Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / MARCEL PLASSE

Aspectos éticos da imprensa cultural

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

ENTREVISTA / MARCEL PLASSE

Rodney Brocanelli (*)

Nos últimos dias, a revista Carta Capital reabriu o debate sobre limites éticos no jornalismo esportivo, enfocando a questão dos jornalistas e apresentadores de TV que fazem as vezes de garotos-propaganda. É uma discussão que pode ser transportada (e adaptada) para o jornalismo cultural. Para falar desse assunto, ninguém melhor que o jornalista Marcel Plasse, 40 anos, colaborador de diversas publicações como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e Valor. Atualmente ele escreve para Playboy e toca sua revista, Pipoca Moderna, voltada aos lançamentos em DVD.

Plasse fala nessa entrevista sobre alguns aspectos éticos da imprensa cultural, não se furtando a comentar alguns casos dos quais foi protagonista, seja como editor da revista Vírus ou como responsável pela seção de música do Estadão em 1998. E comenta a relação nem sempre muito clara entre algumas gravadoras com a área cultural de algumas redações, que culmina no pagamento de viagens a jornalistas para a cobertura de shows ou eventos no exterior.

Você foi um dos primeiros jornalistas a lançar uma revista solo de música, a Vírus, que circulou a partir da segunda metade da década de 90. Ela durou algum tempo e acabou. O que aconteceu? Qual foi a lição tirada dessa experiência?

Marcel Plasse ? A Vírus tentou ser uma alternativa à Bizz/Showbizz, apresentando com destaque artistas que não tinham espaço na imprensa mainstream. Era uma aposta ousada, típica de críticos de rock. Foi uma aventura passional, que rendeu muitas brigas e custou dinheiro. Era para ser bimestral, mas com sorte saía a cada três meses. Mesmo assim virou cult. Tinha lá mil indivíduos que compravam a revista sempre que ela saía. Como laboratório de experiências, foi privilegiada. Até distribuição banca-a-banca foi tentada, num esquema de carro e perna mesmo. Deu uma bela canseira, mas provou um ponto: que a distribuição nacional não funciona para pequenas editoras. A revista em que tentamos o corpo-a-corpo foi a que mais vendeu. Quando falo “nós”, refiro-me também a Jeferson de Sousa, meu sócio na Vírus. Outro problema é que a Vírus era realizada como projeto paralelo. De dia, tínhamos as nossas carreiras de jornalistas, que pagava as contas, e virávamos a madrugada trabalhando na revista. Isso provocou diversos atrasos. Esta foi outra lição: é preciso dedicação total num projeto impresso. A Vírus nunca deu lucro, nem empatou suas contas. O único dinheiro que entrava mesmo era os das grandes gravadoras. Nenhuma gravadora independente investiu um centavo na Vírus, mesmo concentrando o espaço no alternativo. Foi quando tentamos colocar na capa um artista nacional que estava em alta na época, os Virgulóides, para tentar viabilizar o projeto. Os leitores fiéis ficaram revoltados, apesar do tratamento crítico dado à reportagem ? Ricardo Alexandre, que depois criou a Frente, escreveu, a nosso pedido, um texto desancando a banda. Isto, claro, não ajudou a conquistar os fãs dos Virgulóides. Fizemos uma última tentativa: uma revista com capa dupla ? de um lado, Planet Hemp, na época da prisão em Brasília, com aposta na reportagem investigativa, e do outro o Blur, no que pode ter sido sua única capa no Brasil. Dobramos a tiragem e prendemos a respiração para ver no que ia dar. Deu em mais de U$ 4 mil de dívidas que inviabilizaram a continuação do projeto.

A Vírus trazia anúncios publicitários de CDs das bandas que eram tema de reportagens e resenhas na revista. Um caso clássico foi uma edição cuja capa foi dada aos Virgulóides e que, na contracapa, trazia um anúncio da banda (pago pela gravadora) em questão. Esse tipo de coisa não criou uma imagem negativa para o leitor com um pouco mais de senso crítico?

MP ? A Vírus quase não tinha anúncios. Os anúncios de gravadoras eram, em média, três por edição. Para você ter termo de comparação, comentávamos por volta de 100 bandas por edição, entre entrevistas, reportagens e críticas. Não tínhamos política de falar bem dos artistas anunciados, prova disso é o já citado caso dos Virgulóides. E só tínhamos a Vírus por causa dos anúncios das gravadoras. Trata-se de uma característica típica das revistas no Brasil: revistas de música são bancadas com anúncios de gravadoras, de DVD com anúncios de distribuidoras de DVD e assim por diante. O leitor com um pouco mais de senso crítico sabe disso.

