Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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As pesquisas não mentem, os jornais sim

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

NÚMERO-NOTÍCIA

Luiz Gonzaga Motta, de Barcelona (*)

A divulgação de uma pesquisa realizada pelo governo espanhol em Madri revela com toda a evidência como os mesmos números podem ser utilizados de formas completamente diferentes por jornais de posturas políticas distintas, levando os leitores a receber conteúdos opostos e certamente a assumir atitudes opostas sobre os fatos políticos, dependendo do veículo que escolham para ler. O fato é importante para uma reflexão sobre a divulgação dos números das pesquisas eleitorais, que certamente serão manchetes dos jornais e emissoras de rádio e TV brasileiros nos próximos meses. Os jornais conservadores espanhóis destacaram os dados que favorecem os pontos de vista contrários à greve geral de trabalhadores da quarta-feira, dia 20, enquanto os jornais independentes, ou aqueles ligados aos socialistas, mostraram números em que o apoio da população à greve geral era o destaque.

Com o objetivo de protestar contra a reforma trabalhista do governo espanhol, a greve geral de 24 horas foi convocada pelas centrais sindicais para a véspera da Reunião de Cúpula dos Chefes de Estado da União Européia, marcada para os dias 21 e 22 desta semana em Sevilha. A marcação da greve geral para esta data desencadeou grande debate político na imprensa porque o governo acusou as centrais sindicais de estarem fazendo provocação ao marcar a paralisação para um dia inoportuno, além de insistir no caráter político da greve cujos objetivos seriam atingir o presidente José Maria Aznar, que coincidentemente termina seu exercício interino na presidência do Conselho da União Européia (a presidência se alterna a cada 6 meses). A pesquisa divulgada na quinta feira retrasada, data em que a Espanha celebrava 25 anos de democracia pós-franquista, foi realizada pelo instituto de pesquisas CIS-Centro de Investigaciones Sociológicas, a pedido do governo.

O conservador diário ABC trouxe chamada de capa e destacou em manchete de página inteira a informação de que 54% dos trabalhadores não participarão da greve do dia 20, radicalizando ainda mais no subtítulo, onde destacou que as principais preocupações das pessoas com a greve dizem respeito ao funcionamento dos serviços mínimos e à violência dos piquetes informativos, procurando diminuir o envolvimento dos cidadãos espanhóis com a paralisação. Os editores deste jornal seguiram ao pé da letra os números destacados pelo porta-voz do governo ao divulgar a pesquisa, enfatizando a condenação da greve, sem nenhuma independência política.

Os jornais independentes, como El País, atribuíram menos importância à pesquisa pelo fato de ela ter sido ela contratada e divulgada pelo próprio governo, e não deram chamada de primeira página. Mesmo nas páginas internas, a pesquisa mereceu menor atenção e os dados destacados foram outros. A matéria sobre a pesquisa no País relatou praticamente o oposto daquilo que o conservador ABC divulgou, afirmando no título que "A maioria dos espanhóis está de acordo com a greve, segundo o CIS". O lide da notícia abre dizendo que 50.6% da população estão de acordo com a greve geral, contra apenas 34.7% que estariam contra.

As informações dos dois jornais são inteiramente opostas, portanto. Na verdade, estes dois jornais utilizaram dados corretos da mesma pesquisa, mas de acordo com interesses diferentes, para revelar posições a favor ou independente em relação à greve das centrais sindicais. A pesquisa revelara que 50% dos trabalhadores não tinham intenção de participar da greve, contra 34% que tinham, mas revelara também em relação à população geral do país que 50% dos espanhóis apoiavam os motivos da greve, contra 34% que não apoiavam.

Estratégia conservadora

Quando a informação se refere a números, especialmente a números relativos a assuntos muito controversos, a ênfase em outro dado pode modificar inteiramente a interpretação da realidade pelos leitores do jornal, e criar opiniões opostas. Os jornalistas sabem disso, os políticos também. Os números têm uma aura mágica e exercem muito fascínio sobre as pessoas, contêm a mística da verdade científica e muita força persuasória. Não é à toa que os partidos políticos brasileiros brigam tanto quando se sentem prejudicados pela divulgação dos resultados de pesquisas dos institutos de opinião pública. No Brasil, o grau de informação política é muito precário, as posições ideológicas são pouco consolidadas e a divulgação de números tem um poder de convencimento muito grande. A ênfase num ou noutro dado de pesquisa pode levar a opinião pública a acreditar numa informação completamente diferente da realidade.

