Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > WATERGATE, 30 ANOS

As reportagens que derrubaram Nixon

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

WATERGATE, 30 ANOS

Edgard Rebouças (*) e Kristiane Pereira (**)


Cinco presos em complô para
grampear escritório dos democratas


Há exatos 30 anos, no domingo, 18 de junho de 1972, este título de duas linhas, em três colunas na capa do The Washington Post, mudou a história do jornalismo mundial. O que parecia mais uma corriqueira matéria da editoria local sobre a prisão de cinco arapongas desastrados que tentavam colocar escutas nos telefones do comitê de campanha presidencial do Partido Democrata, acabou levando os Estados Unidos à maior crise política de sua história culminando, dois anos depois, na renúncia do presidente Richard Nixon na véspera do anúncio de seu impeachment, além da prisão de alguns de seus assessores mais diretos. O escritório dos democratas em Washington ficava em um conjunto de salas do edifício Watergate, que acabou dando nome ao caso.

A partir daquela data, os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein se tornaram ídolos de toda uma geração que lotou escolas de Jornalismo em muitos países. A legitimação da notoriedade ganhou proporções ainda maiores depois que o caso passou das conversas dos círculos de jornalistas para as telas dos cinemas nas figuras de Robert Redford e Dustin Hoffman, com o filme Todos os Homens do Presidente. Nos Estados Unidos, onde não há exigência legal do diploma para o exercício da profissão, hoje existem 64 escolas de Jornalismo. No Brasil, são 177. Dizer que estes números estão associados somente à repercussão do caso Watergate seria demais, mas certamente a saga da dupla "Woodstein" influenciou muita gente.

Na época da publicação das primeiras matérias no The Washington Post o Brasil ainda estava sob a ditadura militar, e os jornais eram obrigados a dedicar boa parte de suas páginas à editoria internacional, com material vindo das agências. Como não se podia falar sobre os arapongas do governo brasileiro, o espaço dedicado às armações políticas nos Estados Unidos acabou ganhando certo destaque por aqui. Jornalistas de política dos anos 70 se miravam no trabalho dos colegas americanos na esperança de um dia poderem ter a chance de noticiar a renúncia ou o impeachment de um presidente ? fato que só ocorreu 20 anos depois com o escândalo não coincidentemente apelidado de "Collorgate".

É um erro acreditar, no entanto, que tudo deu certo no trabalho de apuração de Bob Woodward e Carl Bernstein. Nenhum dos dois era foca ? um tinha 29 e o outro 28 anos no início do caso ?, mas cometeram equívocos primários no processo jornalístico. O primeiro deles foi o de se valerem principalmente de métodos dedutivos e indutivos no caminho que os levou dos cinco arrombadores até os gabinetes dos assessores de Nixon. Caso não tivessem feito tanto ensaio e erro poderiam ter chegado aos principais envolvidos muito antes. O segundo erro foi o de confiarem quase que exclusivamente em uma só fonte, o famoso e até hoje desconhecido Deep Throat ? Garganta Profunda. É dessa fonte a pista de seguir a origem do dinheiro que bancou a operação dos arapongas no comitê dos democratas. No Brasil, também foi o rastro do dinheiro que fez com que Fernando Collor fosse cassado e PC Farias viesse a ser preso por sonegação fiscal. Uma outra analogia com a fonte misteriosa do caso Watergate são aquelas famosas "fontes palacianas", tão comuns nos textos de alguns anos atrás.

A própria existência de Deep Throat é muito questionada, o que faz com que o caso ganhe fôlego a cada suspeita levantada. Como os dois repórteres dizem ter um compromisso de só revelar o nome da fonte após a sua morte, uma série de suposições são lançadas de tempos em tempos. A "teoria da Casa Branca", por exemplo, é a que defende que para uma pessoa ter acesso a tantas informações ela só poderia ser um dos "homens do presidente" ? as apostas recaem sobre Alexander Haig, chefe de pessoal de Nixon, e Henry Kissinger, ex-secretário de Estado e responsável por assuntos de segurança. Há ainda a "teoria do FBI", segundo a qual a fonte seria um alto funcionário do Federal Bureau of Investigation, e a "teoria da CIA", que liga o nome do ex-diretor da Central Intelligence Agency, William Colby, a Bob Woodward.

Apesar de todas essas hipótese, uma das mais interessantes versões sobre Deep Throat foi publicada em setembro de 1998 pelo The New York Times. Em uma entrevista com o ex-agente literário dos dois repórteres, David Obst, foi revelado que não apenas a fonte como suas dicas são pura fantasia. Que foi tudo inventado para dramatizar a história contada no livro e no filme. Quem sabe um conjunto de "fontes palacianas" materializadas em uma só pessoa?!

O fato é que hoje, passados 30 anos, Bob Woodward continua trabalhando no The Washington Post, fazendo comentários no programa Larry King, da CNN, e escrevendo livros de sucesso (os mais recentes são The Commanders, sobre as decisões da Casa Branca e do Pentágono a respeito das operações no Panamá e no Iraque; Maestro, sobre Alan Greenspan no comando do FED; e Shadow: Five Presidents and the Legacy of Watergate 1974-1999, na sombra do caso que o tornou mundialmente conhecido); Carl Bernstein largou o jornalismo diário no início dos anos 80 e passou a escrever livros sem muito destaque (o mais recente foi lançado no Brasil com o título de Sua Santidade, sobre a "história oculta" do Papa João Paulo II); e, mesmo depois de três décadas, milhares de jovens ? e não tão jovens assim ? jornalistas continuam pelo mundo afora em busca de seu caso Watergate.

(*) Jornalista, professor das Faculdades Associadas do Espírito Santo (Faesa) e doutorando em Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).

(**) Formanda em Jornalismo na Faesa com o trabalho de conclusão de curso "Watergate e as mudanças no jornalismo investigativo".

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