Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > LIVROS E FUTEBOL

As paróquias da grande imprensa

Por lgarcia em 20/06/2001 na edição 126

LIVROS E FUTEBOL

Deonísio da
Silva
(*)

O leitor que gosta de futebol não o encontra nos grandes
jornais, nem nas grandes redes de televisão. Só se
ele quiser saber apenas o que se passa no Rio e em São Paulo.
Em matéria de literatura, não é diferente.
Em música, idem. Em outras artes, ibidem. Em outras áreas,
a mesma omissão. Com exceção do crime. Daí
o leitor é abalroado por notícias de todos os cantos
do país. O sujeito briga com a sogra lá em Alegrete
e se um dos dois morrer, receberá atenções
exageradas. Quem sabe, até mesmo uma Linha Direta
na Rede Globo.

E entretanto o Brasil é a maior nação do mundo
que está coberta por uma única língua. Quem
fala ou escreve pode ser entendido por qualquer leitor ou ouvinte.
Do Oaipoque ao Chuí, todos falam e escrevem em português,
com leves variações dialetais, de sotaque, de acento.
Escreveu, pronto, o leitor leu. Mas o que escrevem e como escrevem?
O que transmitem e como transmitem?

Aos fatos. Na década de 1970, o Internacional de Porto Alegre
armou um time imbatível e foi tricampeão nacional.
Quando é que se ouvia falar dele? Quando chegava às
semifinais e jogava em São Paulo ou no Rio. Com o Grêmio,
não é diferente. Foi campeão estadual, nacional
e mundial. Algumas linhas e poucas fotos resolveram o problema.
Há outros exemplos, mas o espaço é curto.

A imprensa mudou? Não. Domingo, 17 de junho. O Grêmio
estava no Morumbi para enfrentar o Corinthians. Na Rede Globo, Galvão
Bueno só faltou comemorar a vitória do Corinthians
antes de iniciar a narração. Final do primeiro tempo:
o Grêmio vencia por 1 x 0. E perdera vários gols. No
intervalo, Galvão Bueno insistia que Wanderley Luxemburgo
iria mudar tudo para o segundo tempo, dando a entender que a virada
era certa. A seu lado, os ex-jogadores Casagrande e Falcão
discordavam. O primeiro chegou a dizer que Tite, o técnico
do Grêmio, dera um nó tático em Luxemburgo.

Veio o segundo tempo. Antes que o galo cantasse três vezes,
Galvão Bueno fora traído pela realidade. O Grêmio
fez 2 x 0 em menos de dois minutos. Onde estava a sabedoria do ex-técnico
da seleção? O gato comeu. Perdidos em campo, os corintianos
davam a alma. O empate em zero a zero ou um a um lhes daria o título.
Fizeram um gol. O Grêmio fez o terceiro e liquidou tudo.

Nota quatro

Por que o leitor esteve censurado esse tempo todo? Ninguém
sabe quem é Tite, o técnico do Grêmio. Se um
dia, ele, a exemplo de Felipe Scolari, chegar a técnico da
seleção, a imprensa vai pesquisar o seu percurso.
Onde? Em jornais locais. Por quê? Porque os grandes temas
brasileiros são tratados sem a grandeza que fazem por merecer.
Menos no crime, reitero. Daí será necessário
fazer como a Folha de S.Paulo, que foi pesquisar a vida de
Felipe Scolari e o que escolheu para mostrar aos leitores? Que ele
foi zagueiro em Alagoas e que depois treinou um time financiado
pelo pai de Teresa Collor. Meu Deus! Um profissional é diversas
vezes campeão estadual, nacional e no estrangeiro por pequenos
e grandes times, leva-os às finais de campeonatos mundiais
e um dos maiores jornais do Brasil só encontra para informar
os leitores que ele um dia foi zagueiro e treinador em Alagoas?
Daí o interior serve, né?

Ainda no mesmo jogo. No intervalo da transmissão pela Rede
TV! ? quem será que escolheu este nome? ?, Juca Kfouri não
usou meias palavras, como é de seu hábito. Discordou
de todos os ufanistas que torciam ou davam a impressão de
torcer pelo Corinthians e chamou seu colega para contar a partida
como a partida tinha sido no primeiro tempo. Saiu um "DataCajuru"
completamente diferente de qualquer retrato. O jornalista Cajuru
mostrava que o Grêmio tinha sido melhor, encurralara o Coríntians
e ia fazendo o que queria na partida. Os dois melhores jogadores
do Coríntians tinham errado mais de 60% dos passes. Se estivessem
fazendo provas numa escola, teriam sido reprovados. Pois tirariam
apenas quatro!

