Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > 4)

As palavras e seus usos

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

RADICAIS DO PT

Victor Gentilli

Os quatro ou cinco deputados e senadores petistas que dão conhecimento público à quase convicção de recusar-se a votar a proposta de reforma da Previdência enviada pelo governo ao Congresso são chamados pela mídia de radicais. Com ou sem aspas, dependendo do caso. Seriam eles, de fato, radicais? Vejamos:

1) Aceitam, disciplinadamente, o superávit fiscal

O governo opera desde a posse com uma política econômica baseada no superávit fiscal. No passado, seja remoto, seja recente, não há registro de momento algum em que o PT tenha aceito este modelo de política econômica, sequer como transitória ou como opção tática.

2) Aceitam, disciplinadamente, a atual política de juros

Se outro governo, qualquer outro governo, tratasse os juros como o atual governo trata as bancadas petistas, em uníssono, estariam se esgoelando na crítica. O vice-presidente não é petista. Qual o petista que condena tal política, explicitamente? O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, flagrado inadvertidamente, não sabia que sua crítica à política econômica estava sendo ouvida por jornalistas.

3) Aceitam, disciplinadamente, o pagamento regular da dívida externa

Aliás, eis um assunto que simplesmente saiu do noticiário da grande imprensa. Afinal, não interessa a ninguém. O governo paga e a imprensa gosta de que o governo pague. Se é verdade que mais de 90% da população brasileira, no plebiscito organizado pelo PT e pela Igreja Católica em 2001, não apóiam este pagamento, por que este silêncio absoluto?

4) Os supostos “radicais” não se manifestam sobre a reforma tributária nem sobre inúmeros outros pontos polêmicos da reforma da Previdência

Os chamados “radicais” silenciam disciplinadamente sobre a reforma tributária e até mesmo sobre a reforma da Previdência. Todo o alarde midiático fecha o foco num ponto específico da proposta de reforma, que é a taxação dos inativos.

Seriam eles, de fato, radicais?

O epíteto estaria adequado a seus perfis políticos?

Inquietações abrandadas

Tenho dúvidas. Há indícios e evidências de que o grupo de parlamentares incomodados com a política do governo para a reforma da Previdência é muito maior do que os quatro ou cinco em destaque na mídia. Não é improvável que a imprensa, tradicional defensora desse tipo de reforma, esteja “ajudando” a cúpula governista fazendo a opinião pública crer que o desconforto no PT com a atual política governista limite-se a “quatro ou cinco” indisciplinados.

O documento subscrito por oito dos 14 senadores petistas, que resultou na crise
logo resolvida da liderança de Tião Viana, pode ajudar
a compreender o quadro político para além dos aspectos
meramente episódicos do impasse. A fala tímida e nada
estridente, mas firme e decidida, do senador Paulo Paim mostra que
os “radicais”, a mídia e a cúpula do governo
parecem apropriar-se da conjuntura com a mesma tática.

Tivéssemos uma imprensa menos conservadora e menos governista, saberíamos o que acontece.

Os jornais precisam explicar por que não explicam o que de fato acontece. E, igualmente, explicar o que se passa no país.

Enquanto os jornais silenciam sobre o essencial, o desconforto do governo cresce na mesma proporção. Que outro motivo justificaria o fato de o presidente Lula manter-se silencioso diante de jornalistas por quase 150 dias, como observou primeiro o jornal Valor Econômico, depois a Folha e, mais recentemente, o sítio Comunique-se?

O problema, a rigor, não é do presidente Lula. Ele certamente quer falar, até porque gosta de falar e sabe que sua fala convenceria, que seus argumentos seriam entendidos. Lula saberia explicar, justificar. As inquietações certamente estariam abrandadas.

E a sociedade, agradecida, saberia o que está acontecendo agora.

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