Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > está vedada ao cidadão brasileiro a cobertura integral de um evento jornalístico desta importância. O eventual adversário da seleção numa final pode ser inteiramente desconhecido do público por força deste frustrado leilão.

As verdades no caneco

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

COPA DAS VACAS MAGRAS

Alberto Dines

Qualquer que seja o desempenho no gramado, qualquer que seja o resultado dos jogos, qualquer que seja o título ? penta, bi-vice ou campeão de coisa nenhuma ? esta Copa das Vacas Magras, apenas iniciada, já trouxe algumas lamentáveis certezas:

** O livre acesso às informações esportivas foi seqüestrado. Virou negócio. Ao que tudo indica, definitivamente.

** As coberturas esportivas deixaram de ser comandadas pela validade jornalística. Virou negócio. Ao que tudo indica, irreversivelmente.

** A entidade futebolística máxima foi contaminada pela corrupção das entidades nacionais (ou vice-versa). Virou negócio. Ao que tudo indica, irremediavelmente

** Futebol, o produto mais popular do sistema midiático em todo o mundo, está comprometendo a natureza do sistema. Tudo virou um único negócio. Ao que tudo indica, indissoluvelmente.

O problema está na Fifa e a Fifa está instalada na Suíça, regida pelas leis suíças que atendem à visão de mundo suíça. A Fifa não pode ser investigada por uma CPI multilateral. Nem submetida ao controle de um organismo internacional independente e honesto ? como a ONU, UNESCO ou a OMC.

Qual a relação da Fifa com a degradação do sistema midiático mundial? O preço cobrado pela retransmissão dos jogos da Copa. Este o cerne do problema. Seus desdobramentos são imprevisíveis porém inexoráveis.

A crise econômica mundial não é a culpada, apenas contribuiu para tirar o fôlego dos tradicionais patrocinadores. Vetor e irradiador desta degradação é a Fifa convertida num negócio em si. Para pagar fábulas de dinheiro aos seus dirigentes. Para canalizar outras fábulas de dinheiro para as entidades nacionais. E para pagar fábulas de dinheiro aos futebolistas ? jogadores e equipes técnicas ? hoje desprovidos de qualquer espírito desportivo. Sem falar nos inevitáveis desvios para intermediários, corretores, promotores etc.

O despudorado mercantilismo (ou negocismo) começa lá em cima, no Olimpo alpino. Mas acaba lá embaixo, castigando o miserável cidadão ? aquele que só se integra ao sistema midiático através do seu canal mais rudimentar, a transmissão dos jogos através do radinho de pilha.

Por um triz conseguiu-se evitar a proibição das retransmissões pelas parabólicas. Este Observatório e alguns poucos puseram a boca no trombone [remissão abaixo], o governo cutucou a Rede Globo e, de repente, num passe de mágica, o dito ficou pelo não-dito e a cobertura dos jogos foi estendida às parabólicas. Se consumada a violência, equivaleria a tirar o circo inteiro de quem só tem uma fatia de pão.

Agora, mal começado o certame, verifica-se que também a rede radiofônica nacional está sujeitada ao perverso sistema de exclusividades decorrente do alto custo dos direitos cobrado pela Fifa. O Sistema Globo de Rádio abocanhou no mesmo pacote a exclusividade da narração dos jogos. E exigiu dos concorrentes soma tão grande pela retransmissão que nenhum deles conseguiu vender quotas de publicidade para financiá-la.

Acontece que a rede radiofônica nacional é o canal de comunicação mais acessível, universal, popular e democrático. Verdadeiramente social e público. Impossível e irrelevante saber se a Rádio Globo e suas afiliadas alcançam todos os grotões do território nacional. O que importa nesta questão é o radinho de pilha que acaba de perder o botão do "tuning". No Brasil, neste momento, está travado o sintonizador de estações porque o assunto que une e integra o país, o futebol, no mais popular meio de comunicação ficou restrito a uma única estação de cada lugar. Com os mesmos jornalistas, os mesmos comentadores e uma única versão dos fatos. Está avariada a célula matriz do sistema de circulação de informações, crucial no processo de integração de um país-continente ? o rádio transistorizado e portátil. O mesmo aconteceu na TV [veja remissões abaixo].

Resultado: está vedada ao cidadão brasileiro a cobertura integral de um evento jornalístico desta importância. O eventual adversário da seleção numa final pode ser inteiramente desconhecido do público por força deste frustrado leilão.

Sob o ponto de vista esportivo é uma aberração, anti-esportiva.

Sob o ponto de vista estritamente jornalístico, é outra aberração, anti-jornalística.

Estas observações não pretendem satanizar apenas o Grupo Globo. O quase monopólio informativo escancarado abertamente nesta Copa é culpa, igualmente, dos demais grupos de comunicação que, até hoje, não conseguiram reunir-se para criar um concorrente e, assim, garantir suas próprias sobrevivências.

Antes da crise econômica e antes da parceria Folha-Globo (para formar o diário Valor) existia a possibilidade concreta de uma associação entre um jornalão paulista, uma rede aberta de TV, uma rede paga, uma de rádio, um jornal carioca e uma grande editora de revistas. Estaria formada uma frente capaz de criar aquele mínimo de competição no panorama midiático nacional e abortar a unilateralidade jornalística a que estamos assistindo.

O resto do empresariado brasileiro de comunicação não teve competência para pensar estrategicamente nem está tendo competência para denunciar a grave distorção nos seus próprios veículos. Querem viver em paz nos respectivos mundinhos e quem sai prejudicado é o cidadão-consumidor de informações.

A grande verdade é que nesta festa esportiva, enquanto a Globo colhe os frutos de sua audácia, os demais grupos recolheram-se às respectivas insignificâncias.

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