Não é muito diferente na Europa, entretanto. Voltando à imprensa espanhola, o conservador ABC manipulou mais ainda os dados. No texto, destaca que 64% dos cidadãos consideraram que os sindicatos deveriam ter realizado um esforço maior para negociar as reformas trabalhistas propostas pelo governo. A informação não está correta, de acordo com os números da própria pesquisa, pois o total de cidadãos que pensa assim é de apenas 54,1%. Descaradamente, para aumentar o percentual, o jornal somou neste total as respostas "não sei". Mas, além de falsificar para mais o número, o jornal omite a informação de que 70% dos mesmos cidadãos consideraram que o governo também não realizou os esforços que deveria ter realizado para evitar a greve geral. O argumento que o jornal quer impor com a revelação dos números é, na verdade, contrário às suas alegações.

Na matéria sobre a pesquisa, El País, muito mais ponderado e independente em relação à posição do governo, divulgou os dados corretamente e ainda criticou a forma parcial com que a pesquisa foi anunciada. O jornal contou que o porta-voz governamental não apenas omitiu certos dados do relatório técnico de sua própria pesquisa, como destacou outros de seu interesse. Por exemplo, 53,7% dos espanhóis crêem que há razões suficientes para a decretação da greve geral, frente a somente 37,1% que opinam o contrário. Nenhum dos dois jornais destaca, porém, que dá empate nas opiniões dos cidadãos sobre a data do encontro: metade é a favor, a outra metade, contra. Outro dado que os jornais não destacaram foi a maturidade política demonstrada pelos cidadãos espanhóis no 25? aniversário de sua democracia, mesmo com toda a acusação de irresponsabilidade por parte do governo aos organizadores da greve nas últimas semanas: 64,3% declararam não ter nenhum temor em relação à convocação da paralisação geral, que podem ser somados a outros 22% que declararam ter pouco temor. Ou seja, para 86,3% dos cidadãos, a greve é parte do jogo democrático, posição muito mais ponderada do que as agressivas reações do governo e dos jornais conservadores contra a paralisação, principalmente por parte do presidente José Maria Aznar.

Há muito tempo os estudos acadêmicos demonstraram que, na realidade, não há posição independente no jornalismo. Depois dos estudos denuncistas do primeiro momento, em geral a partir de inspirações marxistas, as pesquisas acadêmicas continuaram mostrando que os jornais ? quer queiram quer não ? fazem parte do jogo de poder. Os estudos mais contemporâneos, entretanto, mostram que a participação dos jornais neste jogo político é mais complexa, podendo tender para um lado ou para outro, embora na maioria das vezes o setor cobre independência como um ator político que não quer perder seu lugar na mediação dos conflitos. Há ocasiões, entretanto, em que as opções ficam escancaradas, como no caso do jornal espanhol ABC, como acabamos de ver.

Em geral, os jornais conservadores são mais descarados com relação ao seu papel no jogo político. Eles tendem a assumir suas posições com mais desfaçatez, embora cinicamente afirmem com ênfase sua neutralidade política. A reafirmação desta neutralidade, nestes casos, é parte de uma estratégia conservadora para angariar leitores e consolidar uma opinião à direita no jogo político. É isto que verificamos no caso que estamos examinando. O conservador ABC, além de toda a manipulação dos dados da pesquisa, não se conformou com a reação à divulgação dos dados: por sua própria conta, saiu em defesa da pesquisa do governo e foi buscar nos anais da história comprovação de que, em momentos anteriores, outros governos promoveram pesquisas semelhantes e as divulgaram em datas inapropriadas, como se um erro justificasse outros.

(*) Jornalista e professor da Universidade de Brasília, atualmente fazendo pós-doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona

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