou-se mas a imprensa, não. Exemplo. Em sua edição de 10/10, o mais importante jornal baiano, A Tarde, publica na sua página 10 um minucioso estudo dos resultados eleitorais indicando que o carlismo só consegue 30% dos votos na Bahia ? fato comprovado pelo próprio jornal de ACM, Correio da Bahia, na edição de 8/10. Isso graças ao índice de abstenções no estado (25%, o maior do país).

A matéria revela também que o grupo carlista no Congresso vai iniciar na próxima legislatura um lobby para acabar com o voto obrigatório. Considerando as sólidas conexões do chefe do grupo com a grande imprensa ao sul, a iniciativa poderá ter sucesso. Garante-se assim o que na Bahia os adversários de ACM chamam de "maioria com um terço".

O pesquisismo domina a cobertura eleitoral e margens de erro enganam os incautos.

** Convém conferir a progressão das últimas pesquisas: na quinta-feira (24/10), os institutos garantiam o placar 66% a 34%, em favor de Lula. No domingo, já considerando os efeitos do debate na sexta, os institutos (e os jornais a eles atrelados) baixaram as expectativas: 64 a 36. Os resultados oficiais do TSE publicados na segunda-feira (28/10) indicavam 61 a 38. A diferença de cinco pontos percentuais (em números redondos) entre uma sondagem e a votação quatro dias depois não tem qualquer implicação eleitoral ou política, é irrelevante. Mas significante no caso de uma mídia que idolatra cifras. Na loteria ou no jogo do bicho não existem aproximações ? número é número. Em nossas redações, número é uma vaga noção de mais ou menos.

Jornal do Brasil também fez questão de escorregar

** E o fez um dia antes da votação (sábado) em dobradinha com o dono do mais antigo instituto de pesquisas, Carlos Augusto Montenegro. Título principal: "Diretor do Ibope avisou a FH em 2001 que ele perderia". Achando que não conseguiria chamar a atenção do leitor no meio de tantas pesquisas e previsões, o jornal recorreu ao pretérito improvável para garantir o futuro previsível. A inconfidência e deselegância do empresário-pesquisador só encontram paralelo na irresponsabilidade do veiculador. Convencionou-se (com o respaldo do Código Eleitoral) que mesmo nos dias da votação podem ser divulgados resultados de sondagens. Mas confundir o leitor-eleitor com um vaticínio retrospectivo é demais.

Debates são fundamentais, de preferência com formatos diferentes

** Candidatos e seus marqueteiros podem gostar ou desgostar do número de debates. Estão no seu direito. Mas sob o ponto de vista do eleitor quanto mais debates, melhor. O inédito formato adotado no último debate pela Rede Globo foi extremamente esclarecedor. A Folha de S.Paulo (mordida de inveja), considerou-o como confronto de "palestras" querendo dizer que foi "maçante". Ao contrário, foi o ponto alto da mais longa e mais disputada campanha eleitoral da história republicana. Prova de seu sucesso (além dos índices de audiência) está na ligeira inflexão nas sondagens de opinião feitas a partir do dia seguinte e no resultado final.

Protagonismo e vedetismo têm sido os acionadores de comportamentos jornalísticos impróprios…

** …mas ainda não foram inteiramente erradicados. Modéstia e imodéstia, são atributos pessoais mas podem ser estendidos a empresas, organizações e jornais. Exemplo pitoresco deu a Folha na sua edição de sexta-feira (25/10), dia do último debate na Globo, quando as atenções do país estariam voltadas durante algumas horas para o grupo concorrente. Em vez de esperar até a segunda-feira e, depois de divulgados os resultados, fazer o julgamento sobre o desempenho da mídia, o bravo jornalão encurtou a campanha eleitoral, antecipou o balanço e autoproclamou-se como o veículo mais imparcial. O Ouvidor, em geral comedido, estrilou: "…surpreendentemente, em choque com os dados, o titulo na primeira página era ? ?Folha se manteve eqüidistante no segundo turno? ? quase uma afronta à inteligência do leitor…" [veja íntegra no primeiro bloco da rubrica Voz dos Ouvidores, nesta edição do OI].

Uma eleição quase impecável, a consagração de um dos candidatos e o início da transição entre os dois governos não deve impedir que sejam desencavadas outras avaliações. Nem o desempenho razoável deve tapar o olho dos críticos da imprensa.

Dentro de dois anos teremos novo pleito. Se os erros não forem identificados agora, correm o risco de tornarem-se incuráveis.

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