Queria abordar um episódio ocorrido em 1998. Você, além de ser colaborador de O Estado de S. Paulo nessa época, trabalhou para a empresa que fez a homepage do festival Close Up Planet desse mesmo ano. Independentemente das condições do serviço prestado, isso não cria um embaraço de ordem ética, uma vez que você fez a cobertura do festival para o jornal?

MP ? Sim, concordo. Mas isso fugiu das minhas mãos. Meu editor da época, no Estadão, sugeriu gentilmente que eu cobrisse o evento, mesmo após eu ter recusado por conta de um possível conflito ético. Àquela altura, meu trabalho no site já tinha acabado, mas argumentei sobre a possibilidade de a cobertura ser questionada por conta disso. Ele disse que tinha confiança no meu senso crítico. Fiquei como única opção de cobertura para o jornal e isto foi passado claramente a mim. Diante do pedido, que também era um elogio a minha suposta integridade, e diante da possibilidade de sofrer algum tipo de retaliação pela insistência na recusa, acabei cobrindo o evento, espero que de forma isenta. Recentemente, li sobre caso similar comentado na coluna semanal do ombudsman da Folha, que terminava admoestando o jornalista na base da mulher de César ? “não basta ser honesto, tem que parecer honesto”. César, por outro lado, nunca precisou ser ou parecer nada além de César. Quem já trabalhou em alguma redação de grande jornal conhece o significado da expressão Operação Portugal ? ou simplesmente OP. É quando um jornalista recebe a incumbência de elogiar ou cobrir evento de um amigo do editor ou do proprietário do jornal. Quem se recusa, pode perder o emprego. Quem fala mal do amigo do amigo, também. São, digamos, lendas da imprensa cultural os casos que levaram à perda de colunas ou empregos de André Forastieri, Luis Antônio Giron e Vinícius Torres, para ficar em nomes conhecidos. Há também a tendenciosa brodagem, que, inocentemente, digamos, coloca nas páginas dos principais diários brasileiros elogios a trabalhos de amigos dos próprios jornalistas. Como se vê, a discussão de ética na imprensa é muito mais ampla do que os fuxicos de falsas entrevistas podem supor. E não se pode achar que jornalista é uma espécie à parte da humanidade. Ele está inserido no mesmo sistema econômico e social que faz com que profissionais de diversas categorias, como policiais, médicos e professores, exerçam jornada dupla. Jornalista ganha mal para caramba! Para piorar minha situação, posso dizer que peguei o site para quitar as dívidas da Vírus e das duas coletâneas No Major Babes, que reuniu pela primeira vez as mais variadas vertentes do pop/rock independente do Brasil. Produzi os dois CDs com U$ 7 mil, mas fui malhado pela imprensa por ter levado dois anos para gravar 34 bandas. Enfim, então uma situação irregular levou à outra. Você pode analisar isso de várias formas. Uma delas é que jornalistas não deveriam fazer projetos individuais enquanto fazem parte da grande imprensa.

O ano de 2003 foi marcado pela denúncia de várias fraudes jornalísticas e pelo menos uma delas ocorreu na área cultural. Numa entrevista ao OI, o jornalista Lúcio Ribeiro disse que existem vários desses casos na grande imprensa. Qual a sua opinião a esse respeito?

MP ? Há um filme sobre isso, agora: Chattered glass. O New York Times fez matéria maravilhosa sobre o assunto, mostrando que tanto para Hollywood quanto para as séries policiais de TV dos EUA os jornalistas deixaram de ser figuras heróicas e éticas. Saíram os protótipos de Bob Woodward e Carl Bernstein e entraram malvadões à la Jayson Blair e Stephen Glass. A conclusão do artigo é que Blair e Glass jamais foram confrontados pelos personagens de suas matérias falsas simplesmente porque as pessoas, supostamente entrevistadas, achavam que era assim que a imprensa trabalhava. Chegou a ter repercussão no Brasil o caso de uma entrevista com Chico Buarque, publicada numa revista, que o músico jurou nunca ter dado à jornalista que a assinava. Mas há também o exemplo de Sílvio Santos, que mentiu ao ser entrevistado. Não se pode dizer que a entrevista dele tenha sido inventada. Também não se pode descartar a possibilidade de um entrevistado negar ter dado a entrevista em primeiro lugar. Todos os fãs de música viram Quase famosos, quando a banda do filme mente à Rolling Stone, dizendo que o jornalista inventou toda a reportagem. Então, não é tão simples assim julgar as pessoas.

Qual a sua opinião sobre a relação entre as assessorias de imprensa das grandes gravadoras e a imprensa cultural? O pagamento de passagens para a cobertura de shows no exterior, entre outros exemplos, não cria uma certa promiscuidade?