Quem é Luís Felipe Scolari? Não sabemos. A
imprensa nos deve um perfil do técnico da seleção
brasileira, de seus métodos, de seus conceitos sobre futebol,
de suas conquistas, que são muitas, de seus fracassos ? estes,
raros. Ora, para a maioria dos brasileiros o técnico da seleção
é mais importante do que o presidente da República.

Multicultural e multiétnico

Para não dizerem que é só no futebol que somos
vítimas de tamanha desinformação, darei outros
pequenos exemplos. Sem tirar nem pôr, o maior escritor do
século 20 não é paulista nem carioca. Os leitores
mais sofisticados talvez fiquem com o mineiro João Guimarães
Rosa ou com a ucraniana Clarice Lispector. Os que prezam a arte
de narrar sem dificultar muito a vida do leitor hesitarão
entre o baiano Jorge Amado e o gaúcho Erico Verissimo. [Não
sei por quê, a Folha de S. Paulo, que por sua própria
conta aboliu o trema, para irritação do leitor, obrigando
até mesmo o professor Pasquale a errar sempre que escreve
ali, porque aceitou submeter-se à transgressão, põe
acento em Erico e Verissimo. Luís Fernando Veríssimo
tem acento em prenome e sobrenome; seu pai, não.]

Guimarães Rosa teve espaço nos cadernos literários
por ser escritor ou por ser diplomata? Jorge Amado, por ser escritor
ou por ser político e militante comunista? Clarice Lispector
? esta, todos sabemos ? porque morreu. Nossa grande imprensa, em
sinistra parceria com nossa vida acadêmica, exige antes o
atestado de óbito para reconhecer o talento. E às
vezes nem esse documento é suficiente. Quanto a Erico Verissimo,
melhor saber o que dele e de sua obra disse o crítico e professor
Flávio Loureiro Chaves, que redigiu o volume final das memórias
de Erico. Mas quem o pautará?

Pois há anos os grandes jornais insistem em autores de um
livro apenas, autores sazonais, e tentam impor-nos como o que há
de melhor em nossas letras. Por quê? Porque não temos
mais repórteres, não temos mais pesquisadores, porque
seus editores levam seus livros à redação,
porque os informes chegam prontos, por isso ou por aquilo. Mas basicamente
porque eles e seus editores moram no eixo Rio-São Paulo.
Há exceções, há exceções,
calma! Mas são exceções, frutos de competência
e ética profissionais de quem eventualmente esteja em instâncias
decisivas. Não há um norte editorial no veículo!

Ano passado, o prêmio Jabuti foi concedido a um escritor
do interior de São Paulo, Menalton Braff, que mora em Serrana
e dá aula em cursinhos. E é publicado por uma pequena
editora de Ribeirão Preto! Em 2000, o prestigioso prêmio
da Associação Paulista de Críticos de Arte
(APCA) foi conferido a Salim Miguel, autor do melhor romance, Nur
na Escuridão
, narrando em bela síntese a saga
de uma família árabe no Brasil. Foi publicado pela
Topbooks. Há milhões de descendentes de árabes
no multicultural e multiétnico Brasil. Salim Miguel nasceu
em São Paulo? No Rio? Não. No Líbano. Mas mora
em Florianópolis e este ano está comemorando 50 anos
de vida literária. Há milhões de descendentes
de árabes no Brasil. Só de libaneses, são 6.000.000!
Grafei em números para ver se chamo a atenção
para eles, que fazem por merecer. O que sabemos desses dois grandes
escritores? Pela imprensa, pouco ou quase nada!

Coisa à vista!

