Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DE FOLHA

As sombras do poder

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

LEITURAS DE FOLHA

Vanessa Candia (*)

Sempre foi assim. Onde estivessem, lá estava ela também. Fosse a pé, a cavalo, carroça, trem, carro, avião, helicóptero, por meio de telégrafo, telefone ou internet. Ela sempre esteve por perto.

A imprensa sempre foi a sombra de toda autoridade. Basta assumir o poder ? ou mesmo antes ? que a vida de uma pessoa pública se torna, literalmente, pública. É certo que as decisões políticas devem ser de total conhecimento da população, afinal foi ela quem decidiu quem deveria subir ao poder. E a imprensa serve exatamente para isso. Informar o que é de interesse da população.

Muitos críticos de mídia apregoam que o jornal Folha de S.Paulo possui uma ideologia esquerdista. Outros declaram o impossível; ela seria o veículo mais imparcial em termos políticos. Na verdade, a Folha um dos jornais de maior credibilidade do país oscila muito quando o assunto é política. A cobertura deste primeiro ano do Governo Lula não fugiu à regra.

Antes da campanha, a Folha costumava se referir a Lula como "ex-torneiro mecânico" ou então enfatizava suas três derrotas: "Após três eleições, Lula chega à Presidência da República". Sempre depreciava a carreira política do candidato. Mas, por contradições da vida, às vezes privilegiava a campanha do então candidato, dando a entender que gostaria de tê-lo como presidente.

Um tempo depois, na Folha Online, vê-se um site todo animado com uma foto de um presidente sorridente e simpático. A atração comportava links sobre a vida de Lula como "O eleito", outro para conhecer a história até chegar ao poder, "Repercussão internacional", entre outras bajulações.

O jornal parecia eufórico com a vitória. Afinal todos estavam ansiosos para as mudanças que o novo governo traria. A presença de Lula no Fórum Econômico Mundial de Davos, Suíça, trouxe "orgulho para a imprensa". Agora, a Folha era só elogios para o "ex-torneiro mecânico".

A edição de 28/1 ressaltava a importância do presidente se referindo a Lula como enviado de "uma importante delegação": "O governo brasileiro está se saindo muito bem até agora" e "Lula também foi elogiado pelo mega-investidor americano George Soros ? Ele disse que o presidente brasileiro é uma pessoa que quer fazer mudanças sociais".

Contra ou a favor

A popularidade do presidente começou a ter um declínio, pois se esperava mudanças bruscas. Em 9/4, a matéria "Governo Lula tem aprovação inicial de 43%, diz Datafolha", indicava uma mudança na linha em que o jornal vinha seguindo. Tomadas as devidas proporções, é claro.

Algo que se tornou alvo de perseguição foram as viagens do presidente. Desde sua eleição, era raro encontrá-lo no país. A matéria trazida de 24/10 intitulada "Governo vai controlar viagens de ministros" era uma leve ironia a estas viagens. Os discursos, os ternos, o regime, a dor no ombro de Lula, as roupas e a elegância da primeira-dama tudo era notícia e capa.

O mês de julho foi o mês do boné. Lula ganhou uma cesta com produtos feitos pelos sem-terras e junto com a cesta um boné. O presidente, para ser agradável, colocou o boné por questão de segundos. Foi o suficiente para causar um rebuliço. Ainda neste mês, ele esteve em Portugal e a matéria do dia 9 da Folha satirizava com o título "Em Portugal, Lula vai receber boné dos ?sem-visto?". Mesmo tempos depois, o episódio ainda era lembrado; "Em Alagoas, Lula abraça militantes e volta a usar boné do MST" (21/11); "Lula pede ao ?amigo? MST que o julgue só no fim do governo" (22/11).

Relembrando as oscilações, "Lula é o presidente com maior aprovação" (29/9); "Lula é aprovado por 42%, medo do desemprego sobe" (2/10); "Orçamento 2004 exclui parte dos pobres" (1.?/9). E outras notícias depreciativas como a ida do presidente e a primeira-dama à tradicional festa do chopp de Blumenau, Oktoberfest, tinham como suspensório "Presidente ganha presentes e reclama por não poder beber cerveja" (4/10).

A viagem do presidente ao Oriente Médio tem mostrado que, no momento, o ânimo da Folha com relação ao presidente não está dos melhores. "Chegada de Lula à Líbia gera tumulto" foi construída sob uma ótica negativa. O leitor, baseando-se somente no título, pode pensar que houve algo relacionado à briga, sendo que aconteceu exatamente o contrário. Na verdade, as pessoas queriam ver e aplaudir Lula.

A mesma matéria começa dizendo que "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou ontem às 19h20 a Trípoli, na Líbia, com duas horas e 20 minutos de atraso em relação ao programa divulgado" (10/12). Qual o presidente que nunca se atrasou?

Pelo visto, a Folha continuará nesse impasse até o fim do governo: ser contra ou a favor de Lula. Tais veículos de comunicação não devem se fazer presentes para expor sua opinião ? e, muitas vezes, movidas por interesses de uma minoria, muito pequena ? sobre a atuação do governo. Antes disso, devem agir, como representantes do povo.

(*) Chefe de reportagem da revista eletrônica Canal da Imprensa (
www.canaldaimprensa.com.br
)

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