MP ? Há alguns veículos que mantêm a política de não aceitar passagens para cobertura, e trazem sensivelmente menos reportagens feitas sobre eventos no exterior ou mesmo em outros estados. Há o caso de jornais que aceitam as passagens e escrevem que o jornalista viajou a convite de determinada empresa ou gravadora, acreditando que a passagem paga não comprometa a isenção do jornalista. Ambos os casos, porém, mantêm editorias de Turismo que sobrevivem às custas do financiamento de agências, geralmente por meio de convites e passagens pagas. No caso do turismo, a promiscuidade, como você denomina, é aceita sem maiores questionamentos, porque é esperada. Há exemplos piores que a esmola da passagem, como a pressão pura e simples, exercida por ameaça ou rompimento comercial. Isto acontece direto, e já foi registrado em reportagens feitas sobre a Bizz e a briga Gugu-Faustão.

Quais as vantagens em não se manter um vinculo empregatício com as publicações para as quais você escreveu ou escreve? Foi assim com a Folha, com o Estadão, com o Valor e agora com a Playboy. A vida de freelancer é dura como muitos dizem por aí?

MP ? Vantagem para o patrão, que não paga INSS, FGTS, 13? salário e férias. Creio que o freelance só consegue se manter após ter conquistado um nome na imprensa, valorizando o preço de suas matérias e conquistando colunas fixas. Quando ele escreve, seu status não é o de “freelance para o jornal”, mas de “especial para o jornal”. Nesses casos, a vida longe da redação pode ser suave.

Como você avalia a crítica musical da atualidade?

MP ? A falta de uma publicação forte, de penetração nacional entre os mais diferentes fãs de estilos musicais, a extrema segmentação das publicações e a facilidade tecnológica com que qualquer um pode montar um blog ou um site ajudam a criar essa dispersão atual. A internet criou a ilusão de que todos podem ser críticos, graças ao MP3, que permite conhecimento rápido das novas tendências, e à praticidade com que se pode publicar uma opinião. E, por isso, talvez o último nome da crítica musical, como a conhecemos, seja Lúcio Ribeiro, que em sua coluna atualiza a função de garimpagens de bandas novas que começou nos anos 80. Lúcio é sincero e realmente gosta do que recomenda. Mas não deixa de incorporar e inspirar o jornalismo hiperlativo dos blogs. Se por um lado todos acreditam que têm direito a criticar e opinar, seja na imprensa como blogueiro ou num blog como jornalista, a crítica cultural se reduz a encontrar novidades ou tendências. Por outro lado, o efeito colateral dessa explosão de opiniões faz com que nenhuma opinião seja realmente relevante. Há consensos brutais que tornaram a função do crítico supérflua. Ele só tem que concordar com o que todos dizem. Lembrando que há o bloco dos contras, que devem discordar dos consensos porque é a única forma de se destacar da manada. Mas, na verdade, a crítica tinha que crescer. Deixar os blogs para os meninos e levar o jornalismo cultural para uma fase adulta, em que se torne jornalismo investigativo ou antropologia cultural.

Fale um pouco mais da revista Pipoca Moderna.

MP ? Pipoca Moderna combina o velho idealismo com uma visão mais amadurecida do mercado. Tem uma tiragem de 30 mil exemplares. É gratuita, portanto tirou do leitor a função de sustentá-la. Quem a sustenta são anúncios ? de distribuidoras de DVD, sim, de gravadoras, pizzarias, livrarias, de quem anunciar. Sua ambição não é a de informar um grupo seleto de pessoas, mas de chegar ao maior número possível de leitores. O alcance deve ser amplo porque o público de DVD é amplo. Nem por isso é um produto pobre. Creio que tem ótima qualidade editorial, artística e gráfica. O fato de não tratar diretamente de cinema, mas de DVD, permite que fale aos fãs, e não aos demais críticos. A idéia associada à imagem da Pipoca é essa: diversão. Por esse conceito, Indiana Jones é a coleção mais aguardada do ano, e não a caixa de, digamos, Fellini. É possível fazer uma crítica de cinema com estilo pop, embora não se veja isso sendo feito cotidianamente. Talvez porque, do mesmo modo que na música pop, os consensos da crítica de cinema também são brutais. É pior ainda, pois o cinema tem o status de arte que o rock não tem, e sua seleção de especialistas oficiais não muda na grande imprensa há várias décadas. Assim, seus consensos atravessam gerações.

(*) Colaborador dos sítios Ruídos, Canal B, Esquizofrenia, 3am e Papo de Bola; blog pessoal: <http://onzenet.blogspot.com>

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