Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > manhattan CONNECTIONS RACISTA?

Ascensão negra, medo branco

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106


manhattan CONNECTIONS
RACISTA?

Ellaine Pereira Rocha

Na primeira semana do milênio, os telespectadores foram surpreendidos por um dos mais tristes exemplos do racismo que marca o pensamento de alguns representantes da mídia brasileira.

Refiro-me a Caio Blinder, Nelson Motta, Lucas Mendes e Arnaldo Jabor, pessoas de renome e respeitados formadores de opinião da mídia brasileira. O programa manhattan Connections, que vai ao ar pelo canal GNT, promove, sobre os mais diversos assuntos, debates e diálogos entre jornalistas ? gente, como o apresentador Lucas Mendes diz, "que viaja". Um dos temas do programa do dia em questão foi a nomeação de dois assessores negros para importantes cargos no governo Bush. A escolha do presidente norte-americano foi duramente criticada.

Para os presentes, o general Colin Powell ? nomeado Secretario de Estado ? e a Dra. Condoleeza Rice ? nomeada Conselheira de Segurança Nacional ? só foram indicados porque são negros. Teriam sido escolhidos para dar um "ar de representatividade" ao governo.

Segundo Caio Blinder, a decisão de Bush deveu-se à "falta de pessoas negras competentes" para ocupar tais postos. De acordo Arnaldo Jabor, foi um despropósito, porque os negros americanos jamais deveriam fazer parte do governo republicano, devendo sempre apoiar os democratas. Esqueciam-se os "viajados senhores brancos" que Abraham Lincohn era republicano e que, nos EUA, o racismo não é parte de uma doutrina partidária, mas sim uma visão pessoal do mundo.

Começou então um pseudo debate, no qual se tentou distorcer a realidade da nomeação desses dois assessores na frente das câmeras do canal de televisão que se propõe como uma alternativa no Brasil. Foram ditos verdadeiros absurdos, que atingiram em cheio a dignidade de toda a raça negra.

O general Colin Powell tem mais de 35 anos de vida militar no exército americano. Destacou-se na guerra do Golfo, ao liderar a operação que neutralizou a ofensiva iraquiana, além de outras missões que conduziu com distinção, a ponto de ser considerado uma das figuras mais proeminentes da atualidade. O The New York Times, ao comentar a nomeação, afirmou que Powell deverá se tornar o mais poderoso Secretário de Estado Americano desde Kissinger, cuja gestão marcou a história mundial.

Sobre a Dra. Condoleezza Rice, vale lembrar que ela é PhD em Ciências Políticas e tem assessorado o governo republicano desde o governo de George Bush pai, no período de reunificação da Alemanha e da extinção da União Soviética. Foi convidada para compor o Conselho de Segurança Nacional devido ao seu grande conhecimento de política internacional, além da competência para gerenciar projetos especiais de cunho político.

Na visão de Blinder e Jabor, a Dra. Condoleezza foi nomeada "só porque é preta e porque é mulher", afirmação repetida e aplaudida por este último, que ainda acrescentou que a representante do novo governo americano "dá um bom caldo", um "bom feijão". Ao que Nelson Motta emendou: um feijão com arroz, já que o sobrenome dela é Rice.

A nomeação de duas pessoas da raça negra, uma delas do sexo feminino, deixou os participantes perplexos e levou o programa ao cúmulo da falta de ética, do racismo e do sexismo. A Dra. Rice foi apresentada como uma "solteirona mal amada", educada por uma "mãe obstinada que colocou a filha de três anos para aprender espanhol e francês e aos quatro anos para aprender piano, criando assim um monstro que nem sequer conseguiu um marido".

O jornalista Arnaldo Jabor afirmava haver "estudado" a biografia da americana. Entretanto, ridicularizou tudo o que poderia ser considerado positivo ?do conhecimento da doutora sobre a política de armamento do governo soviético, tema de sua tese de doutoramento, aos cuidados de sua mãe, seus estudos e sua competência.

Capacidades e qualidades que seriam elogiáveis em qualquer ser humano foram expostas como defeito, dando a nítida impressão de que esse é um exemplo perigoso, que poderia ser seguido pelo Brasil, onde as pessoas só querem ver negros famosos em função do futebol ou do samba; e as negras, rebolando seminuas, de preferência aceitando satisfeitas o assédio dos machos brancos.

E eu então me pergunto: o que sentirão esses jornalistas ao verem a foto do General Powell colocada no alto da entrada de todas as embaixadas e consulados americanos do mundo? O que sentem ao saber que um negro ocupa um dos cargos políticos mais importantes do planeta e que receberá as honras de chefes de Estados, incluindo o do nosso país?

Que eles se preparem, porque há muitos outros negros e negras por aí, competentes profissionais, cientes de seu próprio valor, avançando a passos firmes. Muitos deles, aqui no Brasil, aplaudindo de pé as nomeações, porque sabem que Powell e Rice estão preparando o caminho para os demais, que já começaram a marchar.

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