Não nos admiremos de um grande jornal não vender
mais no Brasil inteiro. Eles não querem ser nacionais. Nem
eles, nem certas revistas. Aos fatos. Não sei se já
mudou, mas até há algum tempo o Caderno 2 de O
Estado de S.Paulo
para São Paulo e algumas capitais,
era um; para o resto do Brasil, outro. A Folha de S.Paulo
tem um caderno "Acontece", que só acontece em São
Paulo, na capital. A revista Veja oferece aos leitores de
São Paulo a Veja São Paulo. O preço?
O mesmo para todos. Mas quem não mora em São Paulo
não recebe a chamada Vejinha, que é de graça.
Até parece que os brasileiros de outras regiões não
visitam a maior megalópole brasileira, não vão
ao cinema, ao teatro, a shows, não freqüentam restaurantes,
nem precisam saber de outros espetáculos e ? ó dor
? não podem ler a crônica da última página
da Veja São Paulo. Quem critica, pode elogiar. A de
Walcyr Carrasco, na edição de 20 de junho, estava
imperdível! "Tudo é máfia, acredite: com
a crise, há gente que até reaproveita vela usada de
cemitério." E a capa dizia o seguinte: "Delícias
da Serra: novos hotéis, passeios, restaurantes e baladas
prometem esquentar o inverno de Campos do Jordão".

Ai, ai, ai, meus sais: nós, do resto do Brasil, estamos
proibidos de saber dessas delícias? O turismo interno é
assunto exclusivo de paulistanos? Por essas e outras, ainda acho
que um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos é
o Barão de Itararé. Queiram me desculpar o excesso
de Brasil meridional neste texto. Será para compensar? Não,
deve ser o efeito Felipão, o nosso mais recente salvador
? até perder a primeira, claro! O célebre humorista
gaúcho é autor desta jóia rara: "De onde
menos se espera, dali mesmo é que não sai nada".
Por isso, a capa da revista Carta Capital que está
nas bancas com uma foto de Fernando Henrique Cardoso com um chapéu
de doutor do tamanho de um abajur também caiu na esparrela.
O título é: "O intelectual já era".
E quem opina? Os mesmos de sempre. Mas esses, o que mais fazem é
se repetirem. Pelo amor de Deus, o Brasil é maior, mais diverso,
mais complexo. Pautem outros. Pelo menos, pautem outros para lhes
fazerem companhia. Para que os contrastes venham à luz. Ou
o apagão afetou também as idéias nas redações?

Não me tomem por resmungão, o que, aliás,
iria de encontro ao meu ? como direi? ? jeito de viver. Sofrimento
é para sair na urina, o que não sai na grossa, que
saia na fina. Somos um povo generoso e bom, temos o segundo mercado
editorial das Américas, no conjunto nossa imprensa nos informa
de tudo, as editoras tudo publicam, mas os espelhos estão
confinados a alguns arquipélagos. E sou um inconformado com
o fato de o Brasil verdadeiro aparecer sempre em tão pálidos
relâmpagos em nossa grande imprensa. Precisamos interromper
nossa vocação paroquial. Precisamos deletar os ressentimentos
geográficos, os guetos intelectuais, precisamos fazer a reforma
agrária também nas letras e, principalmente, na Galáxia
Gutenberg. É verdade que a internet já começou
o processo e a própria existência do Observatório
da Imprensa
atesta o que afirmo: que as inconformidades estão
se manifestando.

Os leitores não merecem essa pequenez. O leitor assiste
a futebol, tênis, vôlei, basquete, ouve rádio,
vê televisão, vai ao teatro, ao cinema, lê jornais,
revistas, livros e ? que bênção! ? navega nessas
águas por onde singro eu com minha modesta canoinha para
avisar aos outros navegantes: coisa à vista! Romancista ao
sul! Teatro a bombordo! Cinema a estibordo! Artes plásticas
ali à frente! Intelectuais fora do eixo! Povo e leitores
em todos os lugares!

Pois é. Mas sem poderem ver o que se passa nas regiões
onde vivem, dominadas pelos Pravdas locais! O poder local
da República Velha trocou de lugar. Em vez de cangaceiros,
pequenos e médios veículos formando currais eleitorais!
E o capitão-do-mato desce o açoite nas teclas do computador!

O federalismo salvou o Brasil. Que nossa imprensa não ajude
a enterrá-lo!

(*) Escritor e professor da Universidade Federal de São
Carlos, doutor em letras pela USP, é colaborador regular
das revistas Caras e Época e escreve semanalmente
em <wwww.eptv.com.br>. Seu livro mais recente
é o romance Os Guerreiros do Campo.


    
    
                     

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