Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO FEMININO

As primeiras-damas mudaram

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

JORNALISMO FEMININO

Ligia Martins de Almeida (*)

Depois da professora Ruth Cardoso, chegou a vez da operária Marisa da Silva. E a imprensa, que saudou a intelectual, se rende à elegância da ex-operária. Os destaques vão para o vestido vermelho da posse, a simplicidade em usar um cabelereiro de Brasília para a festa da investidura do marido e, é claro, a habilidade culinária da primeira-dama. Afinal, não é qualquer dona-de-casa que tem no currículo o fato de ter preparado, com sucesso, um frango com polenta para o comandante Fidel Castro. No mais, fala-se do romance do primeiro casal, da criação dos filhos e da maneira discreta como sabe se conduzir.

A exemplo de Ruth, nossa exemplar ex-primeira dama, Marisa é discreta, segura e, graças a Deus, uma mulher simples, no que a simplicidade tem de melhor. E na sua simplicidade objetiva, tem tudo para fazer, seguindo os passos de Ruth, um bom trabalho na presidência da República.

Numa entrevista já no final do mandato do marido, Ruth Cardoso disse que a imprensa, no começo, incomodou. Discutia suas roupas, suas jóias, seus óculos e cabelo, sem lembrar de uma vida toda dedicada à carreira universitária e à família. Mas durou pouco. Afinal, uma primeira-dama que repete roupas e jóias e que faz um trabalho sério não rende boas fotos e textos divertidos. Com Ruth terminou ? felizmente ? a era das "peruas" e da futilidade no Alvorada. Ela abriu caminho para um novo momento que poderia começar logo, se a imprensa feminina resolvesse falar sério com Marisa da Silva. Afinal, não se enfrenta o trabalho na fábrica, a luta sindical, a prisão do marido e 12 anos de campanha política para chegar à presidência sem adquirir uma clara visão da política nacional.

Novo momento

Muito antes do novo Código Civil dar à mulher o direito de ser cabeça do casal, Marisa, na prática, foi mãe, pai e responsável pela casa. Com toda a certeza não era cabeça do casal para a Receita Federal, pois, com salário de operária, sua declaração de renda era a simplificada, aquela que permite tirar o CIC e fazer prestação na hora de comprar uma coisinha melhor para a casa.

Que tal discutir com essa feminista a condição da mulher? Em vez de falar dos quadros do palácio e da escolha das roupas, que tal perguntar sobre as condições de trabalho nas fábricas, sobre o assédio dos chefes, sobre a ginástica para fazer o magro salário chegar ao fim do mês? Que tal conversar com nossa primeira-dama sobre a vida num bairro operário, sonhando com uma condição melhor, enquanto as revistas e a TV mostram roupas e casas inacessíveis? Enfim, que tal cair na real e lembrar que a maioria das mulheres brasileiras não tem dinheiro sequer para comprar uma revista feminina para ver o que é moda e o que usar para se sentir melhor?

E quem sabe, saindo ainda mais das habituais pautas, que tal discutir com a companheira primeira-dama os abusos como as pensões herdadas por filhas (para sempre "solteiras", para não perder o "direito adquirido") de falecidos magistrados, militares e outros funcionários públicos? Talvez ouvindo da primeira-dama um relato sincero da vida entre as mortais que não têm gordas pensões e precisam criar filhos com modestos salários, os magistrados se emocionem e descubram que todos temos os mesmos direitos.

A imprensa feminina, que se vangloria de prestar serviços às mulheres, poderia começar a revolução preconizada pelo ministro Marco Aurélio Mello abrindo espaço, em sua pauta, para assuntos que realmente interessam à maioria das mulheres. Não é preciso deixar da dar moda, beleza, decoração e temas afins. Mas que tal abrir espaço para a discussão de idéias e mostrar a todos que faz muito tempo que deixamos de ser a mulher escondida atrás do grande homem? Que, como fez questão de enfatizar o presidente Lula, somos "companheiras" no sentido mais amplo da palavra? As mulheres da imprensa, que se indignaram com o candidato que definiu o papel da sua mulher (mulher brilhante, aliás) como serviçal sexual, deveriam aproveitar o novo momento e mostrar a que vieram. Está na hora de falar sério e de perceber que já não se fazem primeiras-damas como antigamente. Para sorte das mulheres, do país e da imprensa feminina.

(*) Diretora do site Muito Melhor Cozinha <http://www.muitomelhor.com.br